Correio B

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Preconceito, negritude e afrofuturismo

Maria Carol, Diogo Almeida e Romilda Pizani falam sobre três temas relacionados ao feriado de hoje

Marcos Pierry

20/11/2024 - 10h30

A cidade morena é um território negro 
construído a partir de corpos retintos 
e benzido pelas ervas que fizeram 
morada nas mãos da tia Eva. 
Povoada de gente com pele em tons terrosos: 
enegrecer a história é permitir 
que Campo Grande se torne ainda maior.

“O racismo brasileiro é um crime perfeito, Kabengele Munanga expõe, pois há a culpabilização da vítima, alegando que se está vendo coisa onde não tem. Além disso, frequentemente o racismo velado é desconsiderado, e o racismo estrutural é utilizado como forma de não se responsabilizar.

Conceição Evaristo, na construção de sua literatura afro-brasileira, ao criar o termo ‘escrevivências’, dá destaque para as experiências e as violências enfrentadas pelo povo negro. Assim como a literatura tem sido um aparato para a exposição do preconceito racial, a academia tem produzido constantes discussões sobre a racialização, como o que Cida Bento aponta enquanto pacto da branquitude. Um pacto não verbalizado entre pessoas brancas para a manutenção de seus privilégios, excluindo quem destoa desse grupo de iguais, fator que influencia na perpetuação das desigualdades.

Lélia Gonzalez diz que ‘falar do Brasil, antes de tudo, é falar do segundo país com a maior população negra depois da Nigéria. É falar de um país que, apesar das tentativas ao contrário, é culturalmente negro’. Ao reforçar que o Brasil é culturalmente negro, Lélia fala sobre a construção da música, da dança e da linguagem a partir da influência direta dos elementos africanos, salientando que, mesmo com a tentativa de embranquecimento da população negra, há a resistência em manter a história 
e a cultura do povo preto vivo.

Em uma decisão histórica, o Dia da Consciência Negra passa a ser feriado nacional, fazendo com que o Mato Grosso do Sul acate ao feriado somente por intermédio de lei federal, reiterando, assim, a necessidade de um compromisso social em prol do enfrentamento ao racismo e da valorização da ancestralidade negra, seja no 20 de Novembro, seja nos demais dias”.

Maria Carol, 26 anos, nascida em Presidente Prudente (SP) 
e residente em Campo Grande, é psicóloga, escritora e faz pesquisa de mestrado na UFMS sobre o tema “Escrevivência de Mulheres Negras como Ferramenta de Enfrentamento ao Racismo”

“Quando a gente fala em negritude, não tem como não pensar na nossa ancestralidade, nos que vieram antes da gente. 

É muito importante investigarmos sobre a nossa ancestralidade, porque, quando a gente passa a ter esse conhecimento, isso nos abastece para o nosso aqui e agora, o nosso trabalho, para a vida pessoal e para o nosso posicionamento. Negritude é entender e valorizar as nossas origens e, no aqui e agora, trabalhar em prol disso. Não esquecer de onde viemos, das dificuldades que tivemos para chegar até aqui, e trilhar caminhos que tragam outras pessoas com a gente. Pessoas que talvez não tenham o mesmo engajamento ou o mesmo estudo ou as referências que tivemos para ocupar esse espaço que a gente está ocupando. Abrir caminhos como muitos abriram para mim.

Muitos atores pretos e atrizes pretas abriram caminho para que eu pudesse chegar. O que eu defendo e venho pensando nesse momento de protagonismo é ser também espelho de outros atores pretos e atrizes pretas, ser uma referência assim como tenho as minhas referências para que eles possam também seguir abrindo caminhos e a gente possa seguir evoluindo. É uma palavra muito forte: negritude. É potência, é representatividade, é protagonismo, é protagonismo preto o que a gente está vivendo aqui e agora. Se valorizar e tomar conta do que nos pertence. 

Ficamos muito tempo em um lugar de não pertencimento. A gente não se via, não se enxergava na TV, no teatro, no cinema, e tinha a sensação de não pertencer, de não poder, de não poder ocupar esse lugar. Hoje a gente já ocupa esse lugar. Temos muito o que evoluir. Muito, muito, muito ainda. Ainda existem limitações.
Hoje esse espaço nos é dado por nossa capacidade, sim. 

