A temporada de verão pode ser um momento importante para se prestar mais atenção na saúde dos bichos domésticos. Sem atrapalhar o descanso das férias, comum para muitas famílias durante esse período, é possível se organizar e ficar atento às expressões e ao comportamento dos pets. A observação,
a eventual realização de exames e a aplicação de vacinas podem livrar os animais de estimação – bem como seus tutores – de um problema maior no futuro.
O alerta parte de especialistas no assunto, como a médica veterinária Jucimara Costa Pereira, mais conhecida como dra. Juci. “Os transtornos mais comuns em cães são as viroses e as hemoparasitoses”, afirma
a profissional.
Viroses, como indica a palavra, são doenças causadas por vírus, sendo comum, por exemplo, a manifestação de febre e dores no corpo, entre outros sintomas. Por sua vez, as hemoparasitoses são doenças causadas por protozoários, helmintos ou bactérias que atingem os animais por meio da corrente sanguínea.
“Nessa época do ano, quente e úmida, tem uma proliferação muito grande de carrapato, que são os responsáveis pela transmissão das hemoparasitoses, como erliquioses, babesiose, anaplasmose, etc.
E não há vacina para essas hemoparasitoses, tem que fazer o controle do carrapato. Quando houver algum sintoma no animal, como apatia, febre, inapetência e vômito, é necessário fazer os exames específicos para que pegue [no resultado] essas doenças de carrapato”, diz.
“Fora isso, tem as viroses”, reforça a médica veterinária, que ainda aconselha: “A cinomose, por exemplo, é uma doença de inverno que atinge bastante o sistema respiratório.
Só que essas [doenças] têm vacinas [para preveni-las], tá? Então, nesse verãozão de agora, o que mais tem que tomar cuidado é com a infestação de ectoparasitas por causa das hemoparasitoses. E a infestação de pulga também pode acontecer, e ela transmite parasitas intestinais. Sempre que tiver uma manifestação de pulga, você controla a pulga e, logo depois, vermifuga o animal”.
DESIDRATAÇÃO
Esse período mais quente, prossegue dra. Juci, requer muito cuidado com o risco de desidratação. “Por causa do calor, às vezes o animal ingere menos água ou perde mais líquido. E perdendo mais líquido, ele vai entrar em um quadro de desidratação. Essas desidratações graves podem levar até quadros de insuficiência renal. Então, tem que cuidar”, assegura a médica veterinária formada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) em 1993.
FOCINHO CURTO E ACHATADO
“Outra coisa muito importante nesse época do ano são os animais braquicefálicos, aqueles que têm o focinho curto, achatado. Eles respiram cada vez mais rápido para eliminar o calor do corpo, mas vai acontecer o contrário, isso vai aumentar a temperatura corpórea. Aumentada essa temperatura corporal, em função dessa respiração ofegante, o animal, chegando aí a 41°C, 42°C, pode entrar em quadros convulsivos. E isso pode acarretar parada cardíaca e até fazer edema pulmonar agudo. Isso acontece muito nos animaizinhos classificados como braquicefálicos”, esclarece.
SINTOMAS
Animal prostrado pode ser uma infinidade de coisas, indica a profissional especializada em atendimento clínico e cirúrgico de pequenos animais. “Desde uma parasitose, uma febre, uma insuficiência renal e até insuficiência hepática. A prostração pode ser muita, muita coisa mesmo. É um sintoma que, sozinho, a gente não tem muito direcionamento. Pode ser até anemia. Só com o exame para a gente chegar em uma conclusão”, pontua.
A inapetência, ou seja, a falta de apetite, também é um sinal que anuncia diferentes transtornos. Segundo dra. Juci, pode ser um animal com verminose ou com gastrite. “Até uma cadela entrando em cio pode entrar em quadro de inapetência”, relata a médica veterinária. E quanto a outros sintomas comuns, doutora? A fadiga, por exemplo?
“Animais com hemoparasitoses podem estar fadigados. Por quê? O que vai acontecer? Quando o animal tem um parasita, as células sanguíneas são destruídas. Aí ele tem que respirar mais vezes, ou seja, aumenta a frequência respiratória, para que aquela quantidade menor de sangue faça a troca gasosa. Então, uma hemoparasitose pode dar uma fadiga. Mas dor também pode fazer
o animal ficar fadigado”, adverte.
VÔMITO E DIARREIA
“Com vômito e diarreia, o animal pode entrar em quadros de viroses, hemoparasitoses
e parasitas intestinais também. Ou de intoxicação alimentar. Nessa época quente do ano, pode acontecer da ração fermentar também. E quando o animal ingere esse alimento, acaba entrando em um quadro de intoxicação alimentar, levando a vômitos e à diarreia”.
