Você já foi a uma sardinhada? Sim, é um banquete que tem como carro-chefe a sardinha.
Se, ainda assim, não sabe do que se trata, terá uma boa chance de ver de perto – e se deliciar com um dos sabores mais tipicamente portugueses por trás do nome – no dia 25, último domingo deste mês, a partir das 12h.
Nesta data e horário será realizada a 17ª Sardinhada do Clube Estoril. O evento retorna ao calendário gastronômico de Campo Grande depois de um hiato de dois anos – 2020 e 2021 –, em decorrência das restrições impostas pela pandemia. Os ingressos já estão à venda – R$ 50 por pessoa – diretamente no Estoril.
Crianças com até 7 anos de idade não pagam para participar da celebração gastronômica que exalta o peixe tão tradicional quanto o bacalhau na cozinha portuguesa.
Os 600 quilos de sardinha a serem degustados durante o evento foram “importados” diretamente de Itajaí, em Santa Catarina. “É uma sardinha selecionada, grande e de qualidade”, vibra Fátima Corado, presidente da Associação Luso-Brasileira de Campo Grande (ALB).
TRADIÇÃO E AFETO
Filha e neta de imigrantes, tanto por parte de pai quanto de mãe, que vieram de Figueira da Foz, a segunda maior cidade do distrito de Coimbra, em Portugal, Dona Fátima, embora sul-mato-grossense de nascimento, tem uma alma portuguesa “com certeza”.
O pioneiro é o avô paterno, Joaquim Gonçalves Corado, fundador do Centro Beneficente Português, que chegou a Campo Grande há mais de um século, após temporada em Santos (SP) para trabalhar na construção da estrada de ferro.
Em junho de 2023, a presidente se despede do comando da entidade, encerrando sua quarta gestão à frente da associação. Em 93 anos de existência da ALB, ela é até hoje a primeira e única mulher a ter assumido o cargo.
E revela que não tenta um quinto mandato por respeito ao estatuto da entidade.
Mais que poder, Fátima Corado concentra-se, aos 64 anos, no apego às tradições do país de origem de sua família, no sentimento de comunidade e na expectativa que os eventos como a Sardinhada geram na colônia portuguesa da Capital. Tudo com muito afeto como esteio. E temperado pelos dotes culinários que desenvolveu desde menina no ambiente doméstico.
LINGUIÇA
“O evento foi criado inspirado nas festas tradicionais realizadas em Portugal, em que a sardinha é sempre o prato principal. O cardápio será sardinha assada na brasa, caponata de pimentões, batata ao murro, arroz branco e salada verde. Serão vendidos também doces portugueses e linguiça portuguesa”, informa a coordenadora da Sardinhada.
Hoje, inclusive, é uma data importante na contagem regressiva até o dia da 17ª edição do evento.
“Nossa programação começa a partir do dia 13 de setembro [hoje], quando será feita a confecção da linguiça portuguesa, a defumação e a embalagem a vácuo. No dia 23, teremos a limpeza das sardinhas e, no dia 24, serão assados e limpos os pimentões para a caponata”, diz Fátima.
SARDINHA FAKE
“É um prato típico e com preço acessível. A sardinha em Portugal equivale ao nosso tradicional espetinho. Ela é vendida nas ruas, como o espetinho com mandioca é vendido aqui”, afirma. Para o preparo adequado do peixe, alerta, é preciso ter cuidado com a quantidade de sal. “Pois ela absorve facilmente esse produto. E controlar o tempo de salgamento”, adverte Fátima. “No nosso caso aqui, ela é temperada com sal boiadeiro”.
Outra importante recomendação é fugir das sardinhas enlatadas tão comuns no mercado brasileiro (“são produtos totalmente diferentes”) e não engolir gato por lebre.
Ou seja, não levar para casa as sardinhas fake. Mas existe, mesmo, sardinha falsa? “Sim, existe uma sardinha bem grande, que recebe essa denominação, porém, ela é muito seca e possui muito espinho”, adverte.
“Tanto a linguiça portuguesa assada quanto a sardinha possuem o pão como acompanhamento. Em Portugal, nas festas tradicionais e nas ruas, são servidas somente com pão ou a tradicional broa”, conta Fátima.
As sardinhas também são comuns no litoral atlântico de países como França e Marrocos. Em Portugal, conta-se que, por volta de 1456, o peixe só tinha pesca liberada aos domingos e nos dias santos. No século 18, com a escassez da sardinha, os lusitanos passaram a comê-la com pão.
DOCES E DJS
O repórter não se aguenta e pergunta mais sobre os doces da festança do dia 25, de olho nos pasteizinhos de Belém. “Pastel de nata , pastel de Belém, pastéis de Tentugal. Esses são os mais tradicionais. Haverá outros”, garante Fátima Corado.
A expectativa é de que a Sardinhada deste ano reúna 1.000 glutões, a maior parte integrante da colônia portuguesa de Campo Grande.
Astros da música portuguesa, de Amália Rodrigues a Rui Veloso, passando por Roberto Leal, não vão faltar no repertório dos DJs escalados para fazer a trilha sonora – DJ JB e DJ Simmu. No telão, vídeos com danças típicas.
“Resgatamos o legado deixado por nossos ancestrais. Desde o Centro Beneficente Português, agregar as pessoas estimulando a cultura, a dança, a música e a gastronomia é gratificante, esse é o lucro. É saboroso e tem muito carinho nisso tudo”, desmancha-se a presidente da ALB.
“A maioria das pessoas que preparam é da colônia portuguesa, estão acostumadas a fazer, fazem bem-feito e, sobretudo, com amor”, diz Fátima, citando como exemplo entre os colaboradores o marido, Mário Nelson Araújo, que pilota a defumação das linguiças. Mais informações sobre a 17ª Sardinhada podem ser obtidas por telefone – (67) 3312-0400/(67) 99604-7643.