“Acredito que essa questão abala psicologicamente qualquer pessoa que tenha empatia pelo próximo, não importa o lado”. Quem fala é o violista Brenner Rozales, de 28 anos, ao comentar o mais recente capítulo dos conflitos no Oriente Médio, deflagrado com a ofensiva do Hamas em 7 de outubro, na região da Faixa de Gaza.
O músico estuda o seu instrumento na Escola de Música Buchmann-Mehta, da Universidade de Tel Aviv, em Israel, e chegou a Campo Grande para passar férias 30 dias antes do início dos ataques.
Seu retorno estava previsto para segunda-feira (23), mas, ante o campo de guerra em que se transformou o país escolhido por ele para consolidar a sua formação, Brenner segue em território brasileiro sem data de regresso para Israel.
Ele sobe ao palco do Teatro do Mundo amanhã, para uma apresentação em duo com o maestro Eduardo Martinelli, ao violão, a partir das 20h. Ingressos: R$ 30 (antecipado) e R$ 40 (na hora). O Teatro do Mundo fica na Rua Barão de Melgaço, nº 177, Centro. Mais informações: (67) 99696-9774.
“Dialogando”, nome dado ao recital desta quinta-feira, marca o encontro dos dois instrumentistas em uma formação rara, para não dizer inédita, a serviço de um repertório de compositores brasileiros. Brenner deseja que seja um “momento de paz” e, apesar de abalado, celebra a dobradinha com o mestre.
“Esse será um dos dias mais incríveis, somando com todos os outros em que estive dividindo palco com o Eduardo Martinelli, desde quando conheci ele [em 2011, nas aulas de música da Fundação Barbosa Rodrigues]”, afirma. “Eu sempre estive certo de que a música salva, a música liberta, te dá opções para enxergar o mundo”, prossegue o músico.
“Assim como temos questões complicadas no Brasil, eu nunca fui questionado como é estudar em um dos países mais violentos do mundo. Vidas e sonhos estão sendo sepultados, eu só tenho a agradecer por ter tido a sorte de estar em Campo Grande com a minha família quando essa situação estourou, mesmo estando no perigo iminente da violência no Brasil”, completa.
Brenner passou os últimos dois anos cursando bacharelado em viola em Tel Aviv, na instituição que, como se presume pelo nome, tem no indiano Zubin Mehta, maestro aclamado em todo o planeta, um dos seus criadores e responsáveis. Ele até já foi regido pelo gênio da batuta.
“Adquiri muita experiência musical e cultural. Enquanto estive lá, eu estava preocupado com a política no Brasil e os rumos que o nosso país pudesse tomar depois das últimas eleições. O Brasil é o lugar em que quero estabelecer meus projetos e trazer todo o conhecimento adquirido desde quando saí de Campo Grande para São Paulo, em 2015”, projeta.
REPERTÓRIO
E o que é a paz para você, Brenner? “A paz é estar rodeado de amigos e da minha família, não importa o lugar. Espero que, em meio a tanto caos no mundo, as pessoas compareçam a esse concerto, que será um ponto de paz e aconchego para os ouvintes, será um momento de reflexão e apreciação”, comenta.
“Espero ver diversidade de pessoas, porque preparamos um repertório bem diverso, que foca na música popular brasileira e que traz diferentes regiões do Brasil para um momento único”, explica Brenner, que nasceu em Três Lagoas.
“O repertório que a gente vai fazer é exclusivamente de música brasileira. Tem Villa-Lobos, Celso Machado e Egberto Gismonti, para citar alguns. E também o Antônio Madureira, que é um compositor do movimento armorial [que teve em Ariano Suassuna o seu mentor, nos anos 1970, e propunha uma singular fusão entre música erudita e popular]. Um repertório bastante variado do ponto de vista da estética musical. E todo ele adaptado e arranjado para essa formação”, afirma Eduardo Martinelli.
“A viola sinfônica normalmente não é um instrumento que tem muitas coisas escritas originalmente para ela como instrumento solo. Então, é um grande desafio também, e a grande novidade é esse repertório com essa formação. Basicamente é um repertório inédito”, detalha.
“Por exemplo, as ‘Bachianas’, do Villa-Lobos, que a gente vai tocar estão longe de ser um repertório inédito, porque já foram interpretadas por várias formações. Mas o diferencial nosso é a adaptação para a formação de violão e viola sinfônica”, diz o maestro.
SOLISTA DE PRIMEIRA
“Na orquestra, por exemplo, os solos sempre ficam a cargo dos violinos, principalmente nos repertórios sinfônicos”, complementa Martinelli, que não economiza nos elogios ao pupilo.
Segundo o maestro, Brenner tem “um trato impecável” com a técnica do instrumento. “Ele é realmente um violista e sua técnica impecável é fruto da construção de anos de dedicação diária, e por várias horas, ao instrumento”, elogia.
“Mas, além disso, ele tem uma versatilidade muito grande com relação ao domínio dos estilos musicais, tanto com a música de concerto como com a linguagem da música popular, atuando como solista. Porque é raro você ver um violista solista, principalmente em música popular, por exemplo, tocando chorinho, tocando jazz”, elogia.
“Então, isso é uma coisa que distingue muito ele. Além de tocar os concertos clássicos, como solista para viola, ele também tem um domínio, uma propriedade muito grande na interpretação da música como um todo”, completa.
Martinelli destaca a velocidade de pensamento de Brenner com relação à interpretação musical.
“Percebo muito isso quando a gente está ensaiando no trabalho de música de câmara. De certo, ele adquiriu isso com o quarteto que teve em São Paulo antes de ir para Israel, o Aporá, um quarteto de muito alto nível [formado ainda por Felipe Bueno e Gabriel Meca nos violinos e Santo Scala no celo]. Além de ter sido também o violista do quarteto da universidade, em Israel”, relata o maestro.
“Isso ocasionou nele uma clareza de pensamento e de raciocínio muito grande com relação à interpretação. Percebo que as respostas, eu tocando com ele, das intenções de interpretação musical, quando é colocado, por exemplo, da minha parte, sem se comunicar verbalmente, sem nada, são de uma percepção muito aguçada. São várias características que esse camarada tem”, desmancha-se o hoje parceiro de Brenner.
“Esse concerto será o primeiro concerto em duo que faço na vida. Se torna ainda mais especial tocando com meu primeiro professor de música e uma das minhas maiores inspirações na música. Tudo será inédito, estamos criando arranjos para nosso concerto, porque não existem arranjos prontos para essa formação”, devolve o violista.