Em vez de “alô”, “bom dia” ou “boa tarde”, o técnico em manutenção residencial Jenildo Lima Andrade diz apenas a palavra “sabedoria” quando atende ao telefone.
Outros termos, bem menos comuns, que ele costuma utilizar são “coach” e “mindfulness” – que significam, respectivamente, conselheiro pessoal na acepção contemporânea e uma forma de meditação que ganhou o mundo nos últimos anos, após fazer a cabeça de personalidades do jet-set norte-americano.
Por trás do vocabulário alternativo está o autor de um adesivo contendo apenas a frase “Respire fundo 3x…”. O conselho, para Andrade, é milagroso, e o técnico garante que pôde atestar a sua eficácia em uma situação pessoal de muita dificuldade, que o deixou prestes a cometer suicídio.
Desde então, além de tocar seu negócio de reparos domésticos, ele empreende uma cruzada para democratizar a mensagem que lhe salvou a vida e contribuir para um mundo menos estressado.
Jenildo vende – cem unidades por R$ 40 – ou distribui gratuitamente os adesivos, e vem tentando tornar a sua ideia, singela, prática e de potencial revolucionário, cada vez mais conhecida.
Tente colocar em prática o que o técnico chama de micromeditação enquanto lê essa reportagem e veja os possíveis efeitos ao fim da leitura. Bastam, segundo ele, 30 segundos. Pode ser em qualquer lugar e a qualquer hora, é só fazer o que diz o texto.
“O nosso país é o país mais ansioso do mundo, e praticar a meditação tradicional de 5 ou 10 minutos é muito exaustivo para a pessoa que está, vamos falar, ‘ligada a 220 quilômetros por hora’. A minha ideia é fazer a micromeditação constante durante todo o dia, por meio da metodologia do adesivo, que é colocado na geladeira, no painel do carro, no retrovisor, na tela do computador, que é hoje onde se trabalha muitas vezes, ou no celular. Você não pára para respirar, então esse micromeditar e respirar vai trazer a consciência, oxigenar o cérebro e o corpo no dia a dia”, afirma Andrade.
QUASE QUASE
Após a crise de ansiedade que quase o levou a fazer “uma besteira”, o técnico voltou-se para o cuidado consigo e com os outros. Aos poucos, ele vai se tornando um especialista em bem-estar que utiliza como principal ferramenta a respiração.
“Venho estudando sobre coaching. Estava lendo, inclusive, um livro sobre mindfulness, atenção plena, e é muito complexo. Você fala ‘o que é que significa isso?’, até colocar em prática, internalizar, é muito complexo”, argumenta Andrade.
“Em um momento de crise que eu tive, muitos pensamentos, muita angústia, síndrome do pensamento acelerado, escrevi ‘respire fundo três vezes’ e coloquei na tela do painel do meu carro. Eu estava para acelerar o carro para acertar o primeiro poste e, quando olhava para o papel, trazia a respiração. Fui respirando. Quando eu vi que a respiração desacelerou a mente e o corpo, aí desacelerei o carro e tive novos comportamentos, novas percepções”, relata.
TRADIÇÃO
A noção mais recorrente de meditação está relacionada a métodos e técnicas ancestrais, que se popularizaram a partir dos anos 1950.
Seu objetivo é ajudar na concentração mental, no foco do presente e na tranquilidade pessoal.
Ambientes silenciosos, posturas específicas, a prática do yoga e mesmo religiões, como o cristianismo ou o budismo, em tempos remotos, pavimentam o caminho que leva para essa meditação, digamos, mais tradicional; que, se anteriormente era indicada para exercícios de duração mais longa, passou a ser recomendada em porções mais breves, de 20 ou até mesmo de 10 minutos.
O importante é não deixar de fazer todos os dias, ensina o cineasta David Lynch, adepto da prática há décadas, em seu livro “Em Águas Profundas – Criatividade e Meditação”.
Ou seja, talvez Andrade tenha de se acertar com gurus mais veteranos e experimentados, pois, ao que se vê, a micromeditação já circula pelo mundo há mais tempo do que se pensa. Talvez, quem sabe, ele poderá se tornar mentor de uma nova modalidade – a nanomeditação, praticada em uma fração de tempo de segundos.
OXIGÊNIO E NOBEL
Para o técnico em manutenção de residências, esses poucos segundos, das três respirações profundas, foram mais que preciosos e lhe valeram a vida. Jenildo tem formação como terapeuta em duas técnicas – Técnica de Liberação Emocional (EFT) e Abordagem Integral da Mente (AIM) – e está fazendo curso para ser professor de meditação.
“A minha visão é usar a respiração como âncora. Segundo as pesquisas, se eu não faço a respiração profunda consciente, uso em média 30% do pulmão. Se vem qualquer vírus ali, ele já está frágil com esses 30%, e a tendência é debilitar mais a pessoa. Quando eu faço a respiração profunda, encho o pulmão de oxigênio e fortaleço todo o sistema respiratório, são vários músculos em ação”, orienta Andrade, que voa longe ao sonhar com o desdobramento do que já se tornou sua segunda atividade.
“O meu objetivo, quem sabe um dia, é conquistar até o Nobel da Paz, semeando a paz por meio desses adesivos”, aposta o técnico.