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Saúde

Fim da punção lombar? Exame de Sangue 10x mais barato detecta Alzheimer com 96% de precisão

Novo exame de sangue testado no Brasil tem 90% de precisão para detectar Alzheimer

Marcos Pierry

06/11/2025 - 10h00

Um novo exame de sangue capaz de detectar o Alzheimer com mais de 90% de precisão foi testado com sucesso no Brasil, marcando um avanço promissor no diagnóstico precoce da doença neurodegenerativa.
Desenvolvido pela empresa norte-americana Quanterix, a novidade foi avaliada por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O novo teste mostrou resultados equivalentes aos de exames invasivos e de alto custo, como o de líquor e o PET-CT cerebral.

O exame de líquor, também chamado de pulsão lombar, consiste na análise do líquido cefalorraquidiano (LCR) que envolve o cérebro e a medula espinhal. Já o PET-CT cerebral é um exame que combina dois tipos de tomografia – por emissão de pósitrons (PET) e a tomografia computadorizada (CT) – para criar imagens detalhadas da estrutura e do funcionamento do cérebro.

Ele é usado para diagnosticar doenças como Alzheimer e Parkinson, epilepsia, tumores cerebrais e infecções.
A pesquisa, publicada na revista científica Molecular Psychiatry, contou com apoio do Instituto Serrapilheira e representa um passo importante no uso de biomarcadores, substâncias detectáveis no sangue que ajudam a identificar alterações cerebrais típicas do Alzheimer.

NOVO PARADIGMA

O estudo avaliou 59 pacientes do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, comparando os resultados do novo teste com os métodos já consagrados. O exame analisa a proteína p-tau217, que está relacionada ao acúmulo de tau (proteína importante para o transporte de nutrientes) no cérebro, uma das principais características da doença.

Os resultados foram impressionantes: a proteína foi capaz de distinguir pacientes com e sem Alzheimer com acurácia entre 94% e 96%, desempenho similar ao dos exames de líquor (considerados o padrão-ouro) e muito superior ao de avaliações clínicas isoladas.

Para o pós PhD em neurociências Fabiano de Abreu Agrela, a descoberta pode transformar a forma como a doença é identificada. “O grande desafio no Alzheimer é o diagnóstico precoce. Quando conseguimos detectar alterações neurodegenerativas antes do comprometimento cognitivo avançar, temos uma chance real de intervir com mais eficácia”, afirma o dr. Fabiano. “Esse tipo de tecnologia pode mudar o paradigma clínico, permitindo monitorar o cérebro como monitoramos outros órgãos do corpo”, destaca o cientista.

CUSTO E EFICÁCIA

Enquanto o exame de líquor exige uma punção lombar e o PET-CT cerebral pode custar até R$ 10 mil, o novo exame de sangue utiliza apenas uma amostra simples de plasma e equipamentos ultra-sensíveis, cerca de dez vezes mais barato. Além do custo, outro diferencial é a inclusão de pacientes brasileiros de baixa escolaridade, um grupo muitas vezes ausente em pesquisas internacionais, mas essencial para validar a eficácia do teste em populações diversas.
Segundo o estudo, a simplicidade do exame pode torná-lo uma alternativa viável para ampliar o acesso ao diagnóstico precoce no Brasil, inclusive em redes públicas de saúde, caso seja aprovado futuramente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

PRÓXIMOS PASSOS

O grupo da UFRGS coordena agora a Iniciativa Brasileira de Biomarcadores para Doenças Neurodegenerativas (IB-BioNeuro), que pretende testar a tecnologia em 3 mil voluntários de dez cidades do Rio Grande do Sul.

Com investimento de aproximadamente R$ 20 milhões, o projeto conta com apoio de instituições como o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o órgão federal de financiamento de estudos e projetos científicos (Finep) e o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). A pesquisa deve durar 24 meses, período necessário para avaliar o desempenho do exame em larga escala e confirmar sua aplicabilidade clínica.

Para o dr. Fabiano de Abreu Agrela, um dos responsáveis pelo desenvolvimento do Relatório Genético GIP (que avalia por meio da análise dos genes características como longevidade e predisposição a doenças, como o Alzheimer), esse é um momento histórico para a neurociência brasileira. “Estamos caminhando para uma era em que o cérebro poderá ser avaliado de forma rápida, segura e acessível, o que representa um salto na saúde pública e na qualidade de vida da população”, sinaliza o neurocientista.

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