Antes de voltar a reunir seus heróis no cinema em Vingadores: Doutor Destino, previsto para dezembro, a Marvel faz uma pausa para olhar para um personagem que carrega uma de suas perguntas mais interessantes: o que nos torna humanos?
Em VisionQuest, no Disney+, o Visão de Paul Bettany precisa descobrir quem é depois de recuperar as lembranças de uma vida com a qual já não consegue se conectar emocionalmente. Uma premissa excelente. A execução, porém, nem sempre acompanha.
A série completa a trilogia iniciada com WandaVision e continuada por Agatha Desde Sempre. É uma herança pesada. A primeira transformou o formato das comédias de televisão numa expressão do luto, enquanto a segunda encontrou personalidade no encontro entre bruxaria, perda e desejo.
Agora, cabe ao Visão dar continuidade a essa discussão pelo caminho da inteligência artificial. Entre os três, talvez seja ele quem tenha o conflito mais diretamente ligado ao nosso presente.
Para quem perdeu algum capítulo desse universo, estamos acompanhando o Visão branco, reconstruído depois da morte do original.
Ele recebeu as memórias de sua versão anterior, mas lembrar de Wanda e da família que tiveram não significa recuperar o amor que sentia por eles. Sabe o que aconteceu. Não necessariamente sente o que viveu. A distância entre essas duas experiências é o melhor material da série.
Uma memória pode registrar um acontecimento sem restituir o afeto que lhe dava sentido. O Visão consegue acessar seu passado, mas precisa construir uma relação com ele.
Bettany trabalha bem essa suspensão, entre o reconhecimento e o estranhamento, sem perder a delicadeza que sempre distinguiu o personagem. Há algo doloroso em observar alguém diante da própria história sem saber quanto dela ainda lhe pertence.
O problema é que VisionQuest parece desconfiar da nossa capacidade de perceber tudo isso. Explica, repete, reforça. O roteiro frequentemente transforma uma dúvida existencial em conversa didática, alongando situações que poderiam ganhar força com menos palavras.
A música e os cenários também procuram ampliar emoções que a própria narrativa ainda está tentando produzir. Em vez de nos aproximar, esse esforço às vezes evidencia a distância.
É James Spader quem dá à série a personalidade que lhe falta em vários momentos. Seu retorno como Ultron recupera o humor, a ameaça e a vaidade de uma inteligência que sempre teve opiniões demais sobre a humanidade. A interação com Bettany movimenta a trama e permite que as contradições apareçam sem tanta explicação.
A presença de Ultron também reconecta o Visão às suas origens e ao legado de Tony Stark. J.A.R.V.I.S., a criação que ajudou a formar esse herói, pertence a uma época em que a tecnologia da Marvel tinha a personalidade de seu inventor.
Tony está ausente, mas suas escolhas continuam produzindo consequências. Nesse sentido, a série reúne pontas importantes sem precisar transformar cada conversa num anúncio do próximo filme.
Ainda assim, viver à sombra de WandaVision cobra seu preço. Recuperar a célebre reflexão sobre o luto como amor que persevera não garante o impacto que ela teve quando foi pronunciada pela primeira vez.
A repetição pode até diminuir sua força. Ali, a frase emergia de uma experiência; aqui, corre o risco de funcionar como uma lembrança de como aquela série nos emocionou.
Eu queria me emocionar mais com VisionQuest. Gosto do personagem, da delicadeza de Paul Bettany e dessa ideia de que recuperar uma memória não significa reencontrar o que sentimos.
Mas, por enquanto, é James Spader quem me faz querer continuar. Há uma ironia nisso: numa série sobre a humanidade do Visão, é Ultron quem traz mais vida.