O sangue cigano que corre nas veias de milhares de sul-mato-grossenses, e de milhões de outros brasileiros, carrega consigo uma história, ao mesmo tempo, muito rica e marcada por preconceitos, deturpações e repressão.
Por isso, o Dia do Povo Cigano, reconhecido por leis e celebrado oficialmente hoje, sem deixar de ser uma data festiva, é também a oportunidade de os descendentes do povo romani investirem na militância identitária e em um mergulho cultural aberto a qualquer interessado.
Em vez de ciganos, o mais apropriado é chamar de povo romani, ou “rom”, ensina Pedro Nicolich, espécie de “embaixador” dessa cultura tão fascinante em Mato Grosso do Sul.
A comemoração, em Campo Grande, é uma das mais marcantes e, em 2022, acontece em grande estilo.
Após a aula aberta “Um Caminho para Todos”, ministrada por um renomado elenco de especialistas na noite de ontem, na Uniderp, a mobilização tem uma agenda de apelo mais popular nesta terça-feira, a partir das 18h, na Plataforma Cultural da Esplanada Ferroviária (Av. Calógeras, nº 3.015, Centro).
DEVOÇÃO E MILITÂNCIA
É a Festa de Santa Sarah Kali, que começa com um ato ecumênico e uma procissão antes de abrir espaço para a apresentação de várias atrações programadas, entre elas o cantor Nuno Baes, o Grupo Sampri, o Isa Yasmin Estúdio de Dança, a Cia de Dança Embrujos de España e a Rosa de Fogo Cia de Dança.
Além de uma praça de alimentação servindo comidas e bebidas típicas, a festa contará com exposição e venda de peças de artesanato e ainda a leitura de cartas do tarô cigano.
Estabelecido no calendário nacional, por lei federal, desde 2006, como o Dia do Povo Cigano, 24 de maio é uma data ratificada oficialmente no calendário do Estado, desde 2012, e também da Capital, desde o ano passado.
Para um povo conhecido tanto pela sua sanha de liberdade quanto pela perseguição que sofre ao longo de séculos, esse tipo de institucionalidade, mais que motivo de festa, é uma oportunidade preciosa de marcar território nos livros de história a serem escritos.
O principal objetivo do reconhecimento público da presença romani entre nós é “promover e valorizar os povos ciganos, além de reconhecer sua grande contribuição no processo de construção do Brasil e do mundo, tanto na sua cultura peculiar, nas suas tradições, quanto nos seus saberes e ensinamentos milenares”, prega o material de divulgação do evento.
HISTÓRIA A SER ESCRITA
“Como somos um povo ágrafo, não temos uma escrita formal, e tudo que foi escrito até então para expressar a cultura cigana foi escrito por não ciganos”, afirma Pedro Nicolich, fundador e presidente da Academia Internacional de Letras e Artes Români do Brasil (Aila Rômani BR), que iniciou oficialmente suas atividades com a aula aberta de ontem.
“Isso está mudando. Por isso a criação dessa academia, com pessoas que têm gabarito para escrever e contar a história do povo cigano”, diz Nicolich. Entre os integrantes da Aila Rômani BR que palestraram durante a aula aberta está o músico Michel Kriston, compositor de canções da trilha sonora da novela “Explode Coração”, que revelou antológicos personagens como o Cigano Igor (Ricardo Macchi) e a Cigana Dara (Tereza Seiblitz).
A origem geográfica do povo cigano não pode ser indicada com precisão exata, pois a literatura a respeito ainda é bastante escassa e, quando existe, vem muitas vezes eivada de preconceitos e deturpações.
Contada principalmente por não ciganos, a história nos mostra que os relatos sobre os ciganos sempre foram cercados de lendas, suposições e interpretações errôneas, o que, não raro, levou a perseguições, expulsões, degradação e mesmo ao processo de escravização.
Um pacote de desacertos que ajudou a criar, no imaginário popular, ideias e posturas de exclusão, de marginalidade e de invisibilidade social que ainda se perpetuam nos dias atuais.
300 MILHÕES
Estima-se que ao menos 4% da população do planeta seja dos assim chamados ciganos ou dos seus descendentes, que são normalmente distribuídos nos seguintes grupos familiares ou etnias: Calón, Horahano, Kalderash, Matchwani, Sibiaia, Moldawia e Lovaria.
Embora seja um número expressivo, superior a 300 milhões de pessoas, ainda não existem políticas públicas consolidadas, mesmo em outros países, o que só aumenta a marginalização e a invisibilidade.
Em Mato Grosso do Sul, de acordo com um levantamento da Rômani Federação, vivem aproximadamente 1.500 ciganos com residência fixa. São, na maioria, comerciantes, empresários e artistas.
Os ciganos mantêm sua própria língua, o romanês, além de diversos dialetos, manifestam sua cultura por meio da dança, da música, do artesanato, das artes visuais, das indumentárias, da literatura, da culinária e de uma forte religiosidade.
RELIGIÃO E LIBERDADE
“Cada um segue a religião que quer”, pontua Nicolich. “É interessante frisar que muita gente confunde o ser cigano com religião, isso não é verdade. Somos um povo e, como tal, cada um segue a religião que queira. Existem ciganos católicos, a grande maioria, e também evangélicos, protestantes, umbandistas, candomblecistas”, explica.
“O sinônimo de ser cigano é a liberdade. Antigamente não, lutava-se contra perseguições, preconceitos, descriminação. A ciganofobia existe até hoje. Um dicionário foi retirado de circulação porque o termo cigano foi tido como pejorativo. O povo rom tem alma livre, não gosta de ficar preso”, diz Pedro Nicolich.
“O povo cigano está no Brasil desde 1530. Vieram com os descobridores e desbravadores portugueses e espanhóis. Já está inserida na cultura brasileira a cultura cigana, vieram praticamente juntas. A nossa padroeira é uma santa canonizada pela igreja católica, tem uma história muito bonita, nós a cultuamos, mas lembrando que o povo cigano é um povo laico”, reforça o “embaixador” români.
CELEBRIDADES E LUGARES
Entre as celebridades do Brasil e do mundo que possuem ascendência cigana, Nicolich enumera: Elvis Presley, Charles Chaplin, Pablo Picasso, Benito di Paula, Dedé Santana e os ex-presidentes Washington Luiz e Juscelino Kubitschek.
“A história não conta. Com relação à cultura cigana nacional, são pessoas que vieram e trouxeram sua história, sua bagagem e sua origem da Iugoslávia, da Romênia, da Rússia, de várias partes do mundo, chegaram como imigrantes, fugidos da guerra, em 1920, por aí, como o meu bisavô Stefano”, relata.
“As festas étnicas e folclóricas sempre exercem um fascínio por parte da população de Campo Grande, que sempre apoia e participa dos eventos. Sempre participo da Festa de Santa Sarah Kali como convidada, pois, como trabalho com a dança flamenca, temos muito em comum com as músicas e bailes ciganos”, anima-se a dançarina e coreógrafa Maria Helena Pettengill, da Cia Embrujos de España.