Este ano, Mato Grosso do Sul celebra não apenas seus 47 anos de criação, mas mergulha nas raízes de uma história que remonta a 500 anos. O membro do Instituto Histórico Geográfico de Mato Grosso do Sul (IHGMS) e fundador do Grupo Acaba, Moacir Lacerda, apresenta o projeto MS 500 Anos, uma iniciativa que busca repensar e redesenhar a história do Estado.
Centrado na figura do explorador português Aleixo Garcia, o projeto propõe a divulgação de Mato Grosso do Sul – 500 anos de história. A programação incluirá o lançamento do musical “MS 500 Anos”, ciclo de palestras, o curta-metragem “MS 500 Anos”, debates em festivais de turismo, o clipe “MS 500 Anos”, um concurso literário em escolas estaduais, a publicação de um livro infantil ilustrado e um evento marcante no Parque das Nações, no dia 11 de outubro. O projeto gera polêmica, sobretudo, entre historiadores, por causa dos 24 anos a menos que o aniversário do descobrimento do Brasil, por Pedro Álvares Cabral.
Moacir destaca que o projeto visa proporcionar visibilidade ao Estado, ultrapassando suas divisas e fronteiras, despertando um profundo sentimento de pertencimento na população e divulgando fatos históricos relevantes para impulsionar o desenvolvimento cultural, turístico e social.
Ao Correio B, o arqueólogo e ex-presidente da Sociedade de Arqueologia Brasileira Gilson Rodolfo Martins aborda a questão da idade de Mato Grosso do Sul, lembrando que o topônimo é recente, enquanto a territorialidade remonta a 12.400 anos, de acordo com pesquisas arqueológicas.
“Mato Grosso do Sul é um topônimo, isto é, o nome de um lugar, de um espaço. Já a territorialidade é muito mais antiga. O vestígio mais antigo da presença do homem nesse território chamado de Mato Grosso do Sul, com base nas pesquisas arqueológicas, remonta a pelo menos 12.400 anos”, esclarece o arqueólogo.
Em termos de ocupação humana, Martins destaca vestígios de grupos caçadores-coletores e a transição para sociedades indígenas complexas, como os guaranis, que migraram há mais de 1.800 anos. Ele também menciona a chegada dos colonizadores ibéricos em 1524, liderados por Aleixo Garcia, destacando a diversidade étnica presente em Mato Grosso do Sul.
O pesquisador ressalta a importância de considerar diferentes perspectivas na interpretação da história da região, destacando que, para os antepassados europeus, Mato Grosso do Sul já tem 500 anos em 2024, com base na chegada de Aleixo Garcia.
“O ano de 1524 também é considerado o ano da descoberta do Paraguai, tanto é que eles estão com várias celebrações e consideram também Aleixo Garcia como uma espécie de Pedro Álvares Cabral deles. Então, se a gente também considerar o período ibérico, o território de Mato Grosso do Sul já tem 500 anos. Pela perspectiva histórica dos nossos antepassados europeus, eles chegaram aqui pela primeira vez em 1524, completando 500 anos agora em 2024”, opina o arqueólogo Martins.
Marcelo Garcia Rosa, professor de História, endossa a importância do debate, ressaltando a visão indígena guarani na exploração, contrapondo-se à perspectiva de submissão historicamente atribuída a esses povos durante a colonização missionária.
“Escuto sobre este debate desde minha época na faculdade. Penso que é importante levantar essa questão novamente, até porque mostra a versão da importância indígena guarani nessa exploração, e não a visão de submissão dos mesmos guarani em relação à colonização missionária”, acrescenta o professor.
MS 500 anos de história
O projeto MS 500 Anos, inicialmente focado na vida de Aleixo Garcia, expandiu-se para se tornar uma celebração abrangente. Lacerda enfatiza que Mato Grosso do Sul, com 47 anos de história política, tem 500 anos de uma rica narrativa que influenciou o surgimento de nações na América do Sul.
“O Estado tem 47 anos de história político-administrativa, mas ele tem 500 anos de história. A partir de Mato Grosso do Sul, surgiram todas as nações, praticamente, da América do Sul, porque a partir de Mato Grosso do Sul, vem Paraguai e Bolívia, descendo mais tem Uruguai e Argentina, que foi descoberto alguns anos antes, tem Peru e Chile, então todos eles são os caminhos que passam por Mato Grosso do Sul. Então, o Caminho do Peabiru é uma rota bioceânica que está sendo traçada agora também, de São Paulo até o Chile”, pondera o pesquisador.
O lançamento do projeto, previsto para abril, envolverá debates, palestras e shows musicais, todos bancados com verba pública. Lacerda destaca a realização de atividades em parceria com órgãos governamentais, incluindo a capacitação de professores, a edição de livros sobre Geografia e História e outras iniciativas ao longo do ano.
O objetivo é celebrar os 500 anos de Mato Grosso do Sul como uma rota estratégica que moldou o continente sul-americano.
“Vamos promover debates nas principais cidades e também nos campi universitários sobre os 500 anos de história de Mato Grosso do Sul, consolidando sua identidade e senso de pertencimento”, finaliza o idealizador.
Quem foi Aleixo Garcia?
Aleixo Garcia (Portugal, 14?? – Paraguai, 1525) foi um explorador e conquistador português. Foi o primeiro europeu a explorar as terras brasileiras de Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso do Sul, em 1524, bem como Paraguai, Bolívia e Peru (Império Inca), seguindo o Caminho do Peabiru, com cerca de 2.000 indígenas guarani-carijó.
Aleixo Garcia, patrono da cadeira nº 4 do IHGMS, é reconhecido como o primeiro europeu a explorar as terras brasileiras e países vizinhos, em 1524, liderando uma expedição que deixou um legado marcante na história de Mato Grosso do Sul.
O projeto MS 500 Anos busca não apenas celebrar, mas recontar e honrar essa trajetória, conectando a rica herança cultural do Estado ao longo dos séculos.

