Delírios, alucinações, mudanças de humor, ansiedade, irritabilidade e alterações de apetite estão entre as consequências mais frequentes da demência, que acomete mais de 1 milhão de pessoas no Brasil. No mundo, 44 milhões de pessoas apresentam quadros ocasionados pela doença.
Segundo a Associação do Alzheimer, que assina essas estatísticas, são números suficientes para tornar a enfermidade responsável por uma crise global de saúde. Com sede em Chicago, nos EUA, a associação é uma organização não governamental criada em 1980 por voluntários, que possui escritório em São Paulo.
A demência é uma doença neurodegenerativa caracterizada pela progressiva deterioração de várias funções cognitivas, limitando, assim, o convívio social do indivíduo afetado. O prejuízo cognitivo pode incluir alterações de memória, desorientação em relação ao tempo e ao espaço e danos ao raciocínio, à concentração, ao aprendizado, à realização de tarefas complexas, ao julgamento, à linguagem e às habilidades visuais-espaciais.
Patologias
Mas, ao contrário do que grande parte da população pensa, a demência, na verdade, não é uma doença específica. Ela compreende uma série de patologias que apresentam sintomas neurológicos semelhantes que geram demência, como, por exemplo, Alzheimer e corpos de Lewy.
Na busca por compreender melhor o surgimento e a progressão da doença, o neurocientista e biólogo Fabiano de Abreu Agrela desenvolveu o estudo “Neuropatologias da Demência: Descrição e Caracterização”, cujos resultados foram publicados na terça-feira, sob a forma de um artigo, no Journal Health and Technology.
O artigo ressalta a dificuldade de identificar as doenças ligadas à demência. O diagnóstico deve ser feito por meio de testes laboratoriais e de imagem. O agravante é que, mesmo assim, muitas vezes a patologia não é detectada com o paciente em vida.
Além da vida
“Para complicar ainda mais o diagnóstico e o tratamento, as patologias associadas à demência são difundidas no cérebro idoso mesmo na ausência de demência. Quase 50% dos idosos não dementes que participaram de um estudo post mortem, realizado com autópsias e avaliação, apresentaram lesões cerebrais associadas a patologias de demência”, afirma o PhD em neurociências.
Fabiano também é mestre em psicologia e dirige o Centro de Pesquisas e Análises Heráclito (CPAH), no Rio de Janeiro. O especialista investigou as principais doenças que causam a demência, entre as quais o Alzheimer e os corpos de Lewy.
Doença de Alzheimer
A Doença de Alzheimer (DA) é provavelmente a mais famosa das doenças causadoras de demência e caracteriza-se por um declínio cognitivo que causa perda de memória e gera dificuldades na linguagem. “A DA é a principal causa de demência, representando mais de 50% dos casos em indivíduos com mais de 65 anos”, afirma o neurocientista.
“O paciente apresenta respostas cognitivas mal adaptativas por conta de seu extenso comprometimento cerebral. O primeiro sintoma da DA é geralmente o declínio da memória episódica, que pode ser seguido por alterações linguísticas, principalmente anomia, distúrbios em funções executivas e habilidades visuais e espaciais”, detalha Agrela.
De acordo com o biólogo, o diagnóstico clínico da DA baseia-se na observação de um quadro clínico compatível e na exclusão de outras causas de demência por meio de exames laboratoriais e de neuroimagem estrutural.
Corpos de Lewy
A demência com corpos de Lewy (DCL) é um tipo de demência por depósitos anormais – conhecidos como corpos de Lewy – de uma proteína chamada alfa-sinucleína no cérebro do paciente. Esses acúmulos causam alterações em substâncias químicas do cérebro que podem alterar funções como humor e movimento e gerar alucinações.
“A característica central dessa demência é a perda de habilidades relacionadas às percepções visuais, de atenção e executivas, cognição flutuante e alucinações visuais recorrentes. O DCL é uma demência com início insidioso, geralmente ocorrendo em pacientes com mais de 60 anos de idade e com uma prevalência ligeiramente maior em homens”, explica Agrela.
Prevenção
Existem alguns hábitos simples que podem ser implementados na rotina do indivíduo para evitar o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, como a prática de atividades físicas regulares e uma alimentação saudável baseada em dietas como a mediterrânea e a mind.
São cardápios que, entre outros benefícios, envolvem alimentos com substâncias neuroprotetoras e antioxidantes para combater o declínio cognitivo e prevenir doenças neurodegenerativas. Dormir bem e exercitar o cérebro com jogos e práticas que fortaleçam a cognição também são hábitos recomendados.
Causas
No entanto, quando a doença já se instalou, é essencial diagnosticá-la o mais rápido possível. Dessa forma, Fabiano indica as abordagens médicas que serão mais efetivas em reduzir a evolução da patologia. “As causas da demência podem ser diagnosticadas por histórico médico, exame físico e cognitivo, testes laboratoriais e imagens cerebrais”, reforça o especialista.
“A gestão deve incluir abordagens não farmacológicas e farmacológicas, embora a eficácia dos tratamentos disponíveis permaneça limitada. O controle dos fatores de risco e a detecção do transtorno em estágios iniciais podem ser importantes na tentativa de amenizar as perdas, diminuindo o número de casos”, afirma.
Além do Alzheimer e dos corpos de Lewy, a demência pode ser causada por outros fatores, a exemplo de lesões cerebrais de origem vascular e pela Doença de Parkinson.