Com quantos povos se faz uma cidade? Mesmo diante da tão festejada e muitas vezes mal compreendida miscigenação brasileira, a resposta ganha várias nuances – étnicas, culturais, históricas – se a cidade em questão for Campo Grande.
Na semana em que se celebra o aniversário de 123 anos da Capital, o Correio do Estado publica uma série de reportagens especiais que procuram desvendar os bastidores da presença estrangeira por aqui.
Além dos indígenas, africanos e portugueses, bem como a afluência de populações com certidão de nascimento em outros estados do País, a cidade apresenta em seu dia a dia marcas bem visíveis de povos que vieram de, pelo menos, quatro continentes para tentar a vida no mesmo descampado entre os rios Prosa e Poesia onde José Antônio Pereira aportaria há um século e meio.
Tanto na edição impressa quanto no portal, o Correio do Estado de segunda-feira publicou reportagens sobre a comunidade paraguaia de Campo Grande. Nesta terça-feira, o jornal dedica-se aos imigrantes japoneses. Quarta-feira é a vez dos bolivianos.
Países de cultura árabe, como o Líbano e a Síria, são o tema das reportagens de quinta-feira. E na sexta-feira, 26 de agosto, dia do aniversário da Capital, por ter sido a data, no ano de 1899, em que a antiga Vila de Campo Grande foi elevada à condição de paróquia, o jornal tangencia a teoria dos três povos e publica reportagens sobre Portugal.
Quem está à frente das investigações sobre esses fluxos migratórios é a dupla de jornalistas Daiany Albuquerque e Mariana Moreira.
CAMPÃO
Acorda com a cuia de tereré na mão, não perde um sobá por nada e adora curtir as fachadas dos prédios centenários, ou quase, na parte antiga do Centro? Então você, mesmo sem se dar conta, opera a sua sensibilidade cidadã no melhor modo Campão – apelido carinhoso com que muitos moradores se referem à cidade.
Ou seja, você vive um cotidiano que é, ao mesmo tempo, tipicamente local e atravessado por genes culturais com origem nos quatro cantos do mundo.
“Campo Grande é formada basicamente por imigrantes, e a série tem o objetivo de falar sobre a chegada desses desbravadores e como eles construíram a cidade que a gente conhece, a identidade multicultural que nos define”, afirma Daiany Albuquerque.
A jornalista de 34 anos conta que boa parte do percurso para elaborar as reportagens foi orientado por grupos culturais ou associações que reúnem os nativos ou qualquer um que se identifique com as nacionalidades abordadas pelo projeto especial do Correio do Estado.
REPRESENTATIVIDADE
“Como são comunidades grandes e numerosas, a maioria tem associações e representantes que sabem muito sobre a vinda dos estrangeiros. Conversamos com eles para ouvir as histórias e os detalhes dessas trocas”, diz Daiany, que, ao apurar a própria ancestralidade, revela possuir apenas sangue lusitano.
“Tentamos mostrar o que está no hábito diário e não é percebido nem pelo campo-grandense”, afirma. “Não tenho ligação direta com as correntes migratórias. Mas nasci e cresci aqui. Então, não tem como. Sou da chipa, do tereré e da sopa paraguaia. E, mais recentemente, passei a gostar muito da comida árabe depois que um tio meu [o empresário Angelo da Silva] abriu um restaurante especializado”.
“PÁTRIA”
De mãe catarinense e avós gaúchos, a jornalista Mariana Moreira, de 25 anos, diz que integra a primeira geração da família que é 100% campo-grandense. Portanto, além do desafio do trabalho de reportagem em si, que envolve, entre outras coisas, pesquisas, entrevistas e, no seu caso, registro fotográfico, a produção da série bateu fundo de um modo bem especial.
“Eu nasci e cresci comendo esse prato típico”, conta Mariana, que revela ser “vidrada” no sobá. Autora de um fotolivro sobre imigração, chamado “Pátria”, que foi resultado do seu trabalho de conclusão de curso (TCC) na graduação em jornalismo, Mariana não resistiu a vocação de fotógrafa e, durante as pautas, também empunhou sua câmera, reforçando a documentação visual realizada por Gerson Oliveira e Marcelo Victor, repórteres-fotográficos do Correio do Estado.
MARCAS
Para escolher os países que serviriam de tema das reportagens, Mariana diz que, em parceria com Daiany, buscou como parâmetro uma espécie de mapeamento das marcas mais aparentes da presença gringa. “Fomos constatando os que tinham uma influência maior, como Paraguai e Japão”, explica a jornalista.
“Campo Grande tem uma cultura muito forte do Paraguai”, exemplifica Daiany. “A gente toma tereré, come chipa e ouve e dança chamamé. Nossa identidade é muito ligada ao Paraguai. Muita gente, se não toma o tereré em si, com certeza é consumidor da erva-mate de outras maneiras. Mato Grosso do Sul foi colônia espanhola e nessa região toda, também na Argentina e no Uruguai, o mate é bem forte”, afirma a jornalista, que também atua no time de editores do Correio do Estado.
CHIPAGUAÇU
“Durante o tempo em que éramos colônia espanhola, foi uma troca intensa. Não se pode dizer que o consumo do mate começou ali. Mas o fato é que é paraguaio o modo mais conhecido de preparar e saborear por aqui”, constata Daiany.
“E, com a chegada da estrada de ferro, em 1914, vieram as outras influências. Especialmente a partir daí, a cidade começou a receber pessoas de vários outros lugares”, amplia.
“A Feira Central, do jeito que é hoje, é uma conquista da comunidade japonesa. O sobá é tombado como Patrimônio Imaterial local da cidade”, defende a jornalista, que encerra a conversa compartilhando algumas histórias do seu diário de bordo, como o encontro com dona Petrona Paula Gimenez, que vive no Assentamento Santa Mônica.
As duas jornalistas acompanharam dona Petrona, que tem origem paraguaia, durante o preparo de iguarias típicas do país vizinho.
Conheceram de perto, por exemplo, textura e aroma originais da chipaguaçu. Essa espécie de bolo salgado à base de milho-verde – cujo nome às vezes se escreve com o S dobrado ou com Z – transforma a popular chipa, mais facilmente encontrável na Capital, em um genérico quase sem graça. É o que garante a dupla.
“Ela fez a legítima sopa paraguaia e a autêntica chipa. Hoje todo mundo faz como quer. Mas ela, filha e neta de paraguaios, aprendeu com a mãe”, destaca Daiany.