Inaugurado no mês de novembro, no Rio de Janeiro, o Museu da História e Cultura Afro-Brasileira (Muhcab) é a mais recente e vistosa vitrine do afrofuturismo, um conceito relacionado à ancestralidade africana, bem como sua apropriação de diferentes formas pela sociedade global contemporânea.
O Muhcab localiza-se na Pequena África, região central do Rio, com um acervo e orientação que procuram acertar contas com o passado por meio de curadorias engajadas, sem forçar no ranço da militância, e homenagens a personalidades como o ator Grande Otelo (1915-1983), a quem o museu dedica uma de suas salas.
Atribui-se a origem do termo afrofuturismo ao ensaísta norte-americano (branco) Mark Dery, que pretendeu, com a expressão, reivindicar mais melanina na ficção científica de seu país a partir da segunda metade dos anos 1980, especialmente na criação literária.
“Se você é negro, é melhor nem dar as caras na rua; a menos que queira atrair uma batida policial”. São os versos de uma antiga canção de Bob Dylan, “Hurricane” (1975), lançada em apoio ao pugilista Rubin Carter (1937-2014), que havia sido injustamente condenado por assassinato em decorrência de preconceito racial. George Floyd (1973-2020) ainda era um bebê na época.
Em maio de 2020, um vídeo com imagens de Floyd sendo covardemente assassinado pelo policial branco Derek Chauvin viralizou e fez o mundo gritar “Vidas Negras Importam”, slogan da campanha que busca chamar atenção para o racismo de Estado e toda a monstruosidade que cerca os crimes de cor. O crime ocorreu na cidade de Minneapolis, no Minnesota, o mesmo estado de nascimento de Dylan, nos EUA.
PROTAGONISMO
Sem ignorar a pulsação desse front sangrento e terrível, o afrofuturismo vem ganhando protagonismo no contexto dos movimentos globais de afirmação e luta por igualdade racial, estendendo a sua presença – e, portanto, das causas que representa – em ambientes da sociedade e da mídia que normalmente não se ocupam da pauta militante.
O termo reúne um conjunto de informações históricas, científicas e filosóficas que alia ancestralidade, gosto pela tecnologia e apuro estético.
Sua expressão mais visível pode ser encontrada nas artes, na moda, nos canais de comunicação de massa, mas também no ativismo civil e na literatura da filósofa Djamila Ribeiro ou do ficcionista Fábio Kabral.
Com sobrenome que lembra e subverte o emblema do “descobrimento”, bem entre aspas, e da exploração colonial brasileira, Kabral é o autor de prosas como “O Caçador Cibernético da Rua 13” (Editora Malê) e “Ritos de Passagem” (Editora Giostri), entre outros títulos de ficção fantástica.
CINEMA E JAZZ
Criando um mundo governado por mães de santo empresárias com poderes paranormais ou com foco em jovens que alimentam paixões e revoluções em uma realidade distópica, o escritor carioca defende, em suas entrevistas, a origem africana do eletromagnetismo.
Na música, o pioneirismo afrofuturista pode ser atribuído ao jazzman Sun Ra (1914-1993), que afirmava ter nascido em Saturno e, desde os anos 1950, praticava uma estética musical e visual de feições intergalácticas.
Talvez o ícone de maior reconhecimento do afrofuturismo na cultura de massa seja Chadwick Boseman (1976-2020) a partir do sucesso do filme “Pantera Negra” (2018), protagonizado pelo ator norte-americano. Recentemente, a plataforma de conteúdo digital do Sesc dedicou uma mostra ao afrofuturismo.
No esporte, o piloto inglês Lewis Hamilton certamente é um dos que saem na frente quanto à renovação de uma retórica de militância e afirmação.
BROWN E MS
O percussionista Carlinhos Brown e jovens cantoras como Xênia França e Larissa Luz mostram que a força cultural da negritude baiana permanece na crista da onda quando o assunto é afrofuturismo na música brasileira, dividindo os holofotes com expoentes de outras geografias, como Ellen Oléria, de Brasília.
Fazendo o caminho de volta, no arco da diáspora, para o próprio continente africano, vale reparar a expressividade e a contundência de uma nova geração das artes visuais que vem dando o que falar entre críticos e curadores, a exemplo do fotógrafo Kudzanai Chiurai, do Zimbábue, do artista queniano Cyrus Kabiru e da britânica-liberiana Lina Viktor, que atua no circuito nova-iorquino e recorre a referências egípcias em suas obras.
A fashionista Carol Lee Lemos Dutra, de 45 anos, que atua principalmente na ponte Brasília-Campo Grande-São Paulo, lançou, em 2021, o livro “Moda, Estética e Comportamento do Afrofuturo – Sociedade Afro-Brasileira Além da Ótica Eurocentrista” (Editora Life).
Em formato de almanaque, a publicação reúne a pesquisa que a autora desenvolveu em seus estudos de moda e desdobramentos relacionados a seu ofício, sensibilidade e experiência pessoal. Trata-se, possivelmente, da primeira obra publicada no Estado dedicada ao tema.
“Tenho observado alguns criativos da arte em Mato Grosso do Sul com trabalhos que poderiam ser classificados como afrofuturistas”, declarou a autora em entrevista ao Correio do Estado. “Escrevi o livro para todos curiosos, criativos, designers e estilistas de moda que desejam ter um olhar para a produção de moda além da ótica eurocentrista”, disse Carol.
A consciência de que a tecnologia não é neutra, de que estamos todos localizados a partir de nossas origens e de que a história começa muito antes do tráfico de escravos atravessa o pensamento afrofuturista. A valorização da autoestima, da subjetividade e da capacidade das pessoas negras define uma atuação de grande repercussão individual e íntima.