“Não tive nem um minuto de dúvida de ir ao show da Madonna. Assim que eu fiquei sabendo, acho que eram 9h, na mesma hora comprei a passagem, porque eu acho que não tem nem como eu não ir”, conta uma fã.
“Pensei que poderiam cancelar, ser só um boato. Não tinha preparado nada, fiquei ali em alerta, esperando a confirmação. Quando o Itaú confirmou e fez parceria com a Azul, isso fez com que eu fosse. Foi a partir daí que decidi ir”, diz outro fã.
O primeiro depoimento é de Jacy Curado e o segundo, de Lucas Silva. Ela é psicóloga e tem 59 anos, ele é jornalista e tem 26 anos. Ambos são de Campo Grande e estão entre os fãs da Capital que estarão nas areias da Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, para curtir o show de encerramento da Celebration Tour, que vem sendo anunciada como o ponto final da exitosa carreira de quatro décadas de Madonna.
Aos 65 anos, a cantora norte-americana deu um susto em seus bilhões de seguidores em 2023, quando uma infecção bacteriana a levou a uma internação hospitalar de cinco dias.
Tal e qual a fênix que sempre demonstrou ser, a Rainha do Pop, como é conhecida, voltou com a corda toda e cheia de pompa para a turnê dos seus 40 anos de estrada, que aporta no Brasil neste sábado, a partir das 21h45min, com transmissão pela Rede Globo, Canal Multishow e Globoplay.
Mas que transmissão que nada. Fã que é fã quer estar lá, vendo de perto a estrela de 300 milhões de discos vendidos e outras marcas (e feitos) impressionantes.
Por meio dos depoimentos da dupla apresentada acima, que foi ouvida pelo Correio B, você acompanha, a seguir, um pouco do que é ser devoto de Madonna Louise Ciccone, nome de batismo da artista que transcendeu a música e quebrou tabus mais de uma vez, tornando-se uma militante social e inspirando seguidas gerações desde os anos 1980.
NA VANGUARDA
“A Madonna é uma desconstrução de uma blond girl. As loiras fatais sempre foram colocadas como quem sofre pelas suas paixões, corta os pulsos, e a Madonna faz uma inversão disso. Ela é, sim, uma ‘blond ambition’, como foi naquela turnê [de 1990], e que se coloca como alguém que é dona de si. Ela é uma pessoa que desafia e que usa do seu corpo, da sua beleza e do seu vigor para se proporcionar o prazer”, diz Jacy Curado.
“Foi a primeira artista que se masturba no palco e ela fala que a masturbação é algo muito importante para ela desde os 19 anos. Isso é muito revolucionário porque significa que eu posso me dar o prazer, que eu sou dona do meu prazer, do meu corpo. E fazer isso publicamente é algo que chocou a sociedade”, fundamenta a psicóloga.
“Então, vejo que ela é a maior expressão do empoderamento. Ela tomou o poder nas suas mãos e, principalmente, em uma época em que ela foi vanguarda. Vanguarda é você estar à frente. Ela traz uma concepção de um feminismo, sempre digo que o feminismo é para a gente ser feliz e estar de boa. É a luta, mas é uma luta também para mim, é pessoal. É político, é coletivo, mas também é pessoal, e acho que ela faz isso de uma forma fantástica, porque ela desafia”, afirma.
“Ela tem família, mas é uma família que ela construiu da forma dela. Ela se relaciona com homens da forma com que ela se sente bem se relacionando com homens, e acho que ninguém se mete muito com ela. Ela é dona de si, e acho que isso é a maior expressão que o feminismo pode trazer, você ser dona de si e você se dar o prazer”, diz a psicóloga.
“A Madonna é um símbolo de luta e de resistência contra o preconceito à população LGBTQIA+ e às mulheres também na indústria da música. Ela estoura nos anos 1980, uma década em que ainda as mulheres estavam com uma baixíssima representatividade no mundo da música. Se fosse avaliar os candidatos que tinham indicação ao Grammy, que tinham destaque ou espaço nas rádios, poucas artistas eram mulheres”, resenha Lucas Silva.
“Ela é uma resistência feminina e, ainda assim, é um símbolo na luta contra o preconceito contra a população LGBTQIA+. Tanto é que o público mais forte dela hoje”, reforça o jornalista.
