Em 15 de julho de 2024, o Instituto SOS Pantanal completou uma década e meia de bem-sucedidas práticas de advocacy (termo que define a coalizão de diferentes setores da sociedade civil em torno de uma mesma causa), servindo de inspiração para organizações brasileiras igualmente engajadas na conservação da nossa rica biodiversidade e dos recursos naturais de nossos biomas.
Os desafios e os êxitos dessa trajetória, repleta de aprendizados coletivos, são minuciosamente retratados nas mais de 300 páginas do livro “SOS Pantanal 15 anos”, publicação idealizada pelo núcleo editorial do Documenta Pantanal, outra entidade do setor, que conecta profissionais comprometidos em tornar as fragilidades e as riquezas do Pantanal mais conhecidos do público por meio do apoio à produção de documentários, reportagens, artigos, livros, webséries e campanhas de sensibilização das populações locais e da sociedade civil. O lançamento será hoje, na Livraria da Travessa, em São Paulo.
“A história do Documenta Pantanal se confunde com a trajetória do SOS Pantanal. Nascemos em 2019, quando o instituto completava 10 anos. Desde então, aprendemos muito com eles”, explica Mônica Guimarães, coordenadora-geral do Documenta Pantanal.
“A decisão de recuperar esses 15 anos de história, também uma forma de celebrar a existência de uma iniciativa tão relevante como o SOS Pantanal, foi, para nós, algo natural e justo. Livros como esse refletem nosso compromisso de contribuir para a criação de uma bibliografia especializada sobre o Pantanal”, complementa.
Com edição bilíngue (português e inglês) e repleto de fotos registradas por mais de 20 fotojornalistas, que não só retratam a exuberância do Pantanal como também as ameaças sofridas pelo bioma, o livro é composto de uma narrativa cronologicamente dividida em cinco capítulos, sendo resultado de uma pesquisa de imersão feita pela jornalista Teté Martinho, autora do conteúdo textual, que reconstitui, a partir de depoimentos de criadores, conselheiros e parceiros, desde as origens, o movimento pioneiro da sociedade civil que culminou na criação do SOS Pantanal.
TRAJETÓRIA
Idealizado há mais de duas décadas por um grupo de cientistas, empresários, jornalistas e defensores da questão ambiental, o SOS Pantanal teve como inspiração outro projeto pioneiro, o SOS Mata Atlântica, fundado pelo empresário Roberto Klabin, pelo advogado Fabio Feldmann e por Rodrigo Lara Mesquita, publisher do jornal O Estado de São Paulo. Klabin, que presidiu o SOS Mata Atlântica ao longo de 22 anos, fundou o SOS Pantanal ao lado de outros dois conservacionistas, o geógrafo Mario Mantovani, especialista em recursos hídricos, e o ambientalista Alessandro Menezes, que então atuava na ONG Ecoa – Ecologia e Ação, e se tornou o primeiro diretor-executivo do SOS Pantanal.
PERÍODO HOSTIL
Em 2022, Teté Martinho publicou outro título editado pelo Documenta Pantanal, o livro “Memórias de um Pantanal: Histórias de Homens e Mulheres que Desvendaram a Região do Rio Negro”. Atuando em campo graças a essa experiência prévia, a jornalista testemunhou um dos períodos mais hostis da história recente do bioma, marcado pelos incêndios e pelas secas históricas de 2020 e de 2024, eventos que demandaram respostas emergenciais, como o Programa Brigadas Pantaneiras, uma das mais relevantes frentes de atuação do SOS Pantanal, cuja história é retratada no terceiro capítulo do livro “O Ano Que Mudou Tudo”.
Desenvolvido em parceria com o Prevfogo e o Corpo de Bombeiros dos Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, o projeto de formação de brigadas rurais de combate a incêndios florestais também serviu de inspiração para o desenvolvimento de novas estratégias de diálogo com a sociedade civil em um momento desafiador.
