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CINEMA

Campo Grande terá exibição de filmes em idioma francês

Guerras e conflitos pessoais marcam personagens das quatro produções que integram a Mostra Francofônica de Campo Grande

Quatro produções francesas, inéditas na Capital, reforçam a programação de filmes de Campo Grande durante esta semana. São trabalhos recentes, lançados entre 2019 e o ano passado, que ganham exibição em sessões presenciais e gratuitas, pela Mostra Francofônica de Cinema, a partir de amanhã.

A agenda da mostra conta com: “Sous le Ciel d’Alice” (2020), de Chloé Mazlo, amanhã, às 19h, na Aliança Francesa; “Notre-Dame du Nil” (2019), de Atiq Rahimi, na quarta-feira e “Playlist” (2021), de Nine Antico, na quinta-feira, ambos com sessões às 17h, no Museu da Imagem e do Som (MIS); além de “Les 2 Alfred” (2020), com direção de Bruno Podalydès, na sexta-feira, também às 17h, na Faculdade de Artes, Letras e Comunicação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (Faalc/UFMS).

A mostra é uma iniciativa conjunta das três entidades que estarão sediando as projeções – Aliança Francesa, MIS e a Faalc/UFMS, por meio de seu curso de Audiovisual. Embora apresente apenas quatro títulos, o programa mostra-se atraente e oportuno.

Sem títulos oficiais em português, são filmes não exibidos no Brasil ou de circulação bem restrita por aqui, somente em festivais ou plataformas de streaming mais segmentadas, como a Mubi. E o melhor: são obras que parecem ter o que dizer para além da distração ligeira.

Na chave do drama, da reconstituição histórica ou da comédia, os enredos variam desde os conflitos pessoais, que, de alguma forma, tematizam questões de gênero que emergem da vida cotidiana, a trajetórias atravessadas pelos horrores da guerra no Oriente Médio e na África. 

Os quatro longas-metragens pertencem ao catálogo do Instituto Francês e foram disponibilizados com a proposta, bem ampla, de promover a difusão da língua de Balzac.

O que pode parecer apenas um pretexto para a exibição dos filmes, torna-se uma oportunidade e tanto quando se presta mais atenção no que as tramas oferecem e nas abordagens adotadas.

Em acréscimo, pela própria natureza das atividades das instituições envolvidas, é possível, sem nenhum determinismo, que o debate em torno de cada filme seja desdobrado com diferentes nuances, o que só agrega ainda mais valor cultural à iniciativa. Por trás das instituições, quem pilota a mostra é a diretora do MIS, Marinete Pinheiro, Márcia Saddi, da Aliança Francesa, e os professores Vitor Zan e Júlio Bezerra, da UFMS.

“Reabrimos as sessões do Museu [da Imagem e Som] com essas duas tardes de cinema francês nessa parceria sempre produtiva e harmoniosa com a Aliança e, agora, com o curso da UFMS, com filmes que transitam entre adaptações de clássicos, humor e temas de relacionamentos e questões pessoais provocantes, também para pensar o produzir cinema na sua diversidade de narrar”, destaca a diretora do MIS.

LÍBANO

“Sous le Ciel d’Alice” (“Sob o Céu de Alice”, em português) recebeu, em inglês, o nome de “Skies of Lebanon” (“Céus do Líbano”, em tradução literal). É que boa parte da história se passa no país do Oriente Médio, onde, na vida real, os avós da diretora Chloé Mazlo moraram dos anos 1950 aos anos 1970. Até que conhece o astrofísico libanês Joseph (Wajdi Mouawad).

Ele tem o sonho de construir o primeiro foguete de seu país e, assim, levar um astronauta até a Lua. O casal tem uma filha e leva uma vida feliz durante muito tempo. Mas, com a chegada da guerra, o idílio se desfaz. 

O filme chama a atenção pela plástica visual apurada e pelo modo como a cineasta, que possui um histórico de prêmios por curtas de animação, articula a dimensão autobiográfica da trama, mesclando realidade e imaginação.

Há quem compare “Sous le Ciel d’Alice” a “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” (2001). “Eu queria falar sobre a guerra a partir do que a minha família me contou. A personagem de Alice é, em grande medida, inspirada na minha avó. Ela é suíça, mas se mudou para o Líbano em 1955. Essa personagem radiante e perceptiva é a porta de entrada na história”, afirma a diretora em uma entrevista no Festival de Cannes de 2020, que selecionou o longa de estreia de Chloé Mazlo para a sua Semana de Crítica.

“Inicialmente, eu queria fazer um filme naturalista. Depois de um tempo, percebi que não é dessa maneira que eu falo ou dirijo os meus filmes. Eu precisava de um anteparo emocional para a história”, diz a cineasta de 38 anos. 

“Quando o meu corroteirista, Yacine Badday, ou eu mesma tínhamos dúvidas sobre as reações dos personagens, eu ia até a minha avó e perguntava sobre a experiência dela”, conta Mazlo.

A cineasta não abriu mão de técnicas de animação como o stop motion na linguagem do filme, que levou o Grande Prêmio do Festival de Tübingen-Stuttgart do ano passado. “Não usei de um jeito sistemático. Senti que, com a animação, eu chegava mais perto da vida do que fazendo um documentário padrão”, explica a diretora e também atriz francesa.

RUANDA

Dirigido pelo afegão Atiq Rahimi, “Notre-Dame du Nil” (“Nossa Senhora do Nilo”) volta-se para o conflito que destituiu o governo de Ruanda, em 1973, a partir do dia a dia das internas de um colégio católico, encravado no alto de uma colina. 

Sejam hutu ou tutsi, garotas de diferentes etnias são preparadas para o ingresso na elite do país do África Centro-Oriental e, compartilhando o mesmo dormitório, dividem também sonhos e temores.

Quando um golpe de Estado toma conta do país, a polarização invade a escola e o destino das jovens, assim como o de toda a nação, muda para sempre, redundando, duas décadas depois, no massacre genocida de 1994, que matou 800 mil pessoas e foi parar nas telas em “Hotel Ruanda”, longa-metragem de 2004, dirigido por Terry George.

Radicado na França desde os anos 1980, quando precisou fugir de seu país, o afegão Rahimi tem dupla nacionalidade e também é conhecido como escritor de romances de reconstituição histórica, como “Terra e Cinzas” e “A Pedra de Paciência”, ambos lançados no Brasil, que o diretor adaptou para o cinema, respectivamente, em 2004 e 2012.

Premiado no Festival de Berlim de 2020, “Notre-Dame du Nil”, por sua vez, é uma adaptação do romance de mesmo nome da escritora tutsi Scholastique Mukasonga, que ganhou edição brasileira em 2017.

COMÉDIAS

Os outros dois títulos da Mostra Francofônica são comédias que, além de convidar ao riso, procuram fazer pensar, de maneiras distintas, sobre a condição do homem e da mulher na contemporaneidade. 

Rodado em preto e branco, e explorando um raccord que, segundo o jornal inglês The Guardian, presta homenagem à nouvelle vague, “Playlist” marca a estreia da ilustradora e curta-metragista Nine Antico na direção de um longa-metragem.

“Meu filme é 73% autobiográfico”, disse, em tom de brincadeira, a diretora em uma entrevista sobre o longa, que conta a história de Sophie, uma ilustradora de 28 anos que batalha para ser notada com a sua arte e sobreviver a relacionamentos amorosos sem futuro. Um dos elogios a “Playlist” refere-se ao modo emancipado com que lida com questões polêmicas, a exemplo do aborto.

Em “Les 2 Alfred” (“Os Dois Alfred”), quem padece é o arquétipo do macho. O filme do ator e diretor Bruno Podalydès, cineasta de maior quilometragem na carreira entre os quatro diretores da mostra, gira em torno do desempregado Alexandre.

Interpretado por Denis Podalydés, irmão do diretor, que também está em cena, como uma espécie de alter ego do personagem principal, Alexandre precisa dar conta sozinho dos dois filhos e ocultar a prole para tentar se manter em um novo trabalho, uma movimentada startup conhecida como The Box. Tudo isso enquanto a esposa passa dois meses em uma missão nuclear secreta a bordo de um submarino.

Mostra Francofônica 

“Sous le Ciel d’Alice” – terça-feira, 19h, Aliança Francesa (R. Antônio Maria Coelho, 1.719, Vila Planalto);

“Notre-Dame du Nil” – quarta-feira, 17h, MIS (Av. Fernando Corrêa da Costa, 559, Centro);

“Playlist” – quinta-feira, 17h, MIS;

“Les 2 Alfred” – sexta-feira, 17h, Faalc (Campus da UFMS).

As exibições são gratuitas.

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