Desde que voltou a morar no Estado, em plena pandemia, Dannon Lacerda não para quieto. Entre Guia Lopes da Laguna, Campo Grande e outras cidades, fez mais uma versão do roteiro e consolidou o projeto de um longa-metragem, para o qual está em busca de investidores, organizou e ministrou oficinas gratuitas para capacitação audiovisual e, entre outras agendas, participou de projeções e debates em sessões de cineclubes, fora as escapadas culturais para o Rio de Janeiro, onde permaneceu por 15 anos.
A novidade é mais um filme a caminho, a primeira produção que o cineasta sul-mato-grossense roda em sua Guia Lopes natal e também o seu primeiro filme de não ficção. Mais que isso, o novo curta cala fundo no passado familiar – e geográfico – do diretor de “Copa 181”, longa-metragem de 2017, premiado na Argentina e exibido no México, Polônia, Alemanha e EUA, entre outros países.
Quando você estiver lendo este texto, é muito provável que o cineasta já tenha gritado “ação”. De hoje a domingo, Dannon capta as imagens e sons de “As Marias”, um documentário sobre suas tias trigêmeas – Maria Etelvina, Maria Leonor e Maria Salvadora. No então estado de Mato Grosso, as irmãs viraram notícia no dia 6 de agosto de 1947, quando nasceram, e, dado o ineditismo da gravidez tripla, conta-se que até o agrônomo Arnaldo Estevão de Figueiredo (1892-1991), o governador da época, foi visitá-las.
Etelvina, Santinha e Duna, como são conhecidas na cidade, originam-se de famílias tradicionais, sendo trinetas de José Francisco Lopes (1811-1868) – o Guia Lopes, da Retirada da Laguna – e de Senhorinha Barbosa Lopes, que morreu em 1913.
A partir das histórias das três irmãs, o diretor pretende abordar os costumes das cidades interioranas da região de fronteira, pois parte desses hábitos tem origem no Paraguai, como a sopa paraguaia, a chipa, o tereré, as guarânias e o chamamé. “Não é só sobre as trigêmeas. É sobre elas e também sobre o que é viver em uma cidade de fronteira”, diz o cineasta.
TIAS E TRADIÇÕES
“Nosso estado tem uma cultura muito rica e com influências diversas, pois faz fronteira com dois países [Paraguai e Bolívia] e divisa com cinco estados [Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Paraná]. As cidades próximas ao Paraguai têm vocabulário, gastronomia e música bem distintos e marcantes que merecem ser estudados e divulgados. Tenho muito respeito e orgulho dessa herança”, comenta o diretor.
Dannon conta que são vários os fatores que o levaram a pensar na realização do documentário. “Porém, a grande inspiração veio das minhas amigas, que conheceram minhas tias em diferentes momentos, e todas elas afirmaram que as trigêmeas dariam um filme, que suas histórias precisavam ser contadas”, afirma.
“Lembro que o historiador Hildebrando Campestrini [1941-2016] dizia que os famosos sempre tinham suas biografias publicadas, mas que era preciso dar voz às pessoas invisíveis, pessoas comuns encontradas nas pequenas cidades. De fato, em minhas andanças pelo interior de MS, especialmente nesses últimos três anos, reencontrei esse Brasil profundo, rico culturalmente mas circunscrito àqueles lugares que parecem ter parado no tempo”, relembra o cineasta.
NO-BUDGET
“Morei de forma permanente no Rio de Janeiro de 2006 a 2020, então, estava um pouco afastado das minhas raízes interioranas. Resgatar a história das minhas tias é também resgatar a cultura e os costumes de uma região próxima à fronteira com o Paraguai e que tem uma identidade muito própria e específica”, fundamenta.
“Além da história intimamente ligada à Guerra da Tríplice Aliança [ou Guerra do Paraguai, de 1864 a 1970], Guia Lopes ainda guarda muitas coisas herdadas do país vizinho, e isso é muito rico e bonito. Por fim, esse projeto também nasceu em virtude do adiamento de alguns projetos de ficção que precisei postergar por falta de recursos financeiros”, diz Dannon, que viabiliza a nova produção seguindo o modelo no-budget (algo como “orçamento zero”), uma piada com low-budget, expressão do inglês que quer dizer baixo orçamento.
Para cobrir as despesas estritamente essenciais com insumos e logística, o diretor está bancando do próprio bolso. Já a equipe de realização do curta engajou-se no projeto pelo esquema colaborativo, na base do “ninguém solta a mão de ninguém”, pelo que mereceriam menção em dobro nos créditos do filme e desta reportagem.
Bianca Machado, residente em Corumbá, assina a produção do curta, que conta com uma equipe bem enxuta e 100% de MS: João Paulo Gonçalves na direção de fotografia, Camila Zavallo na direção de arte e figurinos, Carol Dória como assistente de direção, Biscoito no som direto, mais dois ou três assistentes e Dannon, que, além da direção, escreveu o roteiro (ele prefere chamar de “guia de filmagem”) e está à frente da produção-executiva.
PROCESSO CRIATIVO
“Para esse documentário consegui montar uma equipe incrível e enxuta, que topou fazer o filme na parceria. Algo que conheço bem, pois cinco dos meus seis curtas foram realizados sem patrocínios.
A realidade do cinema no Brasil ainda é essa, infelizmente, mas não podemos deixar de fazer, pois é na prática que a nossa linguagem se desenvolve”, diz o sobrinho das três protagonistas do documentário, sem esconder sua esperança no choque de gestão do governo federal com a retomada do Ministério do Cultura (Minc).
“O aperfeiçoamento da nossa prática cinematográfica ocorre no fazer, nas trocas e nas reflexões que o processo propicia”, aposta Dannon, que, citando Walter Lima Jr., um dos expoentes do cinema novo, volta a falar de seu processo criativo. “É no set que o filme diz para que veio”, diz o realizador, reproduzindo a fala do mestre.
“Senão, você fica muito preso ao roteiro, ao que você quer falar, e você não ouve. É sempre um exercício de escuta. No caso de um documentário, de quem está sendo documentado. No caso da ficção, a escuta dos atores, da história.”
SOBRE AS MARIAS
Mas conta mais das titias, Dannon: “Eu morei na mesma casa que minhas tias Etelvina e Santinha, além da minha avó Fausta e da minha mãe Neide, e nossa relação sempre foi muito divertida e alegre, apesar de todas as dificuldades. Minhas tias são do mesmo signo que eu, leão, e acho que isso também nos aproxima no drama, mas também na comédia, na maneira de rir dos tropeços”.
Conta mais? “Minha tia Duna, a única que se casou, apesar de morar em outro local, também sempre esteve próxima, tanto que dizem que sou o seu sobrinho preferido. Será? [risos]. A verdade é que cada uma elegeu um sobrinho, talvez para distribuir melhor os afetos. Nossa família é muito unida, e isso, sem dúvida alguma, é uma herança da minha avó aquariana, que era agregadora e gostava de reunir a família.” Valeu, Dannon.