Correio B

Longevidade

Dra.Mariana Vilela sugere nove hábitos para viver mais e com autonomia

Médica explica que cuidar da força, do coração, do sono, dos ossos e dos vínculos sociais pode ajudar a preservar a independência ao longo do envelhecimento

Mariana Piell

31/08/2026 - 08h30

Quando o assunto é longevidade, é comum pensar em tecnologias avançadas, exames sofisticados, tratamentos personalizados ou suplementos capazes de prometer uma espécie de atalho para envelhecer melhor. Mas, na prática, boa parte das estratégias associadas a uma vida mais longa e saudável está muito mais próxima da rotina do que das soluções consideradas milagrosas.

Para a médica Mariana Vilela, que trabalha com emagrecimento saudável e performance, falar em longevidade significa olhar não apenas para a ausência de doenças, mas para a capacidade do organismo de continuar funcionando bem ao longo dos anos.

Isso envolve preservar força, mobilidade, capacidade cardiorrespiratória, saúde metabólica, qualidade do sono, estrutura óssea e também relações sociais.

“Quando falamos em longevidade, é fácil imaginar suplementos caros, exames sofisticados ou tecnologias capazes de driblar o envelhecimento. Mas a ciência da longevidade tem mostrado algo mais interessante: viver mais não depende apenas de evitar doenças, depende de construir um organismo capaz de continuar funcionando bem enquanto envelhece”, explica.

Segundo ela, não existe uma fórmula capaz de controlar completamente quantos anos uma pessoa vai viver. Genética, ambiente e acontecimentos imprevisíveis continuam influenciando o processo.

No entanto, há comportamentos que podem contribuir para aumentar as chances de chegar às idades mais avançadas com autonomia.

CRIE MÚSCULOS

Um dos pontos destacados pela médica é a importância de construir e preservar massa muscular. O envelhecimento está associado à perda progressiva de massa e, principalmente, de qualidade muscular. Esse processo pode comprometer força, equilíbrio e mobilidade e aumentar a vulnerabilidade a quedas e à perda de independência.

Mas os músculos não têm função apenas relacionada à aparência, eles participam do metabolismo da glicose, contribuem para a capacidade funcional e ajudam o organismo a responder melhor aos desafios físicos impostos pelo envelhecimento.

“Na longevidade, talvez seja mais importante perguntar quanto você consegue levantar do que simplesmente quanto você pesa. Por isso, musculação não deveria ser encarada apenas como exercício: é investimento para a independência futura”, afirma Mariana.

CUIDE DA PRESSÃO

Outro cuidado fundamental envolve os chamados fatores de risco cardiovascular. A hipertensão é conhecida por muitas vezes evoluir sem sintomas claros, enquanto, ao longo dos anos, pode contribuir para danos em órgãos como coração, cérebro e rins.

“O mesmo raciocínio vale para colesterol aterogênico, glicemia e tabagismo: não espere a doença aparecer para começar a tratar o terreno que a produz”, alerta a médica.

O acompanhamento periódico permite identificar alterações e avaliar, de forma individualizada, quando mudanças no estilo de vida ou tratamentos específicos são necessários. Mais do que esperar um diagnóstico, a proposta da medicina preventiva é acompanhar a trajetória desses indicadores.

CUIDE DA SAÚDE BUCAL

Quando se fala em longevidade, a saúde bucal nem sempre aparece entre os primeiros assuntos lembrados. Para Mariana, porém, ela não deveria ser deixada de lado.

Doenças periodontais e problemas relacionados à saúde da boca estão associados a processos inflamatórios e podem coexistir com diferentes condições crônicas. 

“Escovar os dentes, usar fio dental e visitar regularmente o dentista pode parecer banal demais para uma conversa sobre longevidade, mas envelhecer bem também começa pela boca”, destaca.

TENHA O CARDIO EM DIA

Outra dimensão da longevidade está relacionada à capacidade cardiorrespiratória. Mariana chama atenção para a diferença entre praticar uma atividade física exclusivamente para gastar calorias e desenvolver um organismo fisicamente preparado para lidar com esforços.

O condicionamento está relacionado à capacidade do corpo de utilizar oxigênio durante o exercício. Entre os indicadores utilizados para avaliar essa aptidão está o VO máximo, que é considerado um importante marcador de capacidade cardiorrespiratória e está associado a desfechos de saúde.

