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Capa da semana Correio B+

Entrevista exclusiva com o ator Caio Mutai

Ele vai do vampiro em fábula gótica à circulação internacional de "AYÔ"

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Raspar as laterais do cabelo para acrescentar uma camada punkrock a um vampiro foi uma das últimas descobertas de Caio Mutai na construção de Yukun, personagem de “Furnas Fundas: Uma Fábula Gótica Brasileira”. Em cartaz nos cinemas desde 17 de setembro, o longa mostra uma das faces mais transformadas do ator, que, quase simultaneamente, viu outro trabalho atravessar fronteiras: “AYÔ” passou por festivais em Berlim e Nova York, ampliando a circulação internacional da produção.

Os dois projetos colocam Caio diante de registros e experiências bastante diferentes. Se em “Furnas Fundas” a construção de Yukun passou pela busca de um comportamento que transitasse do mais animalesco ao mais humano, além de uma transformação física descoberta também no próprio set, “AYÔ” apresenta outro momento de uma carreira que vem alternando cinema, séries e teatro.

Realizados anteriormente, os trabalhos ainda colocaram o ator diante de uma característica inevitável do audiovisual: o intervalo entre fazer e finalmente ver uma produção chegar ao público.

“Para uma pessoa ansiosa como eu (risos), é bom ocupar a cabeça com novos trabalhos. Acho que o melhor caminho que eu tenho pra poder lidar com essa espera é simplesmente não esperar. Entregar o meu trabalho e esquecer. O restante já não é trabalho meu: como vai lançar, quando, se alguém vai gostar ou não.”

A estratégia, admite, funciona melhor na teoria. “Embora eu acredite em tudo isso aí que falei, funciona mesmo? Mais ou menos (risos). Eu ainda fico extremamente na expectativa e sofro horrores, mas eu juro que tento.”

Em “Furnas Fundas”, Yukun representa uma das imagens mais diferentes que Caio já apresentou ao público. Segundo vilão de sua carreira, o vampiro nasceu de um processo que combinou referências que o ator já carregava, preparação corporal, improvisações e descobertas feitas durante as próprias filmagens.

“O que sempre esteve muito claro no roteiro era a relação dos três vampiros entre si. Como cada um era individualmente, fomos construindo ao longo da preparação. Eu sempre consumi filmes, livros e histórias sobre essa temática. Quando peguei o papel, também reli e revisitei muito material sobre.”

A preparação levou os atores a experimentar extremos antes de encontrar as particularidades de cada personagem.

“Na preparação, fomos de A a Z, do mais animalesco ao mais humano, experimentando no corpo todas as sensações que teríamos no filme, experimentando as cenas em improvisos e descobrindo as particularidades dessas relações e dessas personalidades.”

O ator Caio Mutai é a Capa do Correio B+ desta semana, e em entrevista ao Caderno, ele fala sobre estreias, carreia e planos.

O ator Caio Mutai é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Fabio Audi - Diagramação: Denis Felipe
Por: Flávia Viana

As descobertas continuaram no set, quando figurino, maquiagem, dentes e locação deram outra dimensão aos personagens. Foi também nesse momento que Caio sugeriu uma mudança no visual de Yukun.

“Inclusive visualmente, no primeiro dia de set, onde pude sugerir raspar as laterais do meu cabelo e me deixar com aquele visual punkrock. Yukun ganhou uma outra camada de estranheza.”

A possibilidade de experimentar universos e comportamentos diferentes é um dos aspectos que mais atraem Caio na profissão. Para ele, porém, o desafio não depende necessariamente de o personagem estar muito distante de quem ele é.

“Muitas coisas me divertem nesse ofício, mas acho que depende. Gosto dos desafios. Não posso negar que é realmente divertido poder explorar o que seriam sensações e sentimentos de um vampiro sedento por sangue ou um robô que começa a questionar as próprias diretrizes de sua criação, mas poder explorar os limites de uma psique mais próxima à minha também pode ser extremamente desafiador.”

Enquanto “Furnas Fundas” evidencia essa busca pela transformação, “AYÔ” vive outro tipo de expansão. A passagem por festivais em Berlim e Nova York colocou o projeto diante de novos públicos e profissionais, mas Caio evita transformar essa circulação em previsão sobre os próximos passos da carreira.

“Eu acredito, pautado em experiências próprias, que qualquer trabalho lançado, é trabalho visto. Sempre alguém importante pode te assistir, que vai lembrar de você, que vai te procurar mais pra frente e quem sabe te agraciar com um convite, um teste ou pelo menos uma indicação. Mas não acho que seja mensurável, não.”

A trajetória de Caio também inclui uma atuação pública em torno da representatividade amarela. Ele reconhece que assumir essa discussão pode fazer com que um artista passe a ser procurado repetidamente para falar sobre raça, mesmo quando deseja ser reconhecido por outras dimensões de seu trabalho.

“Com certeza, mas no final das contas penso que vale mais a pena levantar a bandeira do que a inércia. Se eu precisar ser a pessoa que vai ser procurada apenas por isso, sei que a próxima geração talvez não precise. De toda forma, adoraria me aproveitar das batalhas ganhas também.”

O ator afirma já ter enfrentado limitações profissionais relacionadas à sua origem e recorda um episódio ocorrido em 2015, quando havia sido escolhido para seu primeiro papel no audiovisual. O personagem seria um jovem que descobria a paixão pelo balé clássico, mas mudanças posteriores na trama fizeram com que a dança deixasse de fazer parte de sua história. Segundo Caio, ele acabou substituído porque não se encaixaria com os atores escolhidos para viver os pais do personagem.

“Sim, eu perdi meu primeiro papel numa novela exatamente por ser amarelo. E sabe o que é mais interessante? Sei que pelo menos dois personagens foram escolhidos a partir de ‘match’ comigo, mas ninguém foi trocado. Só eu.”

Para 2027, Caio já prepara novos lançamentos no audiovisual e também o retorno aos palcos em uma superprodução de teatro musical, a ser revelada em breve. E, quando pensa nos personagens que ainda gostaria de viver diante das cortinas, e não das câmeras, aparecem nomes como Jean Valjean, de “Les Misérables”, Phantom, de “O Fantasma da Ópera”, e Jesus e Judas, de “Jesus Christ Superstar”.

Já no audiovisual, o ator ainda quer avançar por territórios que experimentou pouco. “Tem muitos gêneros que eu gosto e pude experimentar pouco. Acho que para o cinema/séries eu ainda quero muito poder fazer algum vilão/serial killer/psicótico, como um Hannibal Lecter, Coringa e coisas nesse espectro. Também adoraria explorar mais o território do SCI-FI, Cyberpunk, robôs, IAs, como Blade Runner, THX, Matrix.”

Entre os trabalhos que agora encontram o público e os novos projetos que começam a se desenhar para 2027, Caio prefere não transformar cada lançamento em uma projeção sobre o próximo passo da carreira. “Prefiro celebrar o trabalho já realizado e continuar buscando os próximos. Um bom agente, boas relações e trabalhar bem. Não tem segredo.”

O ator Caio Mutai é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Fabio Audi - Diagramação: Denis Felipe
Por: Flávia Viana

 

Cinema Correio B+

Galinha Pintadinha: do acaso no YouTube à tela grande, 20 anos depois

Criadores Juliano Prado e Marcos Luporini contam como um vídeo rejeitado pela TV virou fenômeno brasileiro e, duas décadas depois, chega ao cinema

03/10/2026 13h00

Galinha Pintadinha: do acaso no YouTube à tela grande, 20 anos depois

Galinha Pintadinha: do acaso no YouTube à tela grande, 20 anos depois Foto: Divulgação

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Há vinte anos, ninguém precisava apenas mandar um link. Era necessário explicar o que aconteceria depois do clique. Quando Juliano Prado e Marcos Luporini terminaram o primeiro vídeo da Galinha Pintadinha, em 2006, queriam apresentá-lo a produtores de televisão.

Juliano não conseguiria estar na reunião em São Paulo e a alternativa seria mandar o material de Campinas por motoboy. Resolveu experimentar uma novidade chamada YouTube. “Você vai clicar aí e vai passar um vídeo direto no seu browser”, lembra ele, rindo hoje da explicação que parecia necessária naquele momento.

O vídeo foi mostrado e não interessou ao canal. Juliano perguntou se já podia apagá-lo e ouviu que sim. Não apagou. O que aconteceu depois transformou aquela pequena desobediência digital em uma das histórias mais improváveis do audiovisual brasileiro. O público encontrou a Galinha antes que a indústria percebesse que havia alguma coisa acontecendo ali.

Vieram novos clipes, uma primeira tiragem de mil DVDs — quantidade que os dois já considerariam uma vitória se conseguissem vender —, distribuição nacional, produtos licenciados, outras plataformas, outros países e gerações inteiras de crianças.

Duas décadas depois, a personagem chega a um território que, de certa maneira, parecia muito mais distante em 2006 do que o próprio YouTube: a tela do cinema. Galinha Pintadinha: O Filme estreia em 1º de outubro celebrando os 20 anos de uma personagem que nasceu digital antes mesmo do termo fazer parte da nossa rotina e chega ao cinema depois de sobreviver não apenas à passagem do tempo, mas a uma transformação completa na maneira como crianças assistem, escolhem e repetem aquilo de que gostam.

Juliano gosta de lembrar que o primeiro vídeo surgiu quase no final da era do VHS, quando o DVD ainda não estava na casa de todo mundo e não existia iPhone. Naquele momento, produzir para a internet não parecia uma estratégia de futuro.

“Era um mercado meio marginal. Não era televisão, não era cinema, não era TV a cabo, não era nada. Só que estava acontecendo por ali”, lembra. E estava mesmo.

A Galinha Pintadinha cresceu até se tornar uma das propriedades infantis brasileiras de maior alcance, atravessando plataformas, idiomas e países sem deixar de permanecer sob o controle de seus criadores.

Juliano Prado e Marcos Luporini continuam à frente da marca por meio da Bromelia Produções, numa trajetória pouco comum em um mercado no qual propriedades de sucesso frequentemente acabam absorvidas por grandes conglomerados. Mais curioso ainda é perceber que a Galinha não precisou permanecer exatamente a mesma para continuar reconhecível.

Marcos conta que nem mesmo o visual hoje imediatamente identificável surgiu pronto. A personagem foi sendo construída por várias mãos, como costuma acontecer na animação. A primeira pessoa a pintá-la de azul foi a artista Ana Paula Indalêncio. As pintinhas, a forma e os demais elementos foram sendo refinados ao longo dos anos.

“Não somos o Maurício de Sousa da Galinha Pintadinha”, diz Marcos, justamente para ressaltar essa construção coletiva. Ainda assim, reconhece nele uma referência inevitável para qualquer pessoa que trabalhe com animação no Brasil. A simplicidade do desenho, as cores chapadas e a facilidade de identificação fazem parte dessa tradição. Hoje bastam uma galinha azul, bolinhas brancas e uma crista vermelha para que uma criança saiba quem está vendo.

Mas talvez a verdadeira força da personagem não esteja apenas no desenho. Está na música. Desde o começo, o projeto se apoiou no cancioneiro popular brasileiro, repertório que Marcos considera uma das grandes riquezas culturais do país. São músicas que chegaram até nós atravessando décadas — algumas, séculos — antes mesmo de dependerem de qualquer registro audiovisual. “Imagina o que é para uma música não ser esquecida sem precisar ser escrita”, diz.

Galinha Pintadinha: do acaso no YouTube à tela grande, 20 anos depois                 Divulgação

A Galinha Pintadinha acabou funcionando como uma nova ponte para esse repertório. Pais e avós reconheceram músicas da própria infância enquanto as crianças passaram a conhecê-las pelo YouTube, pelo DVD, pelo streaming e, agora, pelo cinema. Essa talvez seja uma das razões de a marca ter adquirido algo que seus criadores definem hoje como uma característica transgeracional.

“O avô canta, o tio canta, a música já é isso. E agora a Galinha tem 20 anos”, observa Juliano. Ele já percebe adolescentes e adultos dizendo que querem assistir ao filme, mesmo quando precisam brincar que vão “pegar uma criança emprestada” para justificar a ida ao cinema.

A geração que conheceu os primeiros vídeos cresceu e alguns já levam os filhos. Isso cria para a Galinha Pintadinha uma situação curiosa: seu público principal continua se renovando rapidamente porque crianças pequenas crescem e deixam aquela fase, mas a personagem começa a acumular também a memória afetiva de quem já passou por ela. “Por 20 anos, a gente passou aquela barreira em que acabou a novidade e acabou a Galinha”, diz Juliano.

O cinema talvez seja a maior prova disso. A ideia de fazer um longa não surgiu de repente. O projeto levou cerca de cinco anos, e os criadores dizem que esperaram até sentirem que a marca e eles próprios haviam alcançado maturidade suficiente para enfrentá-lo. Havia ainda um risco que queriam evitar. “A gente não queria fazer um filme oportunista, só pegar e dar uma arremessada nas coisas que já tem”, diz Juliano.

Transformar pequenos clipes musicais em uma narrativa capaz de sustentar pouco mais de uma hora exigia reaprender a trabalhar com personagens que durante anos funcionaram perfeitamente em poucos minutos.

A experiência mais próxima havia sido o teatro, mas sua linguagem também era completamente diferente. O filme precisava ser, de fato, um filme, e precisava manter a atenção de uma geração que nasceu cercada por múltiplas telas, vídeos curtos e escolhas instantâneas.

Talvez por isso seja especialmente simbólico levar a Galinha para uma sala escura onde a experiência volta a ser coletiva. Juliano vê justamente aí um dos encantos do cinema para crianças: elas estão diante de uma única história, em um espaço concebido para a imersão e cercadas por outras pessoas vivendo a mesma experiência.

Visualmente, a mudança também é grande. A personagem deixa o universo essencialmente 2D e chega ao longa em animação 3D. Marcos admite que o processo traz limitações completamente diferentes. Em 2D, se é necessário um castelo, desenha-se um castelo.

No 3D, é preciso construí-lo: modelagem, textura, detalhes, luz. Ainda assim, considera essa transposição um dos grandes méritos do filme. “Você olha e vê o personagem 2D ali em 3D, com textura, tudo. Acho que é um dos trunfos do projeto.”

A equipe evitou, porém, uma estética que aproximasse demais o filme de um videogame. Juliano explica que buscaram uma linguagem que também dialoga com o stop motion, inclusive na maneira como os personagens se movimentam e são enquadrados. A escolha faz parte de uma decisão maior: encontrar uma identidade própria em vez de tentar competir visualmente com aquilo que os grandes estúdios internacionais fazem.

Marcos é direto sobre isso. Para ele, entrar numa disputa para fazer algo simplesmente parecido com uma grande produção da Pixar não faria sentido. “É uma luta muito desigual. Não é inteligente. Então vamos pelo nosso caminho.”

E o caminho escolhido também aparece na história. No longa, a Galinha Pintadinha e o Galo Carijó esperam o nascimento de seu primeiro filho. Uma troca de ovos faz o Pintinho Amarelinho acabar no ninho do Gavião, enquanto outro filhote chega à família da Galinha.

Antes de chegar a essa ideia, muita coisa foi considerada. Uma das possibilidades era usar uma criança que atravessaria um portal para entrar no universo da personagem. O problema, segundo Marcos, era que naquele momento o cinema parecia viver “um surto de portais”. Descartaram.

A inspiração para a troca dos ovos veio de um lugar surpreendentemente adulto. Marcos se lembrava de reportagens sobre bebês trocados em maternidades e da pergunta que sempre lhe vinha ao assistir àquelas histórias: como duas famílias voltavam a viver normalmente depois de criar, durante algum tempo, o filho uma da outra? “Você está ligado para sempre com aquela criança. Não tem mais jeito. E tem outra família que cuidou do seu filho.”

Dentro de uma aventura infantil, essa premissa permitiu falar de diferenças, aceitação, cuidado e pertencimento sem transformar o filme em uma aula. “Dá para falar de diferença, dá para falar de aceitação, dá para falar de várias coisas”, explica Marcos.

Juliano destaca outra preocupação: manter a própria Galinha no centro da ação. Pode parecer óbvio num filme que leva o nome dela, mas não é tão simples quando existe um universo cheio de outros personagens. Para os criadores, era importante que ela não fosse apenas alguém cercada por personagens que resolvessem os problemas em seu lugar. É a maternidade que a coloca em movimento e, ao longo da aventura, também a transforma.

Há humor, música e personagens familiares, mas existe uma camada emocional que conversa de maneira diferente com os adultos que acompanham as crianças. Para quem viveu recentemente o nascimento de um filho, observa Juliano, algumas dessas emoções estarão especialmente próximas.

O longa chega ainda num momento quase perfeitamente coreografado. Ao mesmo tempo em que a Galinha Pintadinha completa 20 anos e estreia no cinema, uma área temática dedicada à personagem acaba de ser inaugurada no Beto Carrero World. São projetos independentes, desenvolvidos durante quatro ou cinco anos, que acabaram chegando ao público praticamente juntos. “Se a gente tivesse contratado a NASA, talvez não desse tão certo”, brinca Marcos.

Ele diz que, neste momento, prefere pensar no filme como celebração. Já existe interesse do mercado em novas possibilidades para esse universo visual, inclusive uma eventual série, mas os criadores parecem menos interessados em anunciar os próximos 20 anos do que em desfrutar os primeiros. “Agora a gente está pensando mais nas férias mesmo. Celebrar e tirar férias.”

Talvez tenham direito. Afinal, houve um tempo em que o sonho era vender mil DVDs. Agora, Juliano e Marcos chegam a uma sala de cinema e encontram crianças, adolescentes e adultos diante de uma galinha azul que, por muito pouco, poderia ter desaparecido quando alguém disse que aquele vídeo já podia ser apagado.

No fim da entrevista, pergunto a Marcos se, depois de ouvir as mesmas músicas durante duas décadas, ainda é possível escutá-las realmente como música ou se o “pó pó pó” já se instalou definitivamente em alguma parte do cérebro. Ele lembra da sessão recente, quando as canções tocavam enquanto o público entrava na sala. “Me traz um prazer imenso ouvir as músicas”, responde. “Eu não consigo enjoar delas.”

Vinte anos depois, talvez essa seja uma das explicações mais simples para tudo: eles ainda gostam da Galinha. E o público também.

crônica

Tudo como era antes só que pior

03/10/2026 08h15

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Estou lendo o livro “Lacerda: Coração de Tempestade”, de Mário Magalhães, há uma semana. Todas as noites leio de 20 a 30 páginas do volume que fica na minha cabeceira. É o primeiro tomo de uma história instigante que se passa nas décadas de 1914 a 1955. Fala sobre o envolvimento do pai de Lacerda, Maurício, na política brasileira e relata uma série de acontecimentos naquele Brasil cingido por paixões febris, revoltas tenentistas, cabeças quentes e discursos que pareciam incendiar as esquinas.

É inevitável a comparação e a percepção de um paradoxo desconcertante. A tecnologia avançou um século. Cruzamos dados na velocidade da luz, criamos inteligências artificiais capazes de emular a voz humana e carregamos supercomputadores no bolso. No entanto, o nosso comportamento tribal parece ter retrocedido aos tempos mais obscuros da velha República.

O que está acontecendo com as pessoas? Nas últimas semanas, o que se convencionou chamar elegantemente de “guerra de narrativas” transformou o cenário eleitoral em um pântano de ruídos e distorções explícitas. Mas, ao contrário dos comícios históricos que arrastavam multidões pela curiosidade ou pela revolta, o efeito atual na alma do cidadão comum tem sido o anestésico. As pessoas estão cansadas.

A desinformação industrializada não serve apenas para fazer alguém acreditar em uma mentira; sua função mais perversa é fazer com que as pessoas deixem de acreditar em qualquer verdade. Diante do bombardeio, o cérebro desliga para se proteger. Silenciam-se os grupos de mensagens, muda-se o canal de televisão, desvia-se o assunto no almoço de domingo. A apatia que vemos nas ruas não é ausência de civilidade, é exaustão mental.

Cem anos atrás, a mentira política dependia da perna curta do boato de boca em boca. Hoje, ela tem alcance global instantâneo e ganha fã-clube. Não há mais o pudor do desmentido. Se a ficção atende aos interesses da nossa “tribo”, nós a adotamos como brasão.

Maurício, Lacerda e seus contemporâneos sabiam que a política era o palco do conflito humano. Mas eles disputavam o destino do País com palavras, ideias e, sim, muita virulência. O que testemunhamos hoje não é paixão política; é um canibalismo digital que esvazia o debate e adoece quem assiste.

Caminhamos pela modernidade tecnológica com os mesmos instintos primitivos daqueles que viam fantasmas no início do século passado. Talvez o maior desafio desta eleição não seja decidir quem irá governar, mas sim como resgatar a nossa capacidade coletiva de respirar, discernir e, acima de tudo, voltar a confiar.

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