Correio B

LITERATURA

Conheça a escritora que viaja todo o Mato Grosso do Sul para divulgar cordel

Do sertão da Paraíba até Dourados, folhetos da tradição cultural nordestina marcam a vida e a arte da escritora Aurineide Alencar

“Pra todo canto que olho/Vejo um verso se bulindo”. A inspiração febril, ingênua e onipresente de Patativa do Assaré (1909-2002), ícone maior da literatura de cordel, funciona como uma síntese da vida e da arte da escritora Aurineide Alencar.  

Nascida em Catolé do Rocha, no sertão da Paraíba, a 400 quilômetros da capital João Pessoa (PB), a autora se mudou com a família para Dourados há quase 40 anos e, sem nunca se afastar do cordel, tornou-se uma grande representante das tradicionais rimas nordestinas em Mato Grosso do Sul.

Antes mesmo de frequentar a escola em sua cidade natal, Aurineide se alfabetizou, praticamente por conta própria, com a ajuda dos folhetos que costumavam trazer uma xilogravura na capa. E fez dessa experiência o seu diferencial como professora.  

Trinta anos depois, já aposentada e com dezenas de folhetos de sua própria autoria publicados, ela transformou seu ousado projeto educativo e literário em um sonho sobre rodas. 

Adaptou uma Kombi para dar vida à Cordelteca Itinerante, com a qual tem circulado para propagar uma arte que nasceu, e em grande parte ainda se mantém, nas mãos e mentes masculinas.

MUNDO DOS  REPENTISTAS

A chegada no Estado, em agosto de 1983, foi por Deodápolis (MS), com os pais, os irmãos e a família de uma tia. Tempos depois, começou a estudar Letras em Dourados, graduou-se e passou a dar aulas. 

“Vivi em Catolé do Rocha até os 18 anos. Essas duas famílias vieram em busca de melhorias, já que nessa época a vida no sertão era muito difícil, principalmente em família numerosa. O cordel faz parte da minha vida desde que eu nasci, pois naquela região até os dias de hoje usa-se muito o sistema de cantorias, existem festivais de repentistas. Tanto que em quase toda família tem um metido a ser cantador, violeiro, essas coisas”, conta Aurineide.

As cantorias de viola dos repentistas fazem da literatura de cordel uma expressão não somente escrita, mas também oral. 

Mesmo sem a catimba dos trovadores e dos violeiros nordestinos, os fãs dos folhetos se acostumam, desde a infância, a ouvir e a declamar o conteúdo dos folhetos. 

O modo de compor as estrofes segue as mesmas regras de rima e metrificação (redondilha maior ou menor) e também, nos dois casos, busca inspiração na temática sertaneja – o cotidiano na roça, o destino de retirante, o choque na cidade grande, etc.

“Quando eu era pequena, meu pai sempre comprava os folhetos para eu ler para ele escutar, já que ele era analfabeto. Com isso, eu fui me apaixonando pelos versos rimados e metrificados do cordel. Aprendi a ler fluentemente ainda criança e já me botava a escrever alguns versos, nessa época era em quadras. Nesse tempo eu nem registrava nada. Costumava dizer que eu criava para o vento”, diverte-se a cordelista de 56 anos em meio às memórias pessoais.

TEMA E TÉCNICA

Os temas dos folhetos “vão surgindo conforme a necessidade”, conta a escritora. 

“Se for de ficção, eu já vou imaginando e escrevendo, se for um cordel histórico, geográfico ou informativo, eu procuro ler, pesquisar, preciso de uns dias para processar aquele conteúdo, e daí passo para o cordel. Temas transversais, datas comemorativas, conforme for. A técnica do cordel é a regra obrigatória, que é: ritmo, rima, métrica e oração”, ensina Aurineide, que desde 2010, quando passou a lançar seus escritos, acumula 111 folhetos publicados, parte deles em antologias individuais (cinco livros e dois e-books).

O primeiro folheto, “A Escolhida” (2010), é uma homenagem a Dourados. Os três mais recentes foram lançados em dezembro. Um deles trata do assédio moral e sexual contra a mulher. 

“Maria das Neves [Baptista Pimentel, nascida em João Pessoa em 1913 e falecida em 1994], a primeira mulher cordelista, inclusive, é minha patronesse na Academia Literária do Clube da Poesia Nordestina. Ela tem sido a inspiração de todas nós, mulheres cordelistas. Conheço muitas mulheres no movimento do cordel, inclusive, faço parte de um, chamado Cordel das Rosas”, afirma.

“O cordel tem o poder de esclarecer as pessoas e, usando de sua linguagem popular, falar de qualquer assunto, seja político, religioso, científico”, defende. Entre os poetas homens ela destaca, entre os clássicos, o paraibano Leandro Gomes de Barros (1865-1918) e o cearense Patativa do Assaré, autor dos versos que abrem este texto. “E, os atuais, tem Zeca Pereira, Marciano Medeiros e Mané Beradeiro, que admiro e sigo”, enumera a cordelista.

MESTRA DA RIMA

“Eu escrevia apenas para meus alunos. Já no fim da minha carreira profissional, passei a me dedicar a essa arte, assumindo totalmente após a minha aposentadoria”, diz a escritora paraibana, que integra academias literárias sul-mato-grossenses e de outros estados, além de ser uma das fundadoras da Associação dos Cordelistas de Mato Grosso do Sul (Acoms).

Sua antologia mais recente é o e-book “Semeadora de Cordéis” (Editora Arrebol, 2021), publicado com recursos da Lei Aldir Blanc. Em parceria com a escritora Odila Lange, apresenta-se como a primeira metade da dupla de trovadoras Oxente & Tchê. 

“Fiquei 29 anos em sala de aula, sempre utilizei o cordel como um facilitador da lectoescrita [habilidade de ler e escrever]. Acreditava tanto neste fato que cheguei a defender isso em uma dissertação de mestrado. Sempre acreditei ser uma forma mais amena ou até divertida de compreensão para assuntos que, às vezes, são mais complexos”, comenta Aurineide, que tem algumas de suas obras publicadas também no Paraguai e na Argentina.

Pena que uma linguagem tão popular e de tanto apelo junto aos jovens não seja tão acessível. 

Nas livrarias, por exemplo, encontrar um exemplar ou antologia de folhetos não chega a ser impossível, mas é coisa rara. Raridade ou não, no universo que Aurineide escolheu trilhar, as rimas metrificadas fazem parte do dia a dia. Será esse o motivo de a autora viver sorrindo?

“O cordel é para mim como o ar que a gente respira. Eu não vejo a vida sem o cordel. Ele é capaz mesmo até de curar doenças, pois eu mesma já vivi isso. Enquanto a pessoa está lendo e se envolvendo, é capaz de esquecer as dores, as coisas desagradáveis. Cordel é alegria, é vida”, responde a mestre, sem pestanejar.

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