Por Ana Claudia Paixão
Se você é consumidor maníaco de séries como eu, talvez esteja sentindo um pouco o hiato dos lançamentos e uma sensação de busca constante “do que assistir”.
A boa notícia é que em breve voltaremos a ter muitos títulos para comentar, afinal, somente nesse feriadão, estão chegando vários ótimos títulos em várias plataformas.
Até lá, vale destacar que quem assina Apple TV Plus tem uma pérola no acervo que pode ajudar a ocupar esse vazio.
É a série Slow Horses, que já está quase na fase final dessa primeira temporada.
Slow Horses é quase uma desconstrução da clássica imagem do espião inglês, eternizada pela elegância e agilidade de James Bond.
O chefe da Slough House, Jackson Lamb, vivido por Gary Oldman, é o oposto de tudo do que sabemos de 007.
É velho, grosso, fora de forma e antipático, jamais conquistaria uma mulher. Nem aparenta querer, vamos concordar.
Lamb é rabugento, alcóolotra e avesso à trabalho.
Uma figura estranha e irritante, com um passado de glória em tempos da Guerra Fria, mas hoje encostado em uma sala decadente do Governo inglês. É, sem dúvida, mais uma personagem feita sob medida para o talento de Gary Oldman.
Slow Horses é a adaptação do primeiro de oito livros escritos por Mick Herron, lançado há 12 anos. Todos os livros acompanham Jackson Lamb e, na época, até foi novidade, porque falar de intolerância, fake news e atentados terroristas, fez do livro um best seller.
Hoje, esses temas são até comuns, mas tanto a narrativa como o talento de um elenco incrível seguram a atenção em uma ajustada – e clássica - trama de espionagem, um gênero que fez muito sucesso nos anos 1970s, na literatura e no cinema, mas que, em tempos atuais, passou mais para histórias de terrorismo.
O nome “Slow Horses” é uma brincadeira com a pronúncia da palavra “Slough House” em inglês. Traduzida para “pangarés”, que são os “cavalos lentos” do MI5, se encaixa perfeitamente porque a “Slough House” é um endereço considerado cemitério para membros do serviço de inteligência que não estão mais no jogo, mas que ainda não podem ser demitidos.
Só está ali quem é incompetente, problemático ou encostado. Jackson Lamb é o diretor, bebendo durante o expediente e demandando que as pessoas “não façam nada”. Isso funciona até que o agente River Cartwright (Jack Lowden) é punido com um período indeterminado no local.
Jovem, com sobrenome de peso e querendo se provar, River é o pesadelo encarnado para Jackson, mas incontrolável.
Não vamos entrar em detalhes pois quem gosta de suspense vai logo captar spoilers.
O suficiente é saber que Jackson é um agente da antiga, ou seja, não apenas é genial como é fiel e mesmo sem gostar dos “seus pangarés”, são “seus” e, por isso, toda equipe se envolve em uma ação complicada que pode custar a vida de milhares de pessoas, com as deles no meio.
Slow Horses lembra e muito a excelente obra de John Le Carré, O Espião que Sabia Demais, cuja última adaptação, em 2011 teve o próprio Gary Oldman liderando um elenco sensacional de estrelas britânicas.
Ele sobra, mais uma vez, com uma sensacional Kristin Scott Thomas ombreando com ele no cinismo de espiões frustrados, cansados e muito inteligentes.
Dos jovens, além do ótimo Jack Lowden, temos Olivia Cooke, em breve uma das estrelas de House of the Dragons, comprovando o potencial das novas gerações.
Como são oito livros no total, tem toda pinta de uma franquia, mas, entre nós, quem não vai gostar de conteúdo de qualidade?