“Você não precisa virar atleta, mas deveria conseguir subir escadas, caminhar rápido, carregar peso e enfrentar esforços sem que seu organismo entre em colapso. Um corpo preparado tolera melhor o envelhecimento”, explica.

DURMA BEM

Em uma rotina marcada por trabalho, estudos, compromissos e excesso de estímulos, o sono muitas vezes é o primeiro hábito sacrificado. Há quem se acostume a dormir poucas horas e interprete a adaptação como sinal de que o tempo é suficiente.

Para Mariana, essa percepção precisa ser questionada. “A frase ‘eu funciono bem com cinco horas’ geralmente significa apenas que a pessoa se acostumou a funcionar cansada”, afirma.

O sono participa de processos relacionados à regulação hormonal, imunológica, metabólica e cerebral. Por isso, problemas persistentes não devem ser tratados como uma característica inevitável da rotina.
“Dormir é uma função biológica, não tempo desperdiçado”, defende.

CUIDE DOS OSSOS

A saúde óssea é outro componente que merece atenção antes que apareça uma consequência mais grave. A osteoporose pode permanecer silenciosa durante anos e só ser percebida quando ocorre uma fratura por fragilidade.

A prevenção, portanto, não deve começar apenas depois de um episódio desse tipo.

Para as mulheres, a transição para a menopausa merece atenção especial, já que a redução dos níveis de estrogênio pode acelerar a perda de massa óssea. A avaliação, porém, deve considerar o conjunto de fatores de risco, e não apenas um número isolado de exame.

“Saúde óssea se constrói com exercício de força e impacto, quando apropriado, proteína, adequação de cálcio e vitamina D, avaliação dos fatores de risco e tratamento, quando indicado”, diz Mariana.

A prática de atividades físicas, alimentação adequada e acompanhamento individualizado podem fazer parte das estratégias para preservar a estrutura óssea. Quando existem fatores de risco, a avaliação médica é importante para definir a necessidade de exames ou intervenções específicas.

“A fratura não é o início do problema, muitas vezes é sua primeira manifestação”, completa.

CULTIVE RELAÇÕES

Se força, sono, metabolismo e condicionamento são aspectos físicos importantes, a longevidade também tem uma dimensão social. Relações significativas, amizades, pertencimento e propósito podem influenciar a forma como uma pessoa atravessa o processo de envelhecimento.

Isolamento social e solidão estão associados a piores desfechos de saúde, enquanto manter vínculos pode contribuir para a saúde emocional e cognitiva e para a participação ativa na comunidade.

“Tenha pessoas para quem você possa telefonar às 2h”, sugere a médica. “Talvez uma das perguntas mais interessantes de uma consulta de longevidade seja: ‘Quem são as pessoas que fazem parte da sua vida?’”.

SUPLEMENTE, SE NECESSÁRIO

O mercado de longevidade e performance também ampliou a oferta de suplementos e produtos voltados à saúde. Alguns deles podem ter indicações importantes em determinadas situações, mas não devem ser encarados como substitutos dos hábitos básicos.

“Creatina, proteína, vitamina D e outros suplementos podem ter excelentes indicações, mas nenhum deles neutraliza sedentarismo, cigarro, excesso de álcool, obesidade visceral, hipertensão ou anos de sono ruim”, pontua Mariana.

A ordem das prioridades é importante. Antes de procurar uma solução sofisticada, é necessário observar aquilo que tem impacto consistente sobre a saúde cotidiana.

ATUE NA PREVENÇÃO

Por fim, Mariana aponta uma mudança de perspectiva: não esperar o aparecimento de uma doença para começar a prestar atenção à saúde.

A medicina tradicionalmente se concentra na identificação e no tratamento de doenças. A abordagem preventiva acrescenta outra pergunta: qual trajetória o organismo está seguindo?

Pressão arterial, composição corporal, força, condicionamento cardiorrespiratório, perfil lipídico, metabolismo glicêmico e saúde óssea podem ser acompanhados ao longo dos anos.

“O objetivo não deveria ser chegar aos 70 anos e descobrir tudo o que deu errado, mas acompanhar o organismo cedo o suficiente para mudar sua trajetória”, finaliza.

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