Mas também porque o sistema entendeu que, se não abrir para a gente chegar, eles vão perder. Porque a gente está cada vez mais interessado no que é de verdade, na história verdadeira, e não na história que nos foi contada quando a gente era criança. E a história verdadeira é essa que tentaram apagar em muitos momentos. Fiz uma novela [‘Amor Perfeito’, veiculada pela Globo de março a setembro de 2023] em que eu era um médico. E quando comecei a fazer essa novela, as pessoas falavam “mas um médico preto?! Um médico preto nessa época, década de 1930, 1940? Estão inventando isso’. A gente não inventou nada: foi realizada uma pesquisa, e inclusive em Salvador, em Minas Gerais, tínhamos médicos pretos. E até mais do que hoje em dia”.

Diogo Almeida, 39 anos, nascido no Rio de Janeiro (RJ), 
é psicólogo e escritor e ator desde os 11 anos, esteve em 
Campo Grande no início deste mês integrando o júri oficial 
do Festival Curta Campo Grande – Curta MS

“Sankofa é um símbolo da lembrança da história afro-americana e afro-brasileira que recorda os erros do passado para que eles não sejam cometidos novamente. Ensinaria a possibilidade de voltar no tempo, de retornar às nossas raízes e, desse modo, de realizar o nosso potencial, para assim realmente avançarmos. O afrofuturismo surge entre 1940 e 1960, período em que se inicia a discussão dessa terminologia. Porém, foi em 1994, graças ao crítico cultural Mark Dery, que o termo veio à baila. 

No ensaio ‘Black to the Future’, ele defende que a pessoa negra também tem muito o que falar a respeito da tecnologia e da cultura que estão por vir.

Nas últimas duas décadas, podemos ver a ressignificação da palavra e, portanto, do significado de Sankofa a partir do afrofuturismo. Conseguimos vê-lo a partir de audiovisuais com pessoas negras protagonizando, mostrando o seu talento, seja como atores e atrizes, seja como diretores e roteiristas, seja como jovens oriundos de lugares totalmente improváveis vencendo concursos de química e física. Não podemos nos esquecer de o quanto a Lei Federal nº 10.639/2003 fortalece esse movimento de ampliar horizontes a partir do conhecimento, que também perpassa pelas culturas das religiões de matrizes africanas.

O afrofuturismo também está no bloco afro carnavalesco Ilê Aiyê, de Salvador (BA), que neste ano completou 50 anos de luta e resistência e que surgiu para romper com o racismo. 

Em 1980, ocorreu o primeiro concurso oficial Beleza Negra, organizado pelo Ilê Aiyê, que tem realizado ações que tanto transformam vidas negras quanto a sociedade soteropolitana, no Brasil e no mundo.

Em Campo Grande e em todo o estado de Mato Grosso do Sul, ações afrofuturistas já acontecem há muito tempo. É neste cenário que, em 1985, nasce o Grupo Tez – Trabalho e Estudos Zumbi, pioneira instituição que foi fundada em MS para pautar as questões raciais negras e que tem como eixo principal a educação. 
É importante ressaltar que o autor da Lei Federal nº 10.639/2003, Ben-Hur Ferreira, é um dos fundadores do grupo. Foi a partir do Grupo Tez que tivemos, entre outras ações, o 1º Seminário Quilombolas da Região Centro-Oeste e, do mesmo modo, o primeiro cursinho pré-vestibular para negros e pessoas carentes, proposta que foi usada como modelo em um dos governos locais.

O coletivo Mulheres Negras Raimunda Luzia de Brito desenvolve vários trabalhos voltados para as mulheres negras e é pioneiro em fortalecer o empreendedorismo negro, a partir da Feira Afro. Os coletivos mais recentes – Afro Gueto, Hip Hop, Farofa com Dendê, MNU-CG, Coletivo Geni, Grupo Filhos de Jamaica, Coletivo Beleza Negra, Mercado Sankofa, Projeto Alma Negra, Coletivo Enegrecer, etc. – trazem a conscientização e a oportunidade de sonhar a partir da música, da dança, do teatro, da capoeira e do audiovisual. Todo esse movimento acontece porque esses coletivos trazem na essência a sua história e a importância de tê-la sempre consigo, apresentando às pessoas um mundo de possibilidades – mundo esse que se torna mais e mais possível a cada dia, mesmo que para isso ainda haja muita luta”.

Romilda Pizani, 47 anos, nascida em Campo Grande, é educadora social, apresentadora, atriz e locutora; além de atuar em “Enigmas no Rolê”, primeiro longa de MS dirigido por um negro (Ulísver Silva), vai lançar em 2025 o livro “Olha pra Mim”

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