Correio B

CORUMBÁ

O legado do festival América do Sul

Evento que ocorre pela primeira vez depois do pandemia de Covid-19 deixa seu legado sobre a "cultura do nós" e a produção independente. "Precisamos de mais

O assunto aqui é sobre produção cultural e seus efeitos, mas é preciso apresentar um contexto antes de contar exatamente essa história que acaba sendo exemplificada muito bem durante os cinco dias do 16º Festival América do Sul, realizado em Corumbá e finalizado neste domingo (29). Artistas com história na música e na arte de forma nacional e que vieram ao FAS pontuaram que ainda falta pensar na cultura do “nós”, para valorizar uma coletividade e celebrar a “aglomeração”.

Nos períodos mais críticos da pandemia da covid-19, as palavras afastamento social, isolamento social foram uma das mais proferidas entre 2020 e 2021, além da palavra máscara, covid-19, morte, saudade e tantas outras com peso negativo. Esse período crítico e perturbador para a saúde psicológica podia encontrar um pouco de conforto a partir da cultura. Porém, a cultura ficou também fechada, sem alcançar a manifestação plena com a aglomeração e reunião de pessoas.

Bem, depois de lembrar desses momentos, a realização do Festival América do Sul ajudou a romper uma barreira espacial da cultura sul-mato-grossense e latino-americana. Depois de dois anos sem ser realizado, o festival com mais de 120 apresentações culturais ocorreu a céu aberto, em ambientes fechados, aglomerando as pessoas, ou dando certo distanciamento, mas gerando encontros presenciais. Nada de live de artistas, contatos em rede social. Além disso, o símbolo do período de pandemia, que é a máscara, praticamente ficaram em um passado que parecia distante, porque quase ninguém usou o assessório. Porém, a covid-19 assombrou o palco.

Como apresentações de peso, o festival levou aos palcos da música dois artistas consagrados na história. Um é Michel Teló, o outro é Margareth Menezes. Ambos simbolizaram um pouco o que a força da cultura traz para a vida. Teló abriu oficialmente o evento. Deu entrevista coletiva de máscara, porque porque a garganta não estava 100%. Dois dias depois de subir ao palco em Corumbá, no dia 25, testou positivo para covid-19. Um sinal que mostra que, de fato, a pandemia não acabou e cuidados com a saúde seguem obrigatórios. Com três vacinas, o cantor teve sintomas leves.

Enquanto isso, Margareth Menezes, que completa em 2022 os seus 35 anos de carreira e trouxe para Mato Grosso do Sul o que representa um pouco não só o axé, mas a bandeira de trabalhar com uma carreira independente e se adaptar para entrar na onda das redes sociais e do streaming para se manter contemporânea, viva e cantando não só música, mas pensamentos que defende e acredita. Ela ainda foi enfática quando diante de jornalistas de Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Pernambuco, em sua coletiva, cravou: “Precisamos ter mais festivais assim para gente até entender toda essa dinâmica da alma brasileira”.

"Para o tamanho do Brasil e o circuito que existe de produção muscial, a gente tem poucos festivais. E esses festivais, como esse aqui, mobiliza toda uma rede de trabalhadores"     

Margareth Menezes, cantora baiana, e um dos destaques do Festival América do sul deste ano de 2022  

Dentro da música e outras manifestações culturais sul-mato-grossenses, o quanto essas palavras da rainha do axé, musa do afro pop nacional, também representam. Afinal, os artistas daqui ainda precisam batalhar e investir em carreira independente para conseguir expor sua produção.

Michel Teló também deixou em suas palavras um pouco da batalha que o artista local tem para se consolidar. Antes, como vocalista no Grupo Tradição (1997-2008), suas apresentações em Corumbá foram um pouco diferentes do que ocorreu agora. O Tradição ajudou ele a se projetar, com músicas como “Barquinho”, “O Caldeirão”, “Pra sempre minha vida”.

Corumbá ainda tem uma memória afetiva para Teló. Ele também subiu aos palcos em 2019, última edição do Festival antes da pandemia. “Eu sou filho dessa terra, considero-me sul-mato-grossense. Vim tocar aqui em Corumbá com o grupo Tradição muito anos atrás, na época dos bailes. É uma terra muito acolhedora. Quantas vezes a gente vinha aqui, ia para a praça chamar as pessoas para os shows e bailes. Ia nos jornais locais. É muito bom poder voltar.”

