Estou lendo o livro “Lacerda: Coração de Tempestade”, de Mário Magalhães, há uma semana. Todas as noites leio de 20 a 30 páginas do volume que fica na minha cabeceira. É o primeiro tomo de uma história instigante que se passa nas décadas de 1914 a 1955. Fala sobre o envolvimento do pai de Lacerda, Maurício, na política brasileira e relata uma série de acontecimentos naquele Brasil cingido por paixões febris, revoltas tenentistas, cabeças quentes e discursos que pareciam incendiar as esquinas.
É inevitável a comparação e a percepção de um paradoxo desconcertante. A tecnologia avançou um século. Cruzamos dados na velocidade da luz, criamos inteligências artificiais capazes de emular a voz humana e carregamos supercomputadores no bolso. No entanto, o nosso comportamento tribal parece ter retrocedido aos tempos mais obscuros da velha República.
O que está acontecendo com as pessoas? Nas últimas semanas, o que se convencionou chamar elegantemente de “guerra de narrativas” transformou o cenário eleitoral em um pântano de ruídos e distorções explícitas. Mas, ao contrário dos comícios históricos que arrastavam multidões pela curiosidade ou pela revolta, o efeito atual na alma do cidadão comum tem sido o anestésico. As pessoas estão cansadas.
A desinformação industrializada não serve apenas para fazer alguém acreditar em uma mentira; sua função mais perversa é fazer com que as pessoas deixem de acreditar em qualquer verdade. Diante do bombardeio, o cérebro desliga para se proteger. Silenciam-se os grupos de mensagens, muda-se o canal de televisão, desvia-se o assunto no almoço de domingo. A apatia que vemos nas ruas não é ausência de civilidade, é exaustão mental.
Cem anos atrás, a mentira política dependia da perna curta do boato de boca em boca. Hoje, ela tem alcance global instantâneo e ganha fã-clube. Não há mais o pudor do desmentido. Se a ficção atende aos interesses da nossa “tribo”, nós a adotamos como brasão.
Maurício, Lacerda e seus contemporâneos sabiam que a política era o palco do conflito humano. Mas eles disputavam o destino do País com palavras, ideias e, sim, muita virulência. O que testemunhamos hoje não é paixão política; é um canibalismo digital que esvazia o debate e adoece quem assiste.
Caminhamos pela modernidade tecnológica com os mesmos instintos primitivos daqueles que viam fantasmas no início do século passado. Talvez o maior desafio desta eleição não seja decidir quem irá governar, mas sim como resgatar a nossa capacidade coletiva de respirar, discernir e, acima de tudo, voltar a confiar.