Correio B

Moda Correio B+

Milão, moda e o novo imaginário olímpico

Milão e Cortina simbolizam um modelo olímpico que sustenta seu design, sua arquitetura e sua moda: respeito ao território, uso inteligente da herança existente e valorização do detalhe.

Flavia Viana

08/02/2026 - 15h30

A escolha da Itália como sede dos jogos Olímpicos de inverno de 2026, não foi apenas uma decisão logística ou esportiva, foi, sobretudo, uma decisão estética e simbólica. Ao dividir os Jogos entre os Alpes de Cortina d’Ampezzo e Milão, o Comitê Olímpico Internacional reconheceu algo que vai além da neve e das montanhas: o poder cultural da Itália como linguagem global.

Milão e Cortina simbolizam um modelo olímpico que sustenta seu design, sua arquitetura e sua moda: respeito ao território, uso inteligente da herança existente e valorização do detalhe.

Assim como as grandes maisons italianas raramente constroem do zero sem dialogar com o passado, a candidatura apostou em infraestrutura pronta, paisagens consagradas e cidades que já sabem contar histórias. Não por acaso, Milão entra no projeto não como cenário de neve, mas como capital simbólica.

Milão não é apenas uma cidade que produz moda. Ela produz narrativa. É ali que o vestir deixa de ser tendência para se tornar linguagem política, econômica e cultural. Ao sediar cerimônias, eventos midiáticos e o centro nervoso dos Jogos, a cidade reforça a ideia de que, em 2026, os uniformes olímpicos importam tanto quanto os pódios.

Essa centralidade explica a presença marcante de marcas italianas e internacionais nos Jogos, não como patrocinadoras silenciosas, mas como autoras de identidade nacional.

A Itália veste a si mesma com a EA7 Empório Armani, linha esportiva de uma das casas mais emblemáticas do país. O resultado são uniformes minimalistas, em tons claros, quase arquitetônicos. Armani não grita: sugere. E essa contenção estética traduz perfeitamente a imagem que a Itália deseja projetar, sofisticação sem ostentação.

No caso do Brasil, a escolha da Moncler como parceira oficial é reveladora. Nascida nos Alpes e transformada em símbolo de luxo técnico, a marca conecta performance, frio extremo e desejo. Ao vestir o Time Brasil, Moncler não apenas empresta tecnologia térmica, mas insere o país em um imaginário europeu de montanha e excelência, algo impensável décadas atrás.

Brasil - Divulgação

Fora da Itália, outras marcas reforçam essa leitura cultural do vestir olímpico. A Ralph Lauren continua vestindo os Estados Unidos como quem constrói um filme de época: tricôs patrióticos, casacos clássicos e nostalgia como estratégia de poder.

O Canadá, com a Lululemon, aposta no athleisure como identidade nacional contemporânea: funcional, confortável, exportável.

Já a Mongólia talvez ofereça o gesto mais radical, com uniformes assinados pela Goyol Cashmere, inspirados no traje tradicional deel. Em vez de seguir Milão, a Mongólia leva sua própria história até ela, provando que moda olímpica também pode ser resistência cultural.

Se os Jogos fossem sediados em uma cidade sem tradição estética, tudo isso seria ruído. Em Milão, vira mensagem coerente. A cidade legitima o uniforme como objeto cultural, o atleta como corpo narrativo e a moda como instrumento de diplomacia simbólica.

O Comitê Olímpico Internacional escolheu a Itália porque precisava de credibilidade, infraestrutura e estabilidade. Mas escolheu Milão porque precisava de sentido. Em uma era saturada de imagens, a capital da moda oferece algo raro: coerência entre forma e conteúdo.

Ralph Lauren - Divulgação

Os Jogos de Inverno de 2026 mostram que o futuro olímpico passa também por histórias mais bem vestidas. Em Milão, cada costura comunica pertencimento, cada tecido carrega estratégia e cada uniforme se torna um manifesto silencioso.

No fim, a Itália não foi escolhida apenas para sediar os Jogos. Foi escolhida porque sabe, como poucos países, que vestir é uma forma sofisticada de governar o imaginário.

Gabriela Rosa é consultora de imagem e estilo, fala sobre moda e comportamento e é idealizadora da Dolce Far Moda - Divulgação

 

DIÁLOGO

A reeleição de Lula para mais quatro anos de mandato jogou um balde de... Leia na coluna de hoje

Leia a coluna desta quarta-feira (4)

04/11/2026 00h02

8603c51d 751d 4b37 89cb fe2c5ad0fc99 13_2

8603c51d 751d 4b37 89cb fe2c5ad0fc99 13_2

Continue Lendo...

Prevenção

Novembro azul chama atenção para os cuidados com a saúde do homem

Mês também traz a temática do câncer de próstata, os principais sintomas a que eles precisam estar atentos e os desafios que ainda permeiam o autocuidado e a busca por avaliação que atrasam o diagnóstico

03/11/2026 11h00

Médico cita que muitos homens cresceram associando a procura por ajuda à fraqueza e aprendendo a minimizar sintomas, o que pode gerar consequências graves

Médico cita que muitos homens cresceram associando a procura por ajuda à fraqueza e aprendendo a minimizar sintomas, o que pode gerar consequências graves Foto: Arquivo / Reprodução

Continue Lendo...

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).