E quando se trata de uma apresentação dentro de festival, Michel Teló explicou que são momentos importantes para consolidar e valorizar as origens. “Eu sou um defensor da música, criei o projeto Bem Sertanejo, levei para o Fantástico. Sou defensor da música raiz, gravo muito, elas fazem parte do meu show. Acho importante manter a nossa raiz para entender para onde a gente vai. É preciso manter a raiz viva, levar essa música que temos, a cultura para os jovens conhecerem.”

A importância de se ocorrer festivais também foi mote abordado por Margareth Menezes. A cantora, que caminha paralela ao axé da Bahia, tem sua potência diante do seu Afropop brasileiro, atuando independente – possui o próprio selo desde 2005, iniciativa que investiu para continuar cantando uma música mais autoral –, defendeu que ainda falta a iniciativa privada abrir os olhos para o lado econômico da cultura.

“Para o tamanho do Brasil e o circuito que existe de produção muscial, a gente tem poucos festivais. E esses festivais, como esse aqui, mobiliza toda uma rede de trabalhadores. A música tem esse motor e uma dinâmica econômica e uma pirâmide muito vasta. Toda cidade que faz um festival tem envolvido desde o comércio, o motorista, costureiro. Por isso tem também o valor do Carnaval. Isso precisa ser entendido e eu vejo que as empresas brasileiras ainda não entenderam, mesmo com as leis que existem, a gente precisa que as empresas despertem mais para patrocinar eventos assim. O reflexo é muito mais além do artista”, detalhou Margareth Menezes ao Correio do Estado.

Conforme a organização do Festival, com R$ 6 milhões financiado pelo governo do Estado, além de  outra cota de apoio repassada pela Prefeitura de Corumbá, foram em torno de 500 pessoas que trabalharamm diretamente na realização do evento.

Proposta de integração do continente  

O festival trouxe o nome América do Sul no nome, mas uma grande integração entre os países ainda não foi o que realmente se viu nas ruas de Corumbá. O idioma predominante foi o português. Da Bolívia, país vizinho ao município, foram atividades pontuais, como contação de histórias de Jusley Monteiro de Sousa (MS), com contos orginários de Peru, Argentina e a Bolívia. Algo realizado no bairro Dom Bosco. E outra, com a Academia de Danças Folclóricas ADAF, de La Paz, que ocorreu no Mirante do Porto Geral.

Além disso, na cidade de Puerto Suárez, distante 20 km de Corumbá, houve a realização do teatro Tomate, Puro Tomate, do argentino Victor Ávalos. Nessa lista regrada, a Cia. Danza Bethania Joaquinho, do Paraguai, fez apresentação no Corumbaense. Além disso, a paraguaia Carmen Monges dividiu o palco no domingo com Hermanos Irmãos (MS) e o argentino Ruben Goldin. Já Sofia Viola, da Argentina, tocou no palco Rio Paraguai, depois de 0h40. Nesse mesmo espaço, Margareth Menezes e Marcelo D2 também se apresentaram, em dias diferentes.

O artesanato registrou uma presença um pouco mais diversificada. Expositores tiveram um pequeno espaço em pavilhão para vender alguns produtos típicos de Colômbia, Paraguai, Chile, Peru, Uruguai e Venezuela.

A cantora Mart’nália, que revelou amar Bonito e se impressiona com o Pantanal e o rio Paraguai – dois destinos que já visitou em mais de duas oportunidades para passeio e trabalho -, reconheceu que falta uma integração maior com a América do Sul. “Não vou ser hipócrita, falta o costume de a gente ouvir os sulamericanos. A gente ouve mais os ‘americanos’. A gente fica ouvindo mais os ‘nós’. Porém, temos que ficar abertos”, disse Mart’nália, que se apresentou no domingo (29).

representando ms

Idealizador do 'Tereré e Quadrinhos' vai pela 4.ª vez à FIQ em BH

Emmanuel Merlotti participa pela quarta vez do Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, um dos principais palcos para os produtores desse formato de histórias que buscam catapultar projetos

04/11/2026 10h07

correio b terere

correio b terere Emmanuel Merlotti participa pela quarta vez do Festival Internacional de Quadrinhos de BH / Acervo Pessoal

Continue Lendo...

DIÁLOGO

A reeleição de Lula para mais quatro anos de mandato jogou um balde de... Leia na coluna de hoje

Leia a coluna desta quarta-feira (4)

04/11/2026 00h02

8603c51d 751d 4b37 89cb fe2c5ad0fc99 13_2

8603c51d 751d 4b37 89cb fe2c5ad0fc99 13_2

Continue Lendo...

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).