A moda tem a capacidade de transformar memórias em novas narrativas. Na última sexta-feira, 16 de outubro, tive o prazer de prestigiar, a convite do Amir Slama, seu desfile na 61ª edição da São Paulo Fashion Week, representando o Caderno B+.
Uma experiência que ultrapassou a apresentação de uma coleção e se transformou em uma verdadeira celebração da moda, da memória e da identidade brasileira.
Ao revisitar uma coleção histórica apresentada em Nova York, no ano 2000, o estilista mostrou que a criatividade não depende necessariamente de romper com o passado, mas também de reinterpretá-lo sob novas perspectivas.
Há 26 anos, à frente da Rosa Chá, Slama ajudava a projetar a moda praia brasileira internacionalmente, levando às passarelas uma identidade marcada pela sensualidade, pelas cores e pela exuberância tropical.
Naquela apresentação, Carmen Miranda serviu como inspiração para uma coleção que celebrava a brasilidade. Agora, o estilista recupera essa memória e acrescenta novas referências, especialmente a figura de Iemanjá, símbolo profundamente ligado às águas e ao imaginário cultural brasileiro.
Na passarela, maiôs e biquínis com recortes estratégicos dividiram espaço com babados, rendas, franjas, bordados e aplicações de pedrarias. A cartela de cores percorreu tons vibrantes de vermelho, laranja e amarelo, além de azuis e verdes que remetem à natureza tropical.
Entre os destaques, a releitura de um maiô emblemático usado por Adriana Lima no desfile original, agora apresentado em três tonalidades de pele. Um detalhe que também permite refletir sobre as transformações na maneira como a moda representa a diversidade.
Outro aspecto interessante foi o encontro entre gerações. A presença de modelos como Carol Ribeiro, que participou da apresentação original, reforçou a ideia de continuidade e memória. Slama demonstrou como uma criação pode adquirir novos significados à medida que a sociedade e seus códigos estéticos se transformam.
Desfile Amir Slama - 2026 - DivulgaçãoO desfile também trouxe uma reflexão importante sobre a identidade da moda brasileira. Durante décadas, nossas referências tropicais foram frequentemente associadas a uma visão estereotipada do país.
Hoje, revisitá-las com consciência histórica e liberdade criativa representa uma oportunidade de valorizar a riqueza de nossas manifestações culturais, sem limitar a brasilidade a uma única estética.
Estar presente nessa apresentação foi uma experiência profundamente emocionante. A trilha sonora estava em perfeita sintonia com a proposta do desfile, envolvendo a plateia e dando ainda mais força à narrativa construída na passarela.
A beleza das peças, a riqueza dos detalhes e a sensibilidade de cada criação me emocionaram profundamente. Havia uma harmonia especial entre música, movimento e moda. Foi um verdadeiro espetáculo, daqueles que nos lembram por que a moda também é uma forma de arte.
Entre costuras, memórias e referências culturais, Amir Slama nos lembra que a moda não precisa abandonar sua história para continuar relevante. Afinal, a verdadeira força de uma criação está também na capacidade de atravessar o tempo, dialogar com novas gerações e encontrar diferentes maneiras de contar uma mesma história.