TOSSE E COCEIRA
“A tosse pode ser desde uma pneumonia, uma gripe, um colapso de traqueia, uma alergia e até uma bronquite. E a virose, que [nesse caso] é a cinomose, que é uma das mais graves, pode causar quadros de tosses. Em animais mais velhos, um quadro de tosse pode representar uma cardiomegalia, ou seja, o coração pode estar crescido por insuficiência cardíaca. O órgão cresce e encosta na traqueia, provocando tosse. Por isso, os exames são bem importantes”, afirma.
“Então, em caso de tosse, a primeira coisa que você leva em consideração é a idade do animal. Porque dependendo da idade, pode ser um [animal] cardiopata, [um caso de] uma alergia, uma bronquite. Ou pode ser, dependendo da raça, um colapso de traqueia, como em animais de pequeno porte. Porque a traqueia fica molinha e o animal acaba engasgando, o que provoca tosse. E o mais comum são as pneumonias”, explica a especialista.
E coceira, dra. Juci? “Pode ser fungo, bactéria, alergias e atopias. Então, o cachorro pode entrar em um quadro de fungo, que nessa época do ano, muito úmida, é o mais comum de ocorrer. E tem as sarnas também. O ideal é que, caso estiver coçando, se faça um raspado de pele, para se ter uma primeira posição do que é que está causando essa coceira, para então entrar com o tratamento”, orienta a médica veterinária.
VACINAS
Dra. Juci afirma que a vacinação começa “no filhotinho”, a partir dos 45 dias de vida. “Porque até 40 dias ele tem a imunidade da mãe. Então, o tipo de placenta que a cadela tem não passa a imunidade. A cadela passa a imunidade pelo leite. Até 40, 45 dias, o filhote tem toda a imunidade das doenças da mãe. Quando chega entre 40 e 45 dias, vai diminuindo esse [número de] anticorpos e tem que entrar com as vacinas. A gente tem todas juntas, que são as V8 e as V10”, diz a profissional.
“Essas vacinas têm antídotos contra parvovirose, cinomose, leptospirose, enteroviroses, reoviroses e tudo mais, todas juntas. Fora isso, a gente tem a vacina contra a raiva, que é obrigatória porque é uma zoonose, né? Pois é uma doença que passa dos animais para os seres humanos. A vacina da raiva deve ser feita a partir dos quatro meses de idade. Tanto para o cachorro quanto para
o gato”, alerta a especialista.
“Temos também vacina contra giárdia e gripe. São vacinas menos exigidas porque são doenças que têm cura. O básico, de obrigatório mesmo, é uma V8 ou uma V10 e uma de raiva. Sempre”, frisa dra. Juci, ressaltando ainda que “os gatos podem ter FIV [vírus da imunodeficiência felina, popularmente conhecida como ‘Aids felina’], FeLV [leucemia felina], PIF [peritonite infecciosa felina] e rinotraqueíte [viral felina ou gripe felina]”.
Já o professor e médico veterinário Bruno Alvarenga reforça que tanto a conferência da cobertura vacinal quanto a avaliação clínica e os exames complementares podem antecipar diagnósticos precoces das principais enfermidades que acometem cães e gatos, permitindo tratamento
e controle em fases iniciais.
Alvarenga destaca ainda que, independentemente da idade do animal, são recomendados exames sanguíneos anuais para monitorar a função renal e hepática, além de exames de fezes e urina bem como aferição da pressão arterial. “Para os [animais] idosos, aqueles com mais de 7 anos, soma-se a indicação de ultrassonografia abdominal e cardíaca, essencial para o diagnóstico mais preciso”, diz o veterinário que atua em Brasília (DF).
PASSEIOS
“Uma coisa com que o pessoal tem que tomar muito cuidado nesses dias quentes é com os passeios. Para você sair com o seu cachorro, você tem que [testar] por o pé no chão e aguentar ficar com ele no chão. Porque se queimar o seu pé, vai queimar o pezinho do pet também.
E chega muito cachorrinho aqui [na clínica médica] com as patinhas em carne viva. O passeio tem que ser bem comedido. Tem que ser em uma hora fresca do dia. E se estiver muito quente, melhor nem levar para passear”, aconselha dra. Juci.
SAIBA
Desde dezembro de 2022, Campo Grande conta com a Unidade do Bem-Estar Animal (Ubea), que opera em convênio com a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) para casos de alta complexidade e emergência desde março do ano passado, realizando radiografias, cirurgias ortopédicas, internações e outros serviços de forma gratuita a tutores inscritos no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico).
Iniciativa da prefeitura da capital, a “UPA veterinária”, como a Ubea é popularmente conhecida, está localizada na Rua Rui Barbosa, nº 3.538, Centro. Lá também realiza atendimentos de baixa complexidade, como avaliação clínica, administração de medicamentos injetáveis, vacinação antirrábica, vermifugação, controle
de carrapato e pulgas e ainda encaminhamento para castração dos pets em clínicas credenciadas. Mais informações pelo telefone (67) 2020-1397.