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TEATRO

Em cartaz até sábado, peça é inspirada na obra de Clarice Lispector

Cia. Ofit retoma espetáculo teatral inspirado na obra de Clarice Lispector; "Todo Redemoinho Começa com um Sopro" estará em cartaz de amanhã até sábado

O crítico Affonso Romano de Sant’Anna disse uma vez que é capaz de reconhecer os leitores de Clarice Lispector (1920-1977) a 500 metros de distância. “O leitor dela não pisa no chão, ele passa flutuando”, asseverou o ensaísta mineiro, em 2011, em entrevista para um programa de tevê.

Sem economizar nas palavras, Sant’Anna recorre à metáfora da gravidade para especular sobre o impacto de uma artista para quem “viver ultrapassa qualquer entendimento”, como escreve Clarice em “Perto do Coração Selvagem”, seu primeiro romance, que completa 80 anos de lançamento em 2022.

A estreia chegou às prateleiras com fôlego para ombrear, segundo outro crítico, o “espírito” e a “técnica” da autora a gigantes da literatura como o irlandês James Joyce (1882-1941) ou a britânica Virginia Woolf (1882-1941).

A partir desse momento, no início dos anos quarenta, e por décadas a fio, no romance, mas também no conto, na literatura infantil e, mais recentemente, na crônica e nos volumes de correspondências publicados a partir de 2002, os escritos de Clarice foram tomados como o que de mais sofisticado se produziu na literatura brasileira após o advento da geração modernista, revelada com o regionalismo dos anos trinta.

A PEÇA

Sofisticação que cala fundo no repertório e na sensibilidade do diretor Nill Amaral. Seis meses depois da primeira temporada presencial do espetáculo “Todo Redemoinho Começa com um Sopro”, que ocupou a Sala de Música do Sesc Cultura por algumas noites em novembro de 2021, Amaral e os integrantes da Cia. 

Ofit voltam ao mesmo espaço para quatro apresentações da peça, inspirada na obra de Clarice, de amanhã (8) até sábado (11), às 19h30min.

Na trama, dois prepostos de uma instituição beneficente, interpretados por Ligia Pietro e Samir Henrique, aportam em um imóvel para recolher os pertences de uma moradora (Nádja Mitidiero) que não está mais no local. 

Quer dizer, está mas não está. Ela se foi, mas, de algum modo, se faz presente entre caixas, papéis, gavetas, objetos e memórias. Essa presença espectral da personagem, com Patrícia Saravy injetando uma tensão exasperante em cena, foi um dos trunfos da montagem vista em novembro.

As sessões são gratuitas e os ingressos podem ser retirados a partir das 19 horas, no mesmo dia de cada apresentação. A capacidade máxima da Sala de Música para o espetáculo é de 60 lugares. 

Quem assistiu a “Todo Redemoinho” meses atrás perceberá logo de cara que a atriz, uma das protagonistas da peça, foi substituída por Nádja Mitidiero. A dramaturgia de Éder Rodrigues permanece.

VERSÕES

Mas aquela já era uma versão “de corpo presente” do espetáculo virtual de mesmo nome, transmitido on-line em 2020, que por sua vez ecoava o laboratório de “No Gosto Doce e Amargo das Coisas de que Somos Feitos”, montagem de 2007 da Ofit que, do mesmo modo, revolvia o universo da autora brasileira, que é ucraniana de nascimento.

“A questão visual imagética, de uma câmera filtrando tudo, na primeira versão [2020], foi algo que marcou. 

Depois, quando retornamos com a peça para algumas apresentações no ‘Campo Grande em Cena’ (2021), o marco foi o retorno da peça no espaço presencial e o encontro com as pessoas do público, fundamental para o desenvolvimento do trabalho, sobretudo para o ator e a atriz”, comenta Nill Amaral.

O diretor conta que a alteração no elenco era algo pensado desde o início dos trabalhos da versão 2022. “Algumas mudanças são necessárias em razão da abordagem que cada ator ou atriz traz para o espetáculo. Nesse sentido, a peça pode ganhar novas perspectivas”, afirma o diretor.

