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ARTES CÊNICAS

"Eu Preciso Que Vocês Me Escutem" é o novo espetáculo do ator André Tristão"

André Tristão apresenta "EPQVME Eu Preciso Que Vocês Me Escutem" no Sesc Cultura, montagem que propõe diálogo criativo do artista com a arquitetura de Campo Grande e que teve temporada concorrida, de janeiro a fevereiro, na Esplanada Ferroviária

Cauê Reis

16/03/2023 - 10h30

O que fazemos para conectar as nossas presenças?

Que corpo é esse que se movimenta? As indagações partem de André Tristão no convite para a nova temporada de “EPQVME – Eu Preciso Que Vocês Me Escutem”, espetáculo solo que o performer apresentou no Armazém Cultural, entre janeiro e fevereiro deste ano, durante o concorrido período de estreia.

De hoje a sábado, a montagem, que leva uma pegada conceitual e tem uma extração existencialista e urbanística a um só tempo, ocupa as instalações do Sesc Cultura, com sessões às 19h, pela agenda do Sesc Encena.

Os ingressos gratuitos, que poderiam ser reservados com antecedência pela plataforma Sympla, esgotaram-se em menos de 24 horas.

Mas a produção do espetáculo promete uma cota mínima, a ser distribuída por ordem de chegada e conforme disponibilidade, a quem aparecer pelo menos 30 minutos antes do início de cada sessão.

Quando as perguntas do primeiro parágrafo se voltam para o próprio artista, até as implicações meteorológicas são levadas em conta: “Ainda estou em processo de adaptação para esse espaço. Existem várias possibilidades, inclusive a de não ocupar da forma como eu gostaria, por conta da chuva. Vamos aguardar”, anuncia Tristão, em entrevista ao Correio do Estado, na véspera da reestreia.

O ator, professor e diretor teatral, que segue com a Técnica Klauss Vianna (TKV), pavimentando o seu passeio poético por marcos arquitetônicos de Campo Grande, mostra-se, ainda, sob forte impacto da experiência, carregada de improvisação e metalinguagem, com o espaço do Armazém Cultural.

O ARMAZÉM

“A grandiosidade do Armazém e a impregnação da história na sua matéria fazem com que, só de ele existir, promova uma atmosfera! Isso me auxiliou bastante no encontro da obra com o espaço, fazendo com que eu pudesse mover aquele ar recheado de vidas. Lembro dos dormentes no chão, das grandes portas de madeira com suas presilhas seguradas por pregos e que antes seguravam trilhos”, afirma o artista entre a divagação e o detalhe.

“Lembro, também, do tempo em que fiquei lá... As inúmeras pessoas que passavam querendo olhar lá para dentro daquele espaço. Eu, na hora, conectava isso com a saudade e jogava a pergunta já meio que sabendo a resposta: ‘Tá com saudades, né? Pode entrar!’. E essas pessoas entravam, e, por meio dos olhares delas, eu as via completando aquele espaço com suas memórias”, conta Tristão, que enfileira histórias da Esplanada.

“Uma senhorinha ficou muito emocionada. Ela estava com seu filho e seus netos. Abri o outro lado para ela olhar os trilhos. Eu andei um pouco de trem. Se foi uma vez, foi muito, e está guardada em um lugar remoto da memória, mas nem sei dizer se é real. Porém, posso afirmar que tenho uma grande conexão com os locais de passagem. Eu gosto de ir. E também gosto de voltar”, relata.

“Quando estávamos ensaiando, a Jussara Miller [uma das maiores referências quando o assunto é a TKV], que foi quem fez a direção de movimento de ‘EPQVME’, me relatou que é filha de ferroviário. Ainda, disse que eu estar naquele espaço fez com que ela se colocasse de forma afetiva no trabalho, para além da nossa relação pessoal”, menciona o artista.

O QUARTEL

E quanto ao Sesc Cultura, André?

“O Prédio Mello e Cáceres [localizado na Av. Afonso Pena, nº 2.270, Centro, que costumava servir de quartel para a 9ª Região Militar e que atualmente funciona como espaço cultural do Sesc] acaba de completar 100 anos. De um modo inverso ao que se apresenta historicamente, me coloco nesse lugar com um olhar carinhoso pelo que se ocupa agora”, compara.

“Toda a cultura e a vida artística tomm presença nesse lugar, de forma contrária ao que era posto historicamente. Assim como também se fez no Armazém. As coisas vão se transformando, na verdade. Ao mesmo tempo, sou neto de militar, que, apesar de não ser do Estado, serviu o Exército aqui no CMO [Comando Militar do Oeste]. O que faz com que, de certa forma, parte da minha história esteja impregnada também nesse lugar”, aposta André Tristão.

TKV

Potencializar o corpo cênico a partir de determinados elementos, não exclusivamente relacionados a um repertório virtualmente arquitetônico. Esta parece ser a busca de Tristão, que, junto ao seu fôlego exasperante, quase sempre leva a bordo quem o espia em cena.

“EPQVME – Eu Preciso Que Vocês Me Escutem” é um projeto contemplado com recursos financeiros do Programa de Investimentos Culturais (Fomteatro) de 2021, da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Sectur). Fora a primeira tempora de apresentações, também ofereceu oficinas gratuitas na época.

De modo mais objetivo, o espetáculo propõe que, a partir do estudo da presença cênica e de treinamentos corporais por meio da TKV, “diálogos corporais sejam desenvolvidos com o espaço e a luz, a fim de criar diálogos estéticos e dramatúrgicos com a obra”, descreve a sinopse.

A professora da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) Dora de Andrade participa da montagem como assistente de Jussara Miller.

A peça conta, ainda, com textos de Giordano Castro (PE), Raquel Naveira (MS) e Ewerton Goulart (MS); provocação de cena de Ligia Prieto (MS); produção audiovisual de Helton Pérez (MS); e produção musical de Julio Queiroz (MS).

Saiba: Klauss Vianna (1928-1992) marcou o pensamento e a prática da dança com uma técnica bastante original, que leva seu nome. Por meio da educação somática, põe foco na pesquisa do movimento a partir da escuta do corpo.

Um mapeamento que permite ao indivíduo observar e acionar os direcionamentos ósseos e os vetores de força, potencializando o fluxo do movimento pelo espaço.

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