Quando estreou na avenida, integrando o desfile da Igrejinha, Nirce de Oliveira já passava dos 50 anos.
Atualmente, aos 73, a foliã licenciada em história, veterana do magistério e de várias ações de inclusão social por meio da educação e da cultura, não se contém de alegria com mais uma estreia.
“Paixão Vermelho e Branco” (Editora Viseu, 2021, 257 páginas) é o seu primeiro livro e conta, justamente, a versão da historiadora para a trajetória do Grêmio Recreativo Escola de Samba Igrejinha.
Estão lá, sim, os lances de heroísmo pagão por trás da existência da maioria das entidades carnavalescas e os depoimentos febris dos aguerridos componentes da Igrejinha, que, 47 anos após a sua fundação, ainda não conta com sede própria, porém chega a 2022 como uma escola multicampeã, detentora de 24 títulos apesar da acidentada e intermitente rotina de desfiles na história do carnaval de Campo Grande e da própria vermelho-e-branco.
MACHÃO SE DEU MAL
A história mais saborosa do livro periga ser um causo revelador de tamanha paixão que as escolas provocam protagonizado pela saudosa Evinha, a aderecista Eva Maria Salles de Oliveira, considerada a encarnação do samba em pessoa. “Você já fez alguma escolha entre namorado e carnaval?”.
Acompanhe o relato da sambista ao responder essa pergunta de Nirce, na página 52:
“Ah, já sim. Ele era um pitelzinho. Eta neguinho, hum! Tão bonitinho meu coração balançou, ele viajou para Cuiabá, foi visitar a família, quando ele voltou eu já tinha comprado um vestido todo bordado de lantejoulas. Foi no ano que a escola homenageou Zahran (2012). Nesse ano, eu saí com Estandarte na companhia do Toni”, conta Evinha, falecida há alguns anos, em depoimento de 2005.
“Ricardo era o nome dele, tinha 21 anos, um neguinho lindo de se ver. Ele impôs: ‘ou eu ou a escola, escolhe’. Fiquei com o samba. Já saí de Vedete. Se a escola montar a velha guarda eu largo a estandarte e saio nessa nessa ala. Nuga e Tidão eram passistas, eles eram muito unidos. Hoje eu mesma faço as minhas fantasias”, prossegue a fiel foliã, que passou a desfilar aos oito anos de idade e faleceu em dezembro de 2008.
Nirce diz que Evinha era uma pessoa maravilhosa. “Apaixonada pelo carnaval, ela fazia suas próprias roupas. Quando estava produzindo as fantasias, se trancava e não falava com ninguém”, relembra a autora.
Evinha também traz no sangue a ligação com uma comunidade de presença histórica na capital e de grande importância para a criação e continuidade da Igrejinha.
TRILHOS DO SAMBA
Ela era filha de um ferroviário e centenas de profissionais dessa categoria profissional envolveram-se com afinco, desde o momento fundador, para a Igrejinha existir e tornar-se o altar de adoração de milhares de foliões ao longo de décadas.
“Paixão Vermelho e Branco” é um sonho acalentado por Nirce há muito tempo, praticamente desde quando começou a desfilar.
“Percebi que temos uma cultura maravilhosa, todos se esforçam para deixar a escola pronta no dia combinado. Independente se há verbas ou não. Os responsáveis pela escola não medem esforços para honrar os compromissos”, afirma a professora do samba.
“A Igrejinha não tem um espaço físico para desenvolver projetos que poderiam contribuir com mais facilidade, como dança ou trabalhos manuais, e que venham favorecer a própria escola”, ressente-se a autora.
“Sou apaixonada por carnaval. O carnaval é uma dança livre sem preconceito. Você pode dançar do jeito que achar certo que é aprovado. Quando estou na avenida penso que sou a maior dançarina em um palco a céu aberto”, defende Nirce enchendo a fala de poesia.
FOFOCA E FUTEBOL
A historiadora costumava ser um dos destaques da ala das baianas até 2018, mas problemas de saúde de um familiar acabou afastando-a dos desfiles desde então.