BRIGADAS E ARTISTAS
“Quando cheguei ao SOS Pantanal, em 2019, a instituição já tinha um nome forte e um trabalho extremamente profissional. No entanto, faltava comunicação. Em 2020, quando os incêndios devastaram o bioma e o mundo voltou os olhos para o Pantanal, nossa comunicação já estava mais consolidada. Estivemos em campo registrando o desastre, mobilizando recursos e levando ajuda para quem precisava. Em poucas semanas, saltamos de 13 para cerca de 190 mil seguidores em nossas redes sociais e também construímos um relacionamento sólido com a imprensa”, explica Gustavo Figueirôa, diretor de Comunicação e Engajamento do SOS Pantanal.
“Hoje, somos uma das principais vozes na defesa do bioma, combinando estratégia digital, presença ativa e engajamento real na conservação”, afirma.
Desde 2020, o Programa Brigadas Pantaneiras já qualificou mais de 400 pessoas, que compõem 27 brigadas espalhadas em mais de 600 mil hectares do Pantanal. Expansão financiada, também, por meio de recursos obtidos em parcerias como a campanha Artistas pelo Pantanal, idealizada pelo Documenta Pantanal.
Em tempo recorde, e contando com a colaboração de curadores e galeristas, a iniciativa reuniu 44 obras doadas por 40 artistas contemporâneos brasileiros de projeção internacional, como Adriana Varejão, Paulo Bruscky, Jac Leirner e Vik Muniz, e produziu um leilão em prol da formação das brigadas. No total, foram arrecadados R$ 2 milhões.
LEI DO PANTANAL
No capítulo final, “Desafios e Caminhos”, fica evidente que o alcance de metas ambiciosas como a criação da chamada Lei do Pantanal (que dispõe sobre a proteção dos 9 milhões de hectares do bioma e cujo périplo está dissecado ao longo de 20 páginas) exigirá, cada vez mais, o fortalecimento de colaborações essenciais, como as parcerias desenvolvidas com o Instituto Líbio, o Instituto Homem Pantaneiro, a Chalana Esperança, a Associação Onçafari, o Retiro Ecológico Caiman e o Instituto Arara Azul.
“Nos últimos anos, reforçamos a importância de estabelecer boas parcerias, a transparência e a consistência de nossos posicionamentos e ações. Aprendemos a nos comunicar de maneira mais eficaz, tanto com os pantaneiros quanto com o poder público e com os apoiadores de diversos locais do Brasil e do mundo”, explica Leonardo Gomes, diretor-executivo do SOS Pantanal.
OITO MIL ÁRVORES
“SOS Pantanal 15 Anos” destaca ainda ações mais recentes desenvolvidas pelo Instituto, como o Projeto Águas Que Falam, que prevê o monitoramento constante das águas de rios pantaneiros, além de intervenções para a melhoria da qualidade da água e do saneamento, em uma ação conjunta com as comunidades, e o Projeto Raízes do Pantanal, programa de restauração ecológica iniciado em 2020, na Terra Indígena Cachoeirinha, que envolve moradores de cinco aldeias locais no trabalho de colheita e beneficiamento de sementes, produção de mudas nativas e plantio. Até o fim da apuração do livro, em meados do ano passado, o Raízes do Pantanal já havia recuperado cinco nascentes, protegido 80 hectares de vegetação e plantado quase 8 mil árvores.
“Essa é uma boa amostra dos avanços que conquistamos, principalmente a partir de uma maior presença em campo, onde mergulhamos na realidade do Pantanal, vivemos ao lado das pessoas seus desafios e oferecemos apoio em temas como prevenção e combate a incêndios florestais, gestão do recurso hídrico e restauração de ambientes degradados. A conexão entre o ‘pé no chão’, apresentando soluções práticas através de nossos projetos, com a produção de conhecimento técnico de alto nível e a incidência nas políticas públicas, foi algo que marcou o SOS Pantanal nesses 15 últimos anos e definitivamente alavancou nosso impacto na sociedade”, conclui Gomes.