Correio B
CORREIO B

Ícone do blues em MS, Zé Pretim <br>conta história de superação

Ícone do blues em MS, Zé Pretim <br>conta história de superação

JONES MÁRIO

19/01/2017 16:58

 

José Geraldo Rodrigues, nascido em 16 de maio de 1954, em Inhapim-MG. Pelo menos é o que consta na carteira de identidade de Zé Pretim, músico que fez nome em Mato Grosso do Sul adaptando clássicos da música brasileira e regional à pegada da guitarra do blues e interpretados por sua voz rouca. Depois de um período sabático, forçado pelo tratamento contra dependência química, ele voltou aos palcos no fim de 2016 e consolidou o retorno com uma apresentação no projeto Som da Concha, domingo passado. Revigorado, o mineiro de 62 anos está de baterias carregadas para uma nova fase da carreira.

Zé Pretim recebeu a reportagem de chapéu-panamá, óculos de sol, camisa em mangas e listrada de azul e branco, jeans escuros e sapatos marrom. Tinha barba feita, passos lentos e um tanto trôpegos. A conversa se desenrolou na casa do também músico Luis Henrique Ávilla, hoje uma espécie de tutor do bluesman. O amigo foi fundamental antes, durante e depois do período de um ano e dois meses do processo de desintoxicação de Zé Pretim, inclusive, responsabilizando-se por sua estadia no Centro de Apoio a Dependentes em Recuperação Integrada (Cadri), que fica na Capital.

Quem viu Zé Pretim sob o palco da Concha Acústica Helena Meirelles, há cinco dias, não imagina que, antes de 2015, o guitarrista vivia o momento mais delicado de sua vida. “Eu quis atear fogo na minha casa comigo dentro. Estava fácil. Rodeado de roupas para todos os lados, era só riscar um fósforo ou deixar o cigarro cair”, revela. Mesmo corroído pelo consumo cavalar de álcool e drogas, um rosto familiar veio à mente e o impediu. “Pensei no meu filho”. Hoje com 19 