“O teatro que eu procuro fazer é um teatro de texto, gosto de trabalhar a articulação das palavras, de como o ator se utiliza das palavras do texto na emissão para as pessoas do público, esse processo da palavra faz parte da minha pesquisa acadêmica: valorizo as pausas de um texto, a dinâmica das frases, o teatro é o espaço da palavra”, elucubra o encenador, que é mestre em Artes da Cena, dentro da pós de teatro, dança e performance da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

NÁDJA MITIDIERO

Além do estudo da palavra do texto teatral, o diretor destaca a gestualidade e o movimento desenvolvido pelo ator em cena. “A Nádja busca se alicerçar nesses elementos para compor a sua personagem”, diz Nill Amaral, ao contar que “reavivar uma peça e substituir um ator” foi o que permeou os primeiros encontros no espaço dos ensaios.

“Em resumo, é fazer tudo o que fizemos, só que em dobro, prescindir do material existente e provocar novos desafios. 

Nunca partimos do nada, tem sempre uma coleção de referências. Cada ator ou atriz traz consigo a experiência de vida e de formação, então, é preciso cultivar a capacidade de criar coisas, abrir espaços dentro de nós para a ideia do outro, no trajeto da cena, sem ter a ansiedade de como vai ser o resultado final”, pontua Amaral.

“Esse processo está sendo mais fácil pelo engajamento e o comprometimento do elenco. A Nádja, por ter sido da Cia., já conhece o processo de pesquisa e trabalho, e essas apresentações marcam o retorno dela. O desafio de reavivar uma peça é que o corpo tem a capacidade de armazenar históricos, o teatro é um diante do outro, e a palavra tem peso, som, história, sonoridade”, diz o diretor.

NOVA GERAÇÃO

A partir da montagem de 2007, o diretor repercute as mudanças na concepção cênica, no perfil do público e até no País como um todo. “Uma nova geração se formou e a Ofit amadureceu também”, revisa Amaral. O termo Ofit é uma corruptela para Associação Cultural Oficina de Interpretação Teatral.  

“Nesse ponto, revisitar todo um processo que envolve dramaturgia, artistas e inovação de linguagem cênica, é de extrema importância e necessária para o grupo, que busca também rever sua própria trajetória transformada nesse hiato de quase 14 anos. Uma geração assistiu ao espetáculo e outra se formou nesses anos, acredito que juntas podem ter grande interesse em rever novamente a peça, enriquecida de todo o repertório de vivências e pulsões”, afirma.

PÚBLICO E LINGUAGEM

“Trabalhamos na identificação do público com as linguagens contemporâneas desenvolvidas pela Ofit, e acredito que os amantes da literatura de Clarice possam se identificar com os elementos da escritora”, diz Amaral. Segundo o diretor, o dramaturgo Éder Rodrigues remexe o baú da escritora, sem pretender revelar uma única Clarice, e sim fragmentos de várias.

“A peça celebra a vida nesses tempos de tantas perdas, reflete sobre os momentos fugazes e as coisas para as quais não damos muita importância, mas que no fundo tem uma importância muito grande”, argumenta Nill.

“E na encenação busco mostrar algumas características desenvolvidas pela escritora, o indivíduo, com seus questionamentos, a apresentação do pensamento feita de forma não linear, verticalizar o vazio é o que nos resta, além de certa introspecção para os fatos apresentados”, finaliza.

Além do elenco presencial, Luciana Kreutzer faz uma participação por vídeo no espetáculo, que conta com o apoio da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS) e da Secretaria de Cultura e Turismo de Campo Grande (Sectur).

Semana Clarice Lispector

“Todo Redemoinho Começa com um Sopro”

De 8 a 11 de junho  

(de quarta-feira a sábado)

Às 19h30min

Entrada: Gratuita, com distribuição de ingressos 30 minutos antes do espetáculo

Local: Sesc Cultura MS

Av. Afonso Pena, 2270, Centro  

Classificação: 12 anos  

Informações: 3311-4417.

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