“A gente olha para ela como uma grande referência. Desde os anos 1980, sempre aceitou a gente da forma como nós somos e sempre levantou a bandeira. Ela nunca se escondeu, por mais que venha de uma época que era bem mais difícil. Uma figura superimportante. A gente tem que ir lá contemplar”, diz Lucas.
“Ela não tem medo, nunca se importou com a opinião da indústria preconceituosa, sempre se impôs. Ela nunca desistiu, sempre foi para o embate, para a luta. Sempre representou”, afirma. “A gente tem essa identidade com ela, de estar sempre à frente. É uma vanguardista da música e também de questões sociais”, reconhece o jornalista.
AS CANÇÕES E ALÉM
“Quero muito que ela cante, e ela vai, porque está no setlist, ‘La Isla Bonita’ [1986], a música que mais gosto, ‘Like a Prayer’ [1989], que é um hino, ‘Crazy for You’ [1985], ‘Hung Up’ [2005], ‘Vogue’ [1990] e a própria ‘Celebration’ [2009]”, conta Lucas.
“Tem algumas que eu acho que ela não vai cantar, ‘Frozen’ [1998], que é muito boa, ‘Don’t Cry for Me Argentina’ [1996], que também gosto. São várias canções que eu espero. Mas só de estar lá, ela pode cantar qualquer coisa que vou estar superfeliz”, desmancha-se o fã.
“Gosto muito das músicas mais antigas”, diz Jacy. “‘Like a Virgin’ [1984] é maravilhosa, é você sempre poder recomeçar, sentir um toque, como ela fala, como se fosse sempre pela primeira vez. Sempre que você se emociona, se apaixona, é como se fosse uma virgem sendo tocada pela primeira vez. Aquela emoção que faz você ver que está viva”, comenta a psicóloga.
“Amo essa e ‘Material Girl’ [1984]. Acho que é também rompendo com essa visão de que ‘não, nós somos ambiciosas’. Ela diz ‘não, se não tem grana, pode beijar bem, pode não sei o quê, mas eu não quero, tem que ter o cash, tem que ter o poder’, não o cash sendo o dinheiro, mas um poder. Hoje, aos 65 anos, ela quer viver até 200 anos. A vó dela viveu até os 100, então ela diz isso”, emenda Jacy.
“Está mostrando que pode, que hoje, conforme suas condições e condicionamentos, mesmo com 65 anos, você está lá linda, plena, supertrazendo ainda coisas novas. É isso que me toca, talvez mais do que as músicas. A forma de ela se colocar no mundo. É inspirador para todas nós mulheres”, afirma.
SOZINHO E ACOMPANHADA
“Quero assistir na areia. Tem amiga vindo de Washington para ir para o show e outras vindo de vários lugares. A gente vai fazer um grupo para ir para o show”, diz a psicóloga, que tem o Rio como sua “segunda cidade” e vai se hospedar na casa de uma dessas amigas.
Ela já acompanhou um show da cantora, em São Paulo, na década de 1990.
“Não dá para fazer um figurino à Madonna porque serão dois milhões de pessoas, então, você não pode ir com bijuterias, correntes, essas coisas que a Madonna gosta. Até gostaria, mas não dá. Mas com certeza vou de preto e algumas coisas que têm mais a ver. De alimentação, acho que só bebida mesmo”, afirma a especialista em comportamento humano, deixando escapar um sorriso.
“Estou recomeçando e a Madonna me inspira a recomeçar”.
Acostumado a viajar para shows, Lucas vai curtir a apresentação de Madonna do jeito que sempre faz, em modo solo.
“Vou sozinho, sem ninguém. Vou no sábado de manhã cedinho e volto no domingo cedinho também. Realmente é um bate e volta. Vou só levar uma mochila e um sonho mesmo. Não pretendo entrar no mar nem fazer rolê de turista, não”, planeja.
“Vou estender a manta na areia e esperar. O show começou? Eu apareço. Acabou, vou embora. Pretendo comprar alguma camiseta dela para eu ter de recordação. Vou com um calçado que possa sujar. É um show na praia, não precisa de tanta elegância não, simples mesmo. Espero que seja um show bem incrível. Quando vou ter a oportunidade de ver a Madonna de novo? E de graça? Não tem como perder. Se não for agora, nunca mais”, avalia o jornalista, que verá um show de sua musa pela primeira vez.