Correio B

7 DE SETEMBRO

Veja opiniões de quem trabalha com arte na Independência do Brasil

Confira análises e opiniões de quem trabalha com cultura sobre os 200 anos da Independência do Brasil, celebrados ontem

Autoridades públicas, militares e uma multidão de cidadãos foram às ruas ontem em todo o País para celebrar um 7 de Setembro especial, já que a efeméride de 200 anos da Independência, por ser uma data redonda, agrega ainda mais valor simbólico ao dia que marca oficialmente a libertação do Brasil do jugo de Portugal.

Passada a festança cívica, e política, cabem algumas indagações. O que a data, de fato, representa? Do que exatamente se orgulhar? 

E o que deveria ter sido diferente até aqui? Essas perguntas foram feitas a alguns profissionais que trabalham em diferentes segmentos da arte e da cultura em Campo Grande e outros municípios do Estado.

A Capital, aliás, só passaria a constar no mapa meio século após o famoso grito do Ipiranga de 1822. Na época, Campo Grande não passava de “apenas uma região a ser desbravada, entre o Rio Pardo (e Varadouro de Camapuã) e o Rio Miranda (e Presídio de Miranda)”, afiança Wellington Corlet dos Santos em um estudo sobre o período colonial.

Coronel da reserva do Exército, Corlet dos Santos é associado e colaborador do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul (IHGMS). 

No artigo “Mato Grosso nos Tempos da Independência”, um dos textos em que sintetiza a sua pesquisa sobre o tema, o militar afirma que, “por qualquer caminho”, o tempo gasto de uma viagem entre São Paulo e Cuiabá era de, no mínimo, quatro meses.

A então província de Matto Grosso, com dois tês mesmo, era formada basicamente pelos domínios territoriais que hoje compõem os estados de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Rondônia. E, sim, a informação de um Brasil livre levou quatro meses para chegar.

“As notícias sobre a proclamação da Independência do Brasil e a aclamação do príncipe regente dom Pedro como Imperador do Brasil só chegaram em Cuiabá, na província de Matto Grosso, na primeira semana, muito provavelmente no domingo (dia 5), mês de janeiro do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1823. No dia 6 de janeiro, segunda-feira, cantou-se um ‘Te Deum’ na catedral, pelo acontecimento”, escreve o coronel historiador.

Mas chega de história. Confira o que dizem os entrevistados sobre o bicentenário.

ARTISTA VISUAL

“Essa data talvez seja o primeiro golpe político-militar, porque não sei se somos independentes. Podemos ter deixado de ser colônia dos europeus, mas continuamos a ver o Brasil como riquezas que possuem valor e vendemos tudo o que temos para os países que pagarem melhor”, afirma o artista visual Victor Macaulin.

“Penso que talvez podemos ter orgulho das conquistas de direitos humanos, das mulheres, crianças e adolescentes, do povo negro e dos povos originários, mesmo percebendo que há falhas e que o dinheiro é quem manda, infelizmente”, diz Macaulin, um crítico ferrenho da acumulação capitalista desmedida.

“Vejo que a ideia de riqueza causa todo o mal no mundo. Ouro, dinheiro, bens materiais. Foi por isso que colonizaram o novo mundo e por isso escravizaram e exterminaram pessoas. Tudo pelo poder. Infelizmente, não é um problema só do Brasil”, avalia o artista visual.

ENCENADOR TEATRAL

“Vejo o bicentenário da Independência como uma lembrança do que, um dia, foi uma grande promessa, um País rico e feliz. Nossa extensão territorial, áreas férteis, florestas e inúmeros recursos naturais ainda são cenário invejado por muitos, sem contar essa mistura da população, que combina culturas de quatro continentes, deixando riquíssimas nossas experiências e aptidões”, diz o encenador teatral Moysés Chama.

“Mas algo aconteceu que não conseguimos fazer deste País o melhor dos países, porque a fome assola mais de 60 milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha de pobreza, mais da metade da população é negra e quase não se vê afro-brasileiros em pontos de destaques e lideranças. A matemática é simples e a conta não bate”, prossegue.

“Por outro lado, houve avanços, devemos nos orgulhar desta terra que se modernizou industrialmente e, inclusive, politicamente na era Getúlio, virou também o País do futebol e da maior festa popular de rua, o Carnaval. E se formos citar a força artística, a gente passa por música, artes plásticas e vamos até a literatura”, afirma o diretor.

“Contudo, haverá sempre a briga pelo poder. Ou você é verde e amarelo, que representam o brasão da família Bragança e o ouro retirado daqui e enviado para a Europa, ou você é vermelho, que representa o sangue das lutas por liberdade e justiça. Ouso dizer que ainda luto pelo direito e respeito para ser de todas as cores. Isso é democracia”, pondera Chama.

BIBLIOTECÁRIA

“Tenho orgulho de um povo miscigenado e trabalhador, que, mesmo nas situações desfavoráveis, consegue achar motivação para seguir em frente. A alegria de viver do povo brasileiro, mesmo nas piores adversidades, me encanta”, exalta a diretora da Biblioteca Pública Isaías Paim, Eleuzina Crisanto de Lima.

“Para celebrar de verdade os 200 anos, temos que combater essa desigualdade social, o apartheid disfarçado dos grandes condomínios de luxo em relação às periferias, os discursos de ódio e discriminação de pessoas que se consideram melhores que as demais”, defende a bibliotecária.

MÚSICO

“Me orgulho do povo brasileiro, que constrói tudo. Sem o povo não tem Congresso Nacional, não tem Exército, não tem Marinha. É o povo que trabalha e ganha dinheiro para pagar todo mundo. É o povo que é o meu orgulho”, declara Miguelito Barreira, baterista e multi-instrumentista veterano da cena musical sul-mato-grossense.

“Precisamos combater a corrupção. Porque, se você tem uma empresa, coloca um gerente e o gerente rouba, a sua empresa vai falir, tudo vai falir, não vai nada para frente. Quer dizer: roubou, não tem progresso. Tem que ter honestidade. Sem honestidade, não tem progresso”, encerra o músico.

PENSADORES

Vários outros entrevistados tiveram uma reação parecida com a de uma professora universitária de quem optamos por preservar o nome. 

“São questões difíceis de serem respondidas assim de supetão. Sigo pensando”, despista a educadora, que não deixa de ter razão. Pensar sobre o papel das datas e símbolos oficiais nunca foi tão necessário.

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