Correio B

HOMENAGEM

Dia Internacional da Mulher tem de marcha a espetáculo

Marcha na Avenida Afonso Pena e cerimônia na Casa da Mulher Brasileira marcam Dia Internacional da Mulher, celebrado com a dança do Grupo Ginga

“Mulher, mulher/Na escola em que você foi ensinada/Jamais tirei um 10/Sou forte, mas não chego aos seus pés”. Os versos de “Mulher (Sexo Frágil)”, cantada com sucesso por Erasmo Carlos desde 1981, permanece como uma das mais emblemáticas homenagens da música brasileira ao universo feminino, ainda que a figura idealizada na letra da canção esteja a léguas da autoimagem que elas, as mulheres, reivindicam para si após quatro décadas de revisão do papel dos gêneros na sociedade.

E, sim, infelizmente, quatro décadas depois e várias, inúmeras, décadas de muito machismo antes e depois desse e de diversos outros sucessos do dial radiofônico. 

É por causa de tanto preconceito, fundamentado por comportamentos e ideias de orientação exclusivamente heteronormativa, em que o jugo masculino não admite o protagonismo da mulher, seja na experiência social coletiva, seja nas relações mais íntimas, que o 8 de março, Dia Internacional da Mulher, torna-se cada vez mais uma data de militância.

Nesta terça-feira, em Campo Grande, a “cobrança da fatura” pela vigência de um machismo que mata, não reconhece o valor profissional e incentiva o discurso de superioridade dos homens frente às mulheres em todas as esferas da vida será feita, de um modo bem efetivo, em, pelo menos, dois eventos.

A partir das 8h da manhã, a Marcha Mundial de Mulheres realiza o seu ato público, na Capital, na esquina da Avenida Afonso Pena com a Rua 14 de Julho, em articulação com dezenas de cidades do País que se somam ao grito global de atos do 8M, como o movimento costuma se referir à mobilização nesta data.

E às 9h, uma cerimônia com a presença do prefeito Marquinhos Trad, da vice-prefeita Adriane Lopes e da subsecretária de Políticas para a Mulher Carla Charbel Stephanini, além de representantes de entidades e grupos ativistas pela igualdade de gênero, celebra os setes anos de criação e funcionamento da Casa da Mulher Brasileira (CMB).

Iniciativa pioneira no País, que serviu de referência para a implantação de outras unidades no Barsil, a CMB vai apresentar o seu relatório anual de gestão durante o evento, que contará ainda com uma sessão de homenagens e o anúncio de decretos que têm por objetivo reforçar a política pública em favor das mulheres.

SILÊNCIO BRANCO

Com uma abordagem mais simbólica mas sem, por isso, perder a contundência de uma sensibilidade “não provoque/é cor de rosa-choque”, como diz a roqueira Rita Lee, em outra canção dos anos 1980 que estourou logo depois do sucesso do Erasmo, o Grupo Ginga programou quatro apresentações da mostra “Mote”, que acontecem até o dia 19 no Centro Cultural José Octávio Guizzo.

A ideia é, justamente, problematizar a violência contra a mulher, “buscando conhecer suas dimensões, desnaturalizando práticas enraizadas nas relações pessoais e que contribuem para a perpetuação de mortes anunciadas” por meio de criações de solos, duos e trios a serem utilizados como pesquisa de movimento para criação de um futuro espetáculo do Ginga ainda em construção, “Silêncio Branco”.

IMPROVISAÇÃO

Ou seja, o público vem tendo a oportunidade de acompanhar, na verdade, o processo de criação do “Silêncio” em cena aberta. 

A nova montagem estreia no dia 26 de março (sábado) no mesmo local em que as criações da mostra “Mote” vêm sendo apresentadas, sempre às 19h, com entrada gratuita.

A primeira apresentação da mostra foi no dia 26 de fevereiro, e a segunda, quarta-feira passada (02/03). Ainda haverá mais duas apresentações, nos próximos sábados (12/03 e 19/03), antes de o elenco consolidar o que pretende para a versão final de “Silêncio Branco”. 

O espetáculo marca os 35 anos de atividades do Ginga e tem como ponto de partida as improvisações coreográficas criadas livremente pelo elenco do grupo ao som de um vasto repertório de canções populares brasileiras.

CANÇÕES

Nada do tremendão Erasmo ou de Rita Lee, na seleção musical, pelo menos na apresentação da semana passada (02/03), acompanhada por este repórter. 

Noel Rosa, Nara Leão, duplas sertanejas e o “irmão camarada” Roberto Carlos estão entre as vozes ouvidas no cancioneiro que os dançarinos do Ginga ativam e ressignificam em cena, buscando destacar quão preconceituosas e machistas são muitas das letras que ingenuamente cantamos desde a infância.

Quer saber quais? Confira você mesmo nas duas apresentações que restam antes da estreia da versão final. 

No proscênio, quase nenhum elemento e uma marcação de luz básica para dar fôlego aos movimentos de Tanara Maciel, Maria Fernanda Figueiró e outros dançarinos, em um total de nove artistas do corpo ocupando o palco – cinco mulheres e quatro homens.

Aliás, o nome por trás da direção deste processo coletivo de criação também é masculino. 

“São músicas que evidenciam as questões referentes à violência e ao tratamento da mulher na sociedade. São trilhas que ouvimos muitas vezes em nosso cotidiano e que não nos damos conta do conteúdo que estamos propagando”, pontua Chico Neller, diretor do Ginga.

MOTE

“Essa mostra que a gente faz agora no Centro Cultural é criação dos bailarinos, eu só sou um DJ organizando esta cena. Logo no início, eu tinha uma ideia de mostrar separadamente os solos, os duos e os trios e no término de cada apresentação a gente comentar sobre. A ideia inicial era isso”, afirma o coreógrafo.

“Daí foi transformado em um espetáculo único de 50 minutos, onde eu consegui unir tudo isso, peguei a criação deles todos, a ‘fala’ deles nesse lugar, e durante esse processo de falar sobre violência eu encontrei muita dificuldade, muita resistência das pessoas quererem falar sobre o assunto”, conta Neller.

MIXAGEM

“Foi bem difícil. O que eles resolveram ‘falar’, o pensamento deles, faz parte desta mostra e eu faço só uma mixagem de tudo isso, uma direção. O espetáculo que vem lá na frente é um espetáculo que tem o meu carimbo, minha assinatura, minha mão, e a partir desse processo deles, da ‘fala’ deles, eu dei seguimento ao espetáculo, mas daí eu colocando a mão e não dando completamente autonomia”, explica.

“As falas que me servem, que são importantes, eu vou de alguma forma selecionando as partes que me interessam e vou colocando no espetáculo. A ‘fala’ é como o corpo fala desta problemática”, finaliza Neller.

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