Consagrado desde o seu romance de estreia, “Feliz Ano Velho” (1982), em que narra o acidente que o deixou tetraplégico e o desaparecimento do seu pai, o deputado federal Rubens Beyrodt Paiva, em 1971, durante o regime militar, Marcelo Rubens Paiva vem a Campo Grande, pela primeira vez, para participar do Festival da Juventude.
Autor de outros 16 livros (“Blecaute”, “As Fêmeas”, “Meninos em Fúria”, “O Orangotango Marxista” etc.), além de peças teatrais e roteiros de cinema, o escritor paulistano fala, neste domingo, às 10h30, no Teatro Glauce Rocha, sobre a primeira experiência literária, ao lado do poeta Nycolas Verly (MS).
No bate-papo com o Correio B, ele comenta sobre a nova produção do cineasta Walter Salles, mais uma adaptação de uma obra de sua autoria, “Ainda Estou Aqui” (2015), em que revisita a tragédia familiar, e diz que está emocionado por poder conhecer Mato Grosso do Sul. Confira, a seguir, os principais trechos da conversa
Por que aceitou participar do Festival da Juventude em Campo Grande?
O “Feliz Ano Velho” é o meu primeiro livro e vou falar muito do processo criativo de um primeiro livro. Tenho dado muita aula sobre literatura, tanto na época da pandemia quanto agora, cursos online, cursos presenciais.
Estou um pouco na onda de falar muito do processo literário, do desenvolvimento literário, e eu acho que “Feliz Ano Velho” é um caso bem exemplar de um rapaz que recebeu uma encomenda, uma sugestão do editor, e tocou o projeto para a frente.
Vai ser a primeira vez que eu vou para Mato Grosso [do Sul]. Estou emocionadíssimo. Sempre quis conhecer. Conheço muito bem a história, o ouro que acharam e como o Estado foi importante para a economia brasileira na época do Império e é agora com o agro. Vou adorar conhecer. Vai ser um prazer.
Sessenta anos do golpe militar e o filme a partir do “Ainda Estou Aqui” a caminho. O que esse livro porventura te possibilitou de resgate familiar e pessoal?
É um livro que resgata a importância da mulher nesse combate à ditadura. A gente sempre fala das viúvas, Clarice [Herzog, atualmente com 82 anos, que foi casada com o jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado pelo regime militar em 1975], Eunice [Paiva, advogada e mãe do escritor, falecida aos 86 anos em 2018].
Mas descobrimos que elas são grandes heroínas, porque elas é que ficaram e resistiram. E não só elas, como as mulheres que combateram o regime.
Então, é uma espécie de reconhecimento do valor que a mulher teve na reconstrução democrática. Porque a ditadura violentou, mas ficaram aqueles que criaram os movimentos pelas Diretas Já [1983-1984], a Constituinte [1987-1988], a [Lei da] Anistia [1979] e que estão até hoje na batalha.
O que poderia dizer sobre o filme?
O filme foi dirigido pelo Walter Salles, com a Fernanda Torres e a Fernanda Montenegro fazendo duas fases da vida da minha mãe e o Selton Mello faz o meu pai. Ele está praticamente pronto, mas eu não sei detalhes da produção, porque eu não me envolvo.
Como autor do livro adaptado, o máximo que eu faço é dar umas sugestões sobre o roteiro, ler os tratamentos, falar se o caminho é esse mesmo, se faltam coisas e servir como uma espécie de auxiliar, assim, de criação. Mas zero participação na produção.
Me parece que a conjuntura atual ajuda a “vender” o filme. É, de fato, esse filme tem um valor no lançamento até superior do que nós imaginávamos.
Porque não só no Brasil, como em muitos países, os direitos humanos estão sendo violados, as democracias estão sendo atacadas, regimes autoritários estão se insurgindo contra os opositores.
E a história de uma família que vive a rotina de família feliz, e que, de repente, é cercada e presa e violentada por um grupo armado do governo, do exército, é uma história que está acontecendo até na Palestina se você pensar bem.
Tornou-se uma história universal dessa batalha e luta entre as pessoas que querem viver vidas tranquilas contra um estado que decide o destino das pessoas de acordo com a sua ideologia.
E quanto à presença do Walter Salles na direção?
Eu sou grande fã do trabalho do Walter Salles, sempre fui, desde “Terra Estrangeira” [1995]. Assisti a basicamente todos os filmes dele e confio absolutamente nele, na forma de ele narrar em “Central do Brasil”, toda a delicadeza com que ele trata questões tão humanas, sensíveis.
Acho que é o maior cineasta brasileiro da atualidade em atividade e tenho total confiança de que saia um filme que vai honrar, não só aqueles que lutaram contra a ditadura, mas a própria cultura brasileira, o cinema brasileiro, do qual ele é o grande militante, ativista.
Ajudou a reerguer a Cinemateca [Brasileira, em São Paulo], está sempre patrocinando festivais e sem contar que é uma família bastante militante na área cultural, com o Instituto Moreira Salles, entre outras coisas.
Juventude atual e ditadura brasileira. Gostaria que falasse um pouco sobre essa dobradinha e, eventualmente, sobre o papel da arte e da cultura nesse cotejo.
Não sei o que a juventude brasileira atual pensa sobre. Tenho 64 anos [risos], já faz muito tempo que eu deixo de estar ligado às questões da juventude.
Eu espero que, como o livro, a gente transmita a ela uma dose de história do que aconteceu nesse mundo, em que há tanta mentira e tanta fake news e tantas versões, ou, como eles gostam de falar, tantas narrativas que deturpam o que realmente aconteceu.
Acho que a cultura tem um papel fundamental de estar próxima à verdade, e os meus livros sempre tiveram esse papel, desde “Feliz Ano Velho”, de contar o que aconteceu.
Não sei se esse é o papel da literatura, do cinema, se todos os filmes e todos os livros devem ter essa preocupação, mas, no meu caso, moldou a minha vida profissional.
Não só no cinema, no teatro, na literatura, como até nas redes sociais e nas colunas de jornal que eu escrevo.
Como explicar aos jovens que aquele período de exceção permanece determinante para o que o Brasil é hoje enquanto sociedade e nação?
A melhor forma de explicar aos jovens o que aconteceu é mostrar o que aconteceu. Eu não sei o que tem se ensinado nas escolas. Eu sei que muitas escolas hoje têm receio de tocar nesse assunto.
Existe esse movimento da escola sem partido, o que para mim é uma aberração, já que você tem que falar de temas complexos da nossa tragédia e não pode abrir mão da autocrítica.
Então, a forma de explicar, não só fazer filmes e livros, peças, mas seria fundamental também ter o Museu da Memória, que é o que o Flávio Dino defendeu no ano passado, datas comemorativas, ter o monumento dos mortos e desaparecidos aqui em São Paulo, que todo ano tem manifestações. Enfim, acho que cabe a nós, a sociedade, lembrar, lembrar e lembrar.