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CINEMA

Minicurso sobre diretora e filmes japoneses são opções para cinéfilos

Mostra de filmes japoneses e minicurso sobre a diretora belga Chantal Akerman são chances imperdíveis para o cinéfilo de Campo Grande

Não é sempre que acontece. Dois eventos, já em curso desde ontem, proporcionam uma oportunidade rara para o cinéfilo de Campo Grande dar uma atualizada no repertório durante esta semana. 

Embora de curta duração, as iniciativas são um alento e tanto para quem ainda estiver ressentido com a pouca oferta de eventos presenciais do gênero.

Trata-se da Mostra do Cinema Japonês, que se encerra hoje, no Museu da Imagem e do Som (MIS), com a exibição gratuita de “A Esposa de Um Espião” (2020), de Kiyoshi Kurosawa, a partir das 19h; e de “Corpos Alterados, Corpos Alienados”, minicurso, também gratuito, sobre o cinema da realizadora belga Chantal Akerman (1950-2015), no auditório da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), campus de Campo Grande, sob a condução dos pesquisadores Serge Margel e Luiz Fernando Medeiros de Carvalho.

JAPÃO E GUERRA

Organizada, desde 2016, pelo engenheiro e economista Celso Higa em parceria com o MIS, a mostra japonesa de 2022 tem o objetivo de marcar o aniversário de 114 anos da chegada dos japoneses no Brasil. O pano de fundo, no enredo dos dois títulos escolhidos para a edição deste ano da mostra, é a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

No filme de ontem, “O Imperador em Agosto” (“Nihon no Ichiban Nagai hi”, 2015, 136min), de Masato Harada, um grupo de soldados, em meio aos lances finais do conflito, não aceita que o Japão se entregue. 

Eles ocupam o Palácio Imperial e uma emissora de rádio, quando o Imperador Hiroito está prestes a anunciar a rendição do país em uma transmissão após o massacre das duas bombas jogadas pelas tropas norte-americanas. Os soldados esperam assim evitar a rendição.

SEGREDO-BOMBA

Em “A Mulher de Um Espião” (“Supai no Tsuma”, 2020, 115min), de Kiyoshi Kurosawa, que ganha projeção nesta terça-feira, os japoneses estão divididos sobre a participação do país na guerra. 

Durante uma viagem de negócios na Manchúria, Yusaku (Issey Takahashi), um comerciante de tecidos de Kobe, descobre um terrível segredo nacional. O homem quer fazer justiça e decide divulgar as informações sigilosas.

Satoko (Yu Aoi), a esposa do comerciante, começa a suspeitar de que ele está tramando algo e logo acaba sendo arrastada para dentro de um jogo enigmático, repleto de desdobramentos e ciladas. 

O filme é inédito em Campo Grande. Lançado em outras cidades brasileiras no mês de março, “A Mulher de Um Espião” foi considerado desde então o melhor filme do ano por um crítico de São Paulo.

Kiyoshi Kurosawa, que, apesar de ser bem-sucedido em vários gêneros desde a década de 1970, tem mais reconhecimento por seus filmes de terror, ganhou o Leão de Prata de “Melhor Diretor” do Festival de Veneza 2020 pela originalidade da trama neste thriller psicológico de fundo histórico que propõe uma releitura dos abusos do Japão durante Segunda Guerra.

OUTRO KUROSAWA

O cineasta não tem parentesco familiar com o mestre Akira Kurosawa (1910-1998), o realizador de obras-primas como “Rashomon” (1950) e “Os Sete Samurais” (1954), que forma uma espécie de trindade sagrada do cinema japonês ao lado de dois outros gigantes – Yasujiro Ozu (1903-1963) e Kenji Mizoguchi (1898-1956). 

Quem quiser discutir, ou saber mais, sobre o cinema japonês na Capital Morena vai encontrar em Celso Higa um interlocutor dos mais entusiasmados.

Como já ocorreu outras vezes, os filmes programados para esta edição pertencem ao acervo pessoal do curador, que adianta para o repórter, durante a conversa, uma página do Correio do Estado de 18 de junho de 2003, assinada por ele próprio, em que Higa traz uma série de informações preciosas sobre a cinefilia em torno dos filmes nipônicos em Campo Grande, desde os anos 1950, com as concorridas sessões do Cine Santa Helena.

EFEMÉRIDE

“Por conta desse entretenimento da colônia japonesa daqui, e após convite do MIS, tornei-me curador das mostras de 2016 a 2019 desse estilo cinematográfico. Com intuito de atender o público remanescente daquela época e novos curiosos, sempre mesclei clássicos em preto e branco, com filmes coloridos contemporâneos”, diz o curador.

“A mostra foi suspensa em 2020 e 2021 pela pandemia do coronavírus e retorna de uma forma tímida com dois filmes, para não passar em branco o mês de junho, que é o mês em que se comemora o marco da imigração japonesa no Brasil, cuja a chegada do navio Kasato Maru trouxe os 781 pioneiros orientais ao Brasil.

 Os filmes desta mostra trazem como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial, com assuntos pouco explorados no Japão e muito menos ainda no cinema ocidental”, afirma Celso Higa.

CHANTAL AKERMAN

Com uma filmografia caracterizada especialmente pelo engajamento estético e, ao mesmo tempo, por uma profunda revisão de valores heteronormativos e colonialistas, Chantal Akerman, que estreou em 1971 com o curta “Saute Ma Ville”, tem a sua obra analisada no minicurso “Corpos Alterados, Corpos Alienados”.

A militância de gênero, sua condição de judia e a intensa ligação com a mãe são aspectos que não podem ser ignorados por quem se debruça sobre a trajetória da diretora, que teria decidido se dedicar ao cinema depois de assistir, aos 15 anos, “O Demônio das Onze Horas” (Pierrot Le Fou, 1965), de Jean-Luc Godard.

O curso segue até amanhã na UEMS. A ideia é que filmes específicos da cineasta belga radicada na França sejam resenhados e debatidos durante os três dias de evento. 

No primeiro encontro, que foi realizado na noite de ontem, o suíço Serge Margel e o carioca Luiz Fernando Medeiros de Carvalho falaram sobre o longa-metragem “Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce, 1080 Bruxelles” (1975).

FORMALISMO

Considerado como o testamento artístico por excelência de Akerman, o filme espalha, em sua mais de três horas e vinte minutos de duração, três dias da rotina da Jeanne do título, uma dona de casa viúva e solitária que se aliena maquinalmente em meio aos afazeres cotidianos.

O uso do plano-sequência, os tempos mortos e, principalmente, a afiada crítica social a um “way of life” balizado pelo capitalismo selvagem  que a diretora procurou combater de modo incansável durante a sua trajetória são os pontos fortes do longa. 

No papel principal, está a atriz Delphine Seyrig (1932-1990), que se tornou conhecida pela atuação no célebre “O Ano Passado em Marienbad”, de Alain Resnais (1922-2014).

SOLIDÃO

Em “Les Rendez-vous d’Anna” (“Os Encontros de Anna”, 1978), que será debatido no encontro de hoje, às 19h, a cineasta interpretada por Aurore Clément faz uma turnê por várias cidades europeias para promover seu filme mais recente.

A partir de encontros breves, e às vezes bem inusitados, com estranhos e pessoas do seu convívio, Anna revela aos poucos o seu distanciamento físico e emocional do mundo em volta. Premiado como o “melhor filme” do Festival de Chicago, o longa é considerado um belo tratado sobre a solidão.

ASCENDÊNCIA JUDAICA

E no encerramento, amanhã, no mesmo horário, Margel e Carvalho vão abordar quatro documentários que a diretora realizou a partir de 1993 – “D’Est” (1993), “Le Sud” (1999), “De l’Autre Côté” (2002) e “Là-Bas” (2006). 

Esse último, além do olhar insólito e das invenções formais, como a exploração da câmera fixa e enquadramentos rigorosos, guarda um simbolismo especial por transcorrer em Israel por conta da ascendência judaica da cineasta.

LIVRO

“Corpos Alterados, Corpos Alienados” (Cauper & Valentim, 2022, R$ 50) é também o nome do livro sobre Chantal Akerman que os dois palestrantes estão lançando durante o minicurso. Atualmente professor convidado da Universidade de Brasília (UnB), Serge Margel, filósofo e crítico, é docente da Universidade de Neuchâtel (Suíça). Doutor em letras pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ).

Luiz Fernando Medeiros de Carvalho fez pós-doutorado na Universidade de Paris-1 sob orientação da filósofa Sarah Kofman (1934-1994), em 1987, e do filósofo Jacques Derrida (1930-2004) nos anos de 1987, 1994 e 1997. 

O minicurso é organizado pelo professor Daniel Abrão, do Programa de Pós-Graduação em Letras e do Grupo de Pesquisa Literatura, História e Sociedade (Lithis) da UEMS. Uma boa notícia: ainda há vagas. Inscreva-se pelo link www.even3.com.br/corpouems/.

PROGRAMAÇÃO

Mostra do Cinema Japonês

Museu da Imagem e do Som

Av. Fernando Corrêa da Costa, 559, Vila Carvalho

Hoje às 19h  

Gratuito

 

“Corpos Alterados, Corpos Alienados”

Minicurso sobre Chantal Akerman

Auditório da UEMS

Av. Dom Antônio Barbosa, 4155, Vila Santo Amaro

Hoje e amanhã às 19h

Gratuito

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