Na pintura, o retrato é uma tradição que remonta à Antiguidade. A popularização dessa forma de representar um indivíduo ou um grupo de pessoas foi um processo bastante lento, que teria se estendido do século 15 ao advento da fotografia, no século 19.
No tempo dos faraós, por exemplo, no Egito Antigo, somente os soberanos e suas famílias eram contemplados com esse tipo de registro. Desde os gregos, é o imperador ou o seu equivalente quem empresta a face para estampar as moedas.
Poetas, cientistas e bichos em extinção, que foram aparecendo nas cédulas brasileiras, não retiram a pompa chapa branca que o dinheiro precisa ter.
E, no varejo dos cotidianos pessoais, sabemos que, para além da mania das selfies, qualquer três por quatro é, mais do que nunca, a hora certa e obrigatória de “sair bem na foto”.
Sem perder a autoridade documental dos retratos pintados ou fotografados de um jeito tradicional, “Yvypóry – Habitantes da Terra”, a nova exposição de Ghva Mauricio, propõe uns “borrões” saudáveis e oportunos no conceito por trás dos registros mais acadêmicos e convencionais.
Com 27 pinturas sobre tela, a mostra será inaugurada amanhã, às 19h, na Galeria de Vidro (Plataforma Cultural), onde permanece em cartaz até o dia 31 de agosto. O artista parte de uma pesquisa bibliográfica, sobre a qual se dedica há mais de duas décadas, em torno de registros históricos dos povos indígenas e de populações afro-brasileiras.
MUITAS CARAS
“Yvypóry”, que significa “habitantes da terra” em guarani, foi um dos projetos contemplados com o Prêmio Ipê de Artes Visuais e apresenta trabalhos realizados entre 2020 e 2022.
São retratos e imagens dos povos tradicionais de vários povos indígenas brasileiros, tanto de Mato Grosso do Sul – guarani, kadiwéu, chamacoco e terena, por exemplo – quanto de outras regiões do País, como os xavante, os paiter suruí e os ianomâmi, entre outros.
A proposta é “enaltecer e valorizar” a cultura e a identidade dos povos retratados, bem como a força, a herança ancestral e a “honra” com que vêm resistindo, há séculos, ao projeto colonialista de dizimá-los da foto oficial. Ou bem mais que isso.
Uma vez mais, os retratos, ao longo da história da arte, quase sempre foram utilizados como forma de homenagear a aristocracia, os nobres e as figuras de autoridade. Na exposição de Ghva Mauricio, a exaltação à cultura indígena envolve retratos e cenas do cotidiano.
TÉCNICA E COTIDIANO
“Os retratos sempre foram tratados de forma a enaltecer e perpetuar grandes personalidades de cada época, como os reis. A ideia aqui é repensar e perpetuar os povos originários, que sofreram ao longo da nossa história, desde o período colonial. Resgatei algumas técnicas de retratos, como padrões e características clássicas”, afirma Ghva Mauricio.
“A arte do retrato é muito importante ao longo da história pelo imenso valor de representar as personalidades e os pensamentos de uma época. Mas nessa minha nova coleção tem cenas cotidianas, tem obras que remetem às minhas lembranças da minha infância no norte do Brasil”, diz o artista, que nasceu em Rondônia.
Ghva Mauricio viveu uma infância rural em meio à dinâmica desenvolvimentista, na linha do “ordem e progresso”, na cidade de Cacoal (RO), em plena floresta amazônica, onde a presença dos índios suruís era constante.
Constante também era o imaginário nordestino, por conta das origens familiares do artista, e a convivência com a fauna e a flora. Um cardápio que despertou o interesse do artista pelo desenho de observação.
“Considero a minha técnica mista. Utilizo tintas acrílicas e há toda uma aplicação na obra antes e depois de a pintura ser concluída. Com inspiração da iconografia, percorro brechós em busca de materiais, como bolsas, calças e cintos de couro. Recorto e depois utilizo como aplicações. Também estou usando umas aplicações que encomendei de queratina de chifre bovino”, conta Ghva Mauricio, que está em Campo Grande desde 2004.
RECONHECIMENTO
Com uma combinação de cores e colagens que evocam, de modo geral, a plástica – e o vigor – de comunidades indígenas e quilombolas, a produção de Ghva chama a atenção de observadores como a antropóloga e historiadora Maria Barcelos, que destaca “a investigação sobre as diversas etnias indígenas brasileiras, seus grafismos e cores”.
A exposição chega à Galeria de Vidro no fluxo de uma data importante, o dia 9 de agosto, em que se comemora o Dia Internacional dos Povos Indígenas, propondo uma aproximação, engajada e inspirada, com a leitura das artes e das ciências humanas sobre as culturas indígenas.
A visada busca reconhecer o vasto código de valores e relações sociais de povos que preservam a natureza a partir de uma lógica própria, que “foge à lógica do sistema ocidental implementado historicamente”.
CONVIDADOS E CURRÍCULO
São ideias que atravessam também a programação especial que foi montada para receber o público amanhã, na noite de estreia, com participação da DJ Tamys e do cantor Begét de Lucena no vernissage. O texto de apresentação é assinado por Yuri Matsunaka, colaboradora da causa indígena sul-mato-grossense há décadas.
Desde que chegou à capital, Ghva realizou projetos como “Espelhos da Terra” (2021), com a Aldeia Urbana Marçal de Souza, e participou de eventos como o Festival Mba’e Porã (2020), além de exposições na TV Educativa e no Fórum de Campo Grande, entre outros espaços e cidades do Estado, como Bonito e Aquidauana.
Suas pinturas também já puderam ser conferidas em galerias em Trancoso, distrito de Porto Seguro (BA), Porto Velho (RO), Cacoal (RO) e no Salão de Belas Artes de Perúgia, na Itália (2006), onde explorou o tema “Água – Reflexos e Reflexão”.