“Escrevi este livro para as pessoas que gostam de carnaval e também para quem não mora mais no Brasil possa relembrar como é nossa cultura. Quero que o mundo conheça quem somos, o que gostamos de fazer e como fazemos nosso carnaval. Com pouco dinheiro, mas com pessoas responsáveis e compromissadas com a cultura sul-mato grossense”, afirma.
Nirce de Oliveira diz que se deu conta de que não estava tratando apenas de samba ao debruçar-se sobre a história da escola quando percebi que Igrejinha “não tinha nada a ver com religião ou crença religiosa, mas sim com pessoas que gostavam de uma boa conversa ao redor de uma mesa do bar. Entrevistei um dos fundadores. Ele disse que tem a ver com fofoca, ou seja, coisas simples”.
Além da participação dos ferroviários, a professora relata no livro que a origem da Igrejinha foi um grupo de craques peladeiros de várzea, que antes haviam criado uma escuderia de nome prosaico, o “Lá Vai Bola Futebol Clube”.
Entre os destaques do plantel, figuravam nomes que posteriormente se tornariam antológico na galeria de personagens da escola de samba: Walfrido de Almeida (Dudu), José Carlos Guedes (Zé Carlos), Edgar de Almeida, Fábio Figueiredo e Aroldo Salles Ramos.
A turma se reunia para prosear e bebericar no “bar do Fábio”, que não tardaria a ficar conhecido como “o bar da Igrejinha”. “Foi nesse bar que surgiu a ideia de formar a escola de samba.
A ideia nasceu porque só tinha uma escola de samba em Campo Grande que competia. Quando formamos a ideia, procuramos o prefeito Levi Dias”, relata Walfrido de Almeida na página 22 de “Paixão Vermelho e Branco”. Nirce informa, sem precisar a rua, que “o bar do Fábio era entre a Mato Grosso e Antônio Maria Coelho”.
O nascimento oficial data de 12 de maio de 1975 e, além dos já citados, figuram entre os fundadores: Geni Almeida, Jonathan Pereira Barbosa, Edinho Morais Ferreira, Eurípedes Ferreira Chaves (Chips), Edson Carlos Contar, compositor dos mais recorrentes no repertório da Igrejinha, “e muitos outros ferroviários ou não residentes no Bairro do São Francisco”.
FIGURAS E FIGURÕES
Dos sambas-enredos mais engajados da fase inicial, a exemplo de “Mundo em Cores” (1979), que homenageava Pompílio, Barbosa e Josette, três moradores de rua de Campo Grande, aos panegíricos que viriam a seguir, muita coisa mudou na rotina da escola e na própria dinâmica do carnaval da cidade.
Alguns episódios narrados requerem uma melhor contextualização, inclusive diversas passagens que mencionam figurões da política e do poder econômico de Mato Grosso do Sul.
“Paixão Vermelho e Branco” torna-se mais agradável, e menos comprometido, quando apresenta histórias como a de Evinha, do Lá Vai Bola Futebol Clube, da fabricação artesanal e improvisada de instrumentos musicais ou do primeiro rei momo anão.
A publicação vale, sobretudo, para afirmar o desejo de carnaval como um sentimento que, mais do que brasileiro, é também sul-mato grossense.
“O que o nosso carnaval tem para ensinar ao Brasil? É a perseverança, a coragem. A Alegria, a beleza. Somos pessoas simples, acolhedoras. Trabalhamos com o que temos. Ainda estamos aprendendo”, pontua Nirce de Oliveira.
Você já fez alguma escolha entre namorado e carnaval?”
“Ricardo era o nome dele, tinha 21 anos, um neguinho lindo de se ver. Ele impôs: ‘ou eu ou a escola, escolhe’. Fiquei com o samba. Já saí de Vedete. Se a escola montar a velha guarda eu largo a estandarte e saio nessa nessa ala. Nuga e Tidão eram passistas, eles eram muito unidos. Hoje eu mesma faço as minhas fantasias”