Quais situações definiram teu destino para o canto?
O caminho que me conduziu ao canto lírico foi marcado por experiências transformadoras e por mentores inspiradores. Meu primeiro contato significativo foi no Coral UFMS [Universidade Federal de Mato Grosso do Sul], sob a regência do professor Manoel Rasslan. Participar desse coral me proporcionou uma ampla exposição a diversos repertórios de canções brasileiras e arranjos consagrados para canto coral. À medida que o coral realizava obras de oratórios e missas de música clássica, fui gradualmente introduzida ao repertório vocal lírico.
O maestro Manoel Rasslan percebeu meu potencial vocal e facilitou meu acesso às aulas com a professora Edineide Dias. Esse momento crucial me fez ingressar no curso de licenciatura em Música
na UFMS. Simultaneamente, recebi orientações em canto lírico da talentosa mezzo soprano Cristina Passos, uma experiência que se revelou fundamental para minha jornada artística. Suas aulas diárias não apenas aprimoraram minha técnica, mas também me guiaram na compreensão da minha identidade como artista.
Além de fornecer suporte técnico, ela me instigou a compreender meu papel e me encorajou a buscar oportunidades fora de Campo Grande. O apoio financeiro e incentivo contínuo do maestro Rasslan, assim como as conversas encorajadoras com professores como Evandro Higa e Clarice Maciel, foram cruciais para eu dar o passo significativo de sair da minha cidade natal e buscar aprimoramento em festivais pelo Brasil. Essas pessoas desempenharam papéis fundamentais no meu início na música, moldando meu destino no canto lírico.
Quais as características de uma soprano?
As classificações vocais, no contexto da música vocal operística, têm como base o alcance vocal de cada cantor, indo da nota mais grave à mais aguda que ela alcança com conforto e brilho. Surgem assim as classificações de soprano, mezzo-soprano, contralto, tenor, barítono, baixo-barítono e baixo profundo. Para dar vida aos personagens, os compositores escreviam para as vozes disponíveis na época, o que posteriormente levou à criação de subclassificações.
Essas consideram não apenas o alcance vocal de cada cantor, mas também características como cor, dramaticidade, leveza, brilho e amplitude vocal. Atualmente, eu canto como soprano lírico-dramático, uma subclassificação de soprano que se desenvolve com o tempo de exposição e estudo.
Os sopranos, em geral, cantam mais agudo que as outras vozes. Nas subclassificações, levamos em conta a expansão dessa voz em diferentes regiões da tessitura vocal, elementos avaliados por ouvidos treinados. Também consideramos a região de conforto vocal do cantor, otimizando assim a amplificação da ressonância.
O que pensa da tua voz e da tua carreira no momento atual?
No momento, vejo minha voz e minha carreira como uma jornada em constante evolução. Ingressei no canto lírico aos 25 anos, um pouco mais tarde do que a maioria, o que já trouxe características líricas distintas a minha voz desde o início.
Ingressei no meio profissional com relativa rapidez, o que me motivou a buscar constantemente o aprimoramento técnico e a excelência na interpretação, aspectos essenciais para minha atuação como professora de canto. Acredito que estou no auge técnico desde o início dos meus estudos, resultado de uma busca contínua pela excelência, especialmente em um cenário brasileiro no qual os cantores líricos frequentemente complementam sua renda com aulas de canto.
Nos últimos três anos, me dediquei a duas pós-graduações, uma em Canto e Expressão pela Facec [Faculdade de Ciência e Educação do Caparaó] e outra em Formação Integrada em Voz Artística pelo Centro de Estudos da Voz [CEV], o maior centro de pesquisa em voz da América Latina, sob a liderança da dra. Mara Behlau. Estudar e entender a complexidade do aparelho fonador
e do trato vocal aprimorou significativamente minha técnica.
Qual momento considera como início da carreira?
Foi quando ingressei no curso de bacharelado em Música [concluído em 2013] pela Escola de Música e Artes Cênicas [Emac] da UFG [Universidade Federal de Goiás], em Goiânia. Compreendi a dimensão das frentes que um músico precisa estudar para se tornar profissional. E já no meu primeiro semestre, ingressei profissionalmente no Coro Sinfônico de Goiânia, no qual comecei a receber para cantar.
E um momento de consagração?
Acredito que foi quando ganhei o 14º Concurso Brasileiro de Canto Maria Callas [em 2016]. Momentos de consagração têm mais a ver com a superação de vencer problemas e a pressão de se apresentar em grandes teatros.
Então, meu momento de consagração é quando sou reconhecida pelo meu esforço e também quando aquela pessoa que nunca teve oportunidade de assistir uma ópera ou a um concerto com orquestra me encontra ao fim e diz que nem sabia que ela gostava desse estilo e que está profundamente tocada pela arte. Isso é grandioso!
Poderia destacar uma participação entre tantas óperas de que já tomou parte?
Gostei muito de dar vida à protagonista Mimi de “La Bohème” [em 2015], do consagrado compositor Giacomo Puccini [1858-1924] e, pouco tempo depois, fazer uma antagonista na mesma ópera, a Musetta.
O que mais te encanta na ópera?
A grandiosidade e a complexidade da produção. Cada apresentação é um organismo vivo, uma colaboração incrível de talentos e habilidades.
As composições orquestrais têm o poder de expressar os mais profundos afetos dos personagens, adicionando uma camada única à narrativa.
Participar de uma ópera é entrar em um universo onde somos apenas uma pequena parte de um coletivo extraordinário de pessoas, cada uma desempenhando um papel crucial na contação da história.
Desde o maestro que lidera a orquestra e os cantores, passando pelas equipes de figurino, direção cênica, artistas visuais, figurinistas, balé, diretor de palco, iluminadores, maquinistas e tantos outros profissionais, todos contribuem para criar uma experiência única.
Minha preferência recai principalmente sobre as óperas veristas, que exploram emoções, sentimentos e dramas reais.
Essas produções têm o poder de evocar uma gama incrível de emoções e proporcionar uma conexão única com o público.
Participar desse mundo multifacetado da ópera é uma experiência para além da performance vocal. É uma imersão em um espetáculo completo que transcende o palco e cria uma conexão com o público. Do ponto de vista do espectador, pude também perceber o quão fantástico é sentir a vibração do som e a energia das pessoas que estão ali produzindo aquela obra de arte.
E qual personagem que ainda não fez e que gostaria de fazer?
Cio-Cio-San, em “Madame Butterfly” [de Puccini]. Tenho estudado ela no último ano
e tenho amado cada nuance dessa ingênua gueixa.
E sobre esse último prêmio? O que te representa pessoalmente? Qual a importância desse reconhecimento?
O Prêmio Zaíra de Oliveira, conquistado no Concurso de Canto Lírico Joaquina Lapinha [em novembro de 2023], tem uma relevância única e profunda em minha jornada.
Esse concurso, como ação afirmativa, oferece uma plataforma valiosa para cantores pardos, pretos e indígenas, proporcionando oportunidades de destaque e reconhecimento. Ao receber o Zaíra de Oliveira, nome que remete à primeira cantora negra a alcançar notoriedade na música brasileira no início do século 20, sinto uma conexão histórica e cultural que torna essa conquista ainda mais especial.
Esse tipo de competição coloca à prova não apenas minhas habilidades técnicas, mas também minha capacidade de transmitir emoção e conexão com a audiência. O prêmio é mais do que um reconhecimento externo: é uma validação pessoal do meu comprometimento com a arte do canto. Em um cenário em que
as oportunidades de se apresentar diminuíram consideravelmente durante a pandemia, essa conquista representa uma superação pessoal.
Demonstra que, mesmo diante dos desafios, persistir no estudo e na busca pela excelência é o caminho certo. Além disso, reforça a importância de concursos como o Joaquina Lapinha na promoção da diversidade e na abertura de espaços para artistas que, assim como eu, buscam expressar sua arte e contribuir para o cenário lírico nacional.
O que é preciso para se tornar uma cantora lírica no Brasil?
Tornar-se uma cantora lírica no Brasil demanda comprometimento, estudo intensivo e uma paixão profunda pela música. A jornada apresenta desafios únicos, com observações de que cantores que alcançam destaque internacional muitas vezes contam com suporte financeiro familiar. Embora o caminho seja desafiador, é possível e gratificante para aqueles dispostos a enfrentar obstáculos.
É fundamental ressaltar que o cenário lírico brasileiro exige não apenas habilidades musicais excepcionais, mas também tenacidade para superar desafios financeiros e culturais, tornando a paixão pelo ofício um elemento crucial para sustentar e impulsionar os cantores ao longo dessa jornada desafiadora.
Poderia contar um pouco sobre a tua rotina?
Minha rotina atual envolve alternar entre meu papel como professora e cantora. Ao longo do ano, recebi suporte do meu professor de canto, Juvenal de Moura, e da minha fonoaudióloga, Andreia Cechin. Eles me orientam com exercícios para aprimorar a capacidade da minha voz falada, já que passo em média 20 a 23 horas por semana ministrando aulas.
Essa exposição vocal costumava me deixar exausta, mas graças ao trabalho com minha fonoaudióloga e às orientações técnicas do meu professor de canto, consigo manter uma rotina intensa, estudar meu repertório vocal, realizar apresentações com alta performance vocal e dar aulas aos meus alunos.
O que diferencia o canto lírico do canto popular?
O canto lírico e o canto popular se distinguem em termos de técnica e abordagem. No canto lírico, a projeção da voz através da técnica, dispensa o uso de microfone, sendo adequado para ambientes com boa acústica. Surgindo na época medieval, o canto lírico evoluiu a partir de poesias acompanhadas por uma lira, expandindo-se ao longo da história com o desenvolvimento dos instrumentos musicais e orquestras com o apoio dos tratados de canto desde o século 18.
Em contrapartida, o canto popular é uma expressão mais espontânea na qual, reflete a tessitura natural da voz falada. Nesse estilo, os cantores frequentemente recorrem à amplificação do microfone para uma comunicação direta em diversos contextos, estilos e expressões da música popular.
Quais obras, compositores e intérpretes mais te impressionam?
Tenho uma profunda admiração por diversas obras e compositores. Os noturnos de (Frédéric) Chopin (1810-1849) e as peças impressionistas de (Claude) Debussy (1862-1918) sempre me encantam. Gosto especialmente de obras instrumentais, tanto na música clássica quanto no jazz e na música brasileira. Entre os compositores brasileiros, destaco Villa-Lobos (1887-1959), especialmente suas Bachianas (1932/1945) e o ciclo orquestrado "Floresta do Amazonas" (1958).
Também aprecio muito a expressividade das obras de Camargo Guarnieri (1907-1993), que exploram a riqueza sonora da fauna brasileira. As composições do Barroco Mineiro de Padre José Maurício (Nunes Garcia 1767-1830) têm um efeito tranquilizante em mim. No entanto, o que verdadeiramente me impressiona são as sinfonias de (Gustav) Mahler (1860-1911), com destaque especial para a 8ª Sinfonia (1906).