Na última quinta-feira de cada mês, o chá servido durante as rodas literárias da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (ASL) é uma instituição tão forte quanto a prosa, sempre inspirada e instruída, que os imortais entabulam no auditório da entidade em Campo Grande, no Altos do São Francisco.
Mas, sejam quais forem os sabores apreciados durante a Roda Acadêmica de hoje, a erva-mate tem tudo para dominar a prosódia da noite.
É que o evento desta quinta-feira, a partir das 19h30min, com entrada franca, presta homenagem ao escritor e folclorista Hélio Serejo (1912-2007).
Durante as cinco décadas de atividade como escritor, nos mais variados gêneros e formatos, Serejo procurou conciliar o tempo dedicado à pena com o cultivo dos ervais, uma tradição de família, em Ponta Porã, além da atuação em diversas outras atividades.
Quem vai comandar o papo sobre o autor, que nasceu em Nioaque e passou grande parte da vida em Presidente Venceslau (SP), são três nomes do panteão da ASL: Ileides Muller, Henrique de Medeiros e Rubenio Marcelo. A ideia é celebrar, “de forma interativa”, a vida e a obra do Catulo Mato-Grossense, que publicou quase 60 obras, a partir da década de 1930, destacando-se na extensa produção a temática da cultura dos ervais.
MENESTREL DOS ERVAIS
“É um autor para ser reconhecido nacional e até mundialmente. Tem uma história muito grande, muito eclética, recebeu vários títulos”, elogia Rubenio Marcelo. Quando o folclorista voltou a morar em Campo Grande, em 2005, o poeta do “infinito ser” tornou-se amigo do Menestrel dos Ervais.
O epíteto surgiu durante uma homenagem a Hélio Serejo na Biblioteca Nacional, no Rio, no ano de 1952, e carrega muito do sabor da amizade entre os dois.
Marcelo conta que, “em aproximação fraterna e visitas mais fecundas”, teve o prazer de ouvir, em primeira mão, “muitas histórias regionais e nativistas” narradas pelo homenageado da ASL de hoje. Também já fez poemas para Serejo e compôs uma canção, “Ser Tão Serejo”, que foi lançada em CD e circula no YouTube e em emissoras de rádio.
TRAJETÓRIA
Ficcionista, poeta, jornalista, memorialista, folclorista, Hélio Serejo nasceu em Nioaque em 1º de junho de 1912 e passou a morar em Ponta Porã aos dois anos de idade.
Aos 14 anos, na fazenda do pai, iniciou a labuta com a erva-mate nativa. O rapaz anotava tudo o que lhe chamava atenção na cultura fronteiriça.
Começou a escrever artigos sobre o assunto para a Folha do Povo e, aos 15 anos, enviava textos para revistas do Rio de Janeiro, onde ganhou o concurso Paisagens do Brasil.
Seus 64 cadernos de anotações serviram de fonte para grande parte de sua obra. Aos 17 anos, Serejo ingressa no 3º Regimento de Infantaria, na Praia Vermelha, no Rio, e matricula-se no Pritaneu Militar, também na antiga capital federal.
O sonho do futuro escritor de prestígio, ao ingressar na instituição que deu origem ao Colégio Militar, era se tornar engenheiro e construir pontes, sem jamais ter abandonado o hábito da observação e da escrita, com o reconhecimento de alguns prêmios já nessa época.
Aos 23 anos, em 1935, com a eclosão da Intentona Comunista, um exemplar de um livro sobre Luís Carlos Prestes, que pertencia a um colega de quarto, levou-o à prisão.
Passou seis meses preso, na Ilha das Flores, na Baía de Guanabara, submetido a privações e maus tratos. A pena redundou na sua exclusão do Exército. A anistia, com a reintegração de Serejo aos quadros militares, só veio em 2006.
“Ele saiu de lá [da prisão] com 32 quilos, retornou ao sul de Mato Grosso e foi trabalhar novamente nas ranchadas dos ervais, que o pai dele também tinha e trabalhava desde muito tempo”, conta Marcelo.
“E depois teve que se tratar das vistas. Ia a São Paulo sempre e voltava passando por Presidente Venceslau. Ele gostou da cidade e já tinha um parente lá, de forma que morou de 1948 a 2005 em Presidente Venceslau. Já estava bem doente, veio para Campo Grande e aqui faleceu em 2007”, diz o poeta.
O FAZ-TUDO
Além da erva-mate e dos livros, Hélio Serejo dedicou-se a uma surpreendente coleção de ofícios: investigador de polícia, no Rio de Janeiro; oficial do registro civil e delegado de recenseamento, em Rio Brilhante; fiscal de rendas, em Rio Brilhante, Maracaju e Dourados; escriturário e assessor da Comissão de Limites Brasil-Paraguai; e ainda vários cargos no poder público do antigo Território Federal de Ponta Porã, além da direção da Assistência Social da Prefeitura de Presidente Venceslau.
Foi membro de diversas instituições e academias no Brasil, entre as quais o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, a Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, a Academia Mato-Grossense de Letras, além de instituições estrangeiras, como o Centro Folclórico Sul-Americano de Bogotá, o Cultura Crioula de Paissandu, no Uruguai, e a Sociedade de Pesquisa Folclórica de Lisboa.
OBRAS
Entre suas dezenas de obras, destacam-se: “Tribos Revoltadas” (1935), “Modismo do Sul de Mato Grosso” (1937), “3 Contos” (1938), “4 Contos” (1939), “Homens de Aço – A Seita nos Ervais de Mato Grosso” (1946), “Ronda Sertaneja” (1949), “Prosa Rude” (1952), “Tinha Um Pé de Maconha em Casa” (1955), “Canto Caboclo” (1958), “O Homem Mau de Nioaque” (1959), “Poesia Mato-Grossense” (1960), “Buenas Chamigo” (1960), “Versos da Madrugada” (1969), “Vento Brabo” (1971), “Vida de Erva” (1975), “7 Contos e Uma Potoca” (1978), “Lendas da Erva-Mate 1” (1978), “Lobisomem” (1982) e “Caraí” (1984).