Correio B

ANTOLOGIA

Sylvia Cesco reúne em livro os aforismos da coluna Diálogo

Escritora compila pensamentos e versos de 73 autores de MS publicados na coluna Diálogo, de Ester Figueiredo; "Palavras ao Correio" ganha lançamento hoje, às 19h30min, no IHGMS

Marcos Pierry

03/10/2023 - 10h00

“O ser humano pode fugir de tudo e todos, mas nunca de sua própria consciência”. Ao folhear a edição de hoje do Correio B, você vai encontrar essa frase do psiquiatra Augusto Cury no alto da página 3, ocupando uma das seções de Diálogo, coluna assinada por Ester Figueiredo, diretora do Correio do Estado, que o jornal publica há mais de quatro décadas.

Durante três anos, nas edições de sábado, a seção foi preenchida com citações de autores sul-mato-grossenses escolhidas por Sylvia Cesco.

A escritora tomou tanto gosto pela parceria com dona Ester que decidiu transformar a colaboração em livro. “Palavras ao Correio” (Life Editora) ganha lançamento na noite de hoje, às 19h30min, na sede do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul (IHGMS), na Av. Calógeras, nº 3.000, Centro.

Sylvia conta que a ideia da publicação – a oitava a levar sua assinatura – partiu de três situações. “Eu era leitora do Correio do Estado e, acompanhando a coluna Diálogo, da Ester Figueiredo, verificava que ela trazia diariamente um pensamento, uma reflexão de um escritor, poeta, cientista, falecido ou não, brasileiro ou não”, conta a escritora.

“A outra situação é que, desde que me entendo por gente, e lá se vão mais de sete décadas, sempre fui uma pessoa de valorizar nossa gente, nossa terra, nossos valores culturais, divulgando-os cada vez que havia uma oportunidade. E a terceira situação é que sou um ser coletivo, de compartilhamentos. Mas só de coisas produtivas, as ruins, não, que ninguém merece”, diz, com humor, a antologista.

“Assim, tomei a iniciativa de enviar um e-mail para a Ester expondo minha ideia, qual seja, a do Correio do Estado divulgar também nossos escritores e poetas. Ela topou, desde que eu mandasse as frases e as fotos dos mesmos. E seriam publicadas aos sábados. De modo que, de 2018 a 2021, passei a enviar toda semana, não uma, mas três frases da nossa gente para que ela escolhesse uma delas. Houve apenas algumas ausências minhas por conta da minha grave contaminação pela Covid-19”, prossegue.

“Foi um trabalho voluntário e que fiz com muito gosto, para valorizar nossos escritores, pesquisando em seus livros e buscando em suas páginas no Facebook. Tenho um lugar na minha estante só com livros de autores de MS. No fim, por motivos de saúde, os encaminhamentos foram suspensos. Quando saiu o edital do FMIC [Fundo Municipal de Investimentos Culturais] em 2021, organizei esse material publicado em um livro, e a Sectur [Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Campo Grande) aprovou. Foi assim que o livro está aí para ser lançado”, explica.

73 Autores

Raquel Naveira (“Agora, lava-me as mãos. Isso, esfrega a palma até que minha alma não sinta mais culpa de nenhum dos meus atos”), Manoel de Barros (“Nesta hora de escândalo amarelo, os pingos de sol nas folhas cantam hinos de esplendor”), Eva Vilma de Souza (“Amar, verbo transitivo direto, necessitado de ser regular entre os pares e que não se traduz em submissão”) e Rubenio Marcelo (“Um sonho renasce a cada dia… Mas para quem crê na revelação do íntimo, além de si, para o ser infinito…”) são alguns dos 73 autores (re)citados.

Mas também integram a antologia, entre outros nomes, Henrique de Medeiros, Janet Zimmermann, Lucilene Machado, André Alvez, Maria da Glória Sá Rosa, Emmanuel Marinho, Theresa Hilcar, Nena Sarti, Geraldo Ramon Pereira, Ileides Muller, Raquel Anderson, Samuel Medeiros, Abílio Leite de Barros, Genival Mota, Sandra Andrade, Victor Barone, Flora Thomé, Guimarães Rocha, Tânia Souza e a própria Sylvia Cesco.
“A experiência de selecionar minhas próprias frases passou pelo retorno que recebi de algumas pessoas quando eu lia meus poemas já publicados.

O principal critério para a escolha dos trechos foi o da poeticidade. Mesmo sendo uma reflexão, um pensamento, um aforismo, que eles pudessem ser, foneticamente, agradáveis aos nossos ouvidos”, afirma Sylvia, que já foi presidente da União Brasileira de Escritores de Mato Grosso do Sul (UBE-MS).

Pedagogia do ditado

A escritora se coloca entre os que têm como “profissão de fé” a vontade de ver jovens ou adultos “exercerem uma comunicação mais amena, mais elegante, mais carregada de sentimentos com o seu próximo”, conforme relata.

“Não se trata de questões gramaticais. Não me chamam [atenção] nem me marcam os que falam ou escrevem corretamente, mas sem revelar nenhuma emoção em seus textos. O fato de eu ter feito Letras, e com uma das melhores professoras que tivemos na área de língua e literatura, influenciou demais meu modo de escrever, de me utilizar das figuras de linguagens – metáforas, metonímias, sinestesias e outras – para escrever ou falar. Leitura é fundamental, e não podemos restringir ou impor nossos gostos a ninguém”, pondera.

E para a leitora Sylvia Cesco, qual seria a frase mais marcante?

“Todas as frases de todos os poemas de Manoel de Barros me marcam. Todas. Porque são carregadas de poeticidade, que é diferente de poesia. Então, quando eu leio, releio, torno a ler esse nosso querido poeta, vou me detendo em frases, uma a uma, que acabam compondo um poema, que acabam compondo uma obra e outra e mais outra. Manoel é inesgotável”, assegura a autora, que revela ter sido criada com a “pedagogia do ditado”, antes de destilar algumas máximas.

"'Sê como o sândalo que perfuma o machado que o fere’. ‘Muito riso, pouco siso’. ‘Mais vale um pássaro na mão do que dois voando’. ‘Quem ama o feio bonito lhe parece’. Elas permaneceram em nossas memórias, e lá permanecerão", confirma.

Mas não teria a-que-la frase, Sylvia, uma única no topo das preferidas? “Não. Nem as frases lindas de José Saramago me acompanham. Nem dele, nem de outros poetas e escritores maravilhosos. Por um simples motivo: tenho uma péssima memória”, entrega, em meio a um sorriso que contradiz o ditado.

Tradição

“Tradicionalmente, o Correio do Estado sempre divulgou as criações dos nossos artistas, escritores, poetas, enfim, de todos os segmentos. Não poderia ser diferente em relação à associação [UBE-MS] que congrega os poetas, objetivando divulgar o trabalho deles”, afirma Ester Figueiredo sobre o diálogo com Sylvia Cesco na coluna do Correio do B.

A escritora conclui a conversa fazendo poesia e convocando os leitores para mais uma ação entre amigos:

"Cinquenta livros foram enviados na sexta-feira [dia 6] para Dourados, cuja venda será inteiramente revertida para o poeta Emmanuel Marinho, que está passando por sérios problemas financeiros e de saúde. Quem puder fazer a mesma coisa, há de ser, por certo, muito abençoado pelo nosso divino poeta, que escreveu a mais linda de todas as poesias: a vida”.

 

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