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Agenda Cultural

Lázaro Ramos estreia na direção

Na trama de "Medida Provisória", primeiro longa-metragem dirigido pelo ator baiano, negros criam front de resistência contra o governo

Natália Olliver

15/04/2022 - 15h04

Como qualquer projeto que põe em destaque o preconceito endêmico da sociedade brasileira em relação aos negros, o longa-metragem “Medida Provisória”, estreia do ator Lázaro Ramos na direção, chegou ontem às salas de cinema de todo o País com as devidas marcas de uma resistência, velada ou explícita, que, a todo custo, persevera na missão de evitar, escamotear ou desqualificar o assunto.

Mas, com 24 anos de carreira, somente contando sua experiência em produções para a tela grande, resistência é uma palavra que o astro baiano, e qualquer pessoa negra por essas terras, conhece bem. Afinal, são mais de 500 anos de exploração, desrespeito e práticas institucionais, partindo não somente do poder público, que buscam sufocar a subjetividade e apagar o legado dos afrodescendentes.

Baseado na peça de Aldri Anunciação, que passou por vários estados em montagem dirigida por Ramos, o filme posiciona a trama na distopia de um futuro não muito distante, em que o governo determina o retorno de toda a população afro-brasileira para a África. Um movimento clandestino de resistência toma conta da nação, gerando uma onda de protestos que acaba instaurando o caos, mas mobilizando muita gente com forte inspiração e esperança na luta.

 

EXPECTATIVA

Filmado em 2019, no Rio de Janeiro, e com direção musical assinada por Rincon Sapiência, “Medida Provisória” pastou mais de um ano no limbo burocrático da Agência Nacional do Cinema (Ancine), sem nenhuma explicação, antes de ser liberado para o lançamento nas salas de cinema do circuito comercial, após uma badalação positiva, com direito a prêmios, em alguns festivais no Brasil e no exterior.

“Estava com muita expectativa para este dia, o filme está pronto há tanto tempo, já foi para tantos países.

Ter a oportunidade de, pela primeira vez no Brasil, poder exibir o primeiro filme que dirigi é um momento de coroar a minha vida na família do cinema. Eu estou feliz e ansioso”, declarou o ator ao portal Omelete, no mês de dezembro, em uma dessas projeções especiais, no Festival do Rio.

ASTRO INGLÊS

Na tela, um elenco de peso dá corpo à empreitada que transforma Lazinho, como o ator costuma ser carinhosamente chamado pelos amigos, em colega de Wagner Moura também na função de diretor. O Moura cineasta, do mesmo modo, enfrentou uma barra e tanto junto ao governo federal antes de ter “Marighella”, seu primeiro projeto de longa-metragem como diretor.

Taís Araujo, Seu Jorge, Adriana Esteves, Renata Sorrah, Mariana Xavier, Flavio Bauraqui, Emicida e Alfred Enoch figuram nos créditos do elenco de “Medida Provisória”, uma produção que se destaca, entre outros vários aspectos, pela grande quantidade de artistas e técnicos afrodescendentes envolvidos.

Enoch é o ator inglês, de mãe brasileira, que há duas décadas faz sucesso como o bruxo Dino Thomas nos filmes da saga Harry Potter. Ele também estrela as séries “How to Get Away with Murder” e “Troia – A Queda de Uma Cidade” (2018), esta última disponível no Netflix.

“Será que a gente nota quando a história está acontecendo?”, questiona Antônio, o personagem de Enoch, no começo do filme. “Como é que a gente deixou chegar nesse ponto?”, questiona André (Seu Jorge) adiante. Essas e outras passagens dão uma atualidade impressionante ao longa frente ao atual e acirrado contexto político-ideológico que o Brasil enfrenta desde 2018.

BEM COTADO

A performance de Lázaro Ramos como ator sempre foi inquestionável. “Madame Satã”, “Carandiru”, “O Homem que Copiava”, “Cidade Baixa”, “Ó Paí, Ó”, “Saneamento Básico, o Filme” e vários outros filmes, além da carreira muito bem-sucedida na televisão, no teatro e na literatura.

Como diretor, embora tenha dividido opiniões entre quem já assistiu “Medida Provisória”, Lazinho acumula uma cotação bem acima da média na condução de um longa-metragem, entre outros atributos, por conta da habilidade em dosar elementos de diferentes gêneros (drama, thriller, comédia) sem perder a mão.

Em Campo Grande, o filme está em cartaz no Cinemark (Shopping Campo Grande) – sala 10, sessão única às 20h25min – e no UCI (Shopping Bosque dos Ipês) – sala 5, com sessões às 13h30min, 15h45min, 18h e 20h15min. “Medida Provisória” tem aproximadamente 100 minutos de duração e é recomendado para maiores de 14 anos.

TELA INDÍGENA

Integrando a quarta edição do projeto Abril Indígena, do Sesc São Paulo, que se propõe a destacar “a diversidade dos povos e perceber os indígenas como ativos cidadãos brasileiros”, a plataforma digital Sesc Digital lançou ontem seis produções documentais dirigidas e/ou produzidas por indígenas de diferentes regiões do País. Os documentários ficam disponíveis por 30 dias e podem ser acessados gratuitamente pelos endereços sescsp.org.br/cinesesc, sescsp.org.br/cinemaemcasa e https://sesc.digital/home.

Os títulos são: “Tava, a Casa de Pedra” (2011, 78 min), de Vicent Carelli, Patrícia Ferreira Yxapy, Ariel Ortega Kuaray Poty e Ernesto Ignacio de Carvalho; “Virou Brasil” (2019, 91 min), de Pakea, Hajkaramykya, Arakurania, Petua, Arawtyta’ia, Sabiá e Paranya Awá Guajá; “Nossos Espíritos Seguem Chegando – Nhe’e Kuery Jogueru Teri” (2021, 15 min), de Ariel Ortega Kuaray Poty e Bruno Huyer; “Yay Tu Nunãnã Payexop – Encontro de Pajés” (2021, 26 min), de Sueli Maxakali; “Kupixá Asui Peé Itá – A Roça e Seus Caminhos” (2019, 21 min), de Francy Baniwa; e “Exercício de Arquivo #2” (2020, 12 min), de Abiniel João Nascimento.

TEATRO

Com a expectativa de atrair um público de 23 mil pessoas, em temporada de três apresentações, o espetáculo “A Paixão de Cristo”, no estacionamento do Shopping Bosque dos Ipês (Av. Cônsul Assaf Trad, nº 4.796), estreou na quarta-feira e despede-se hoje do público, com a última sessão às 18h.  

A promessa é de uma superprodução, encenando o calvário do messias do cristianismo, “capaz de encher os olhos da plateia”. Para quem não trocou um quilo de alimento dentro do prazo, até terça-feira, a única chance de conferir o espetáculo é tentar a sorte na entrada. Os créditos de “A Paixão de Cristo” (direção, elenco e equipe técnica) não foram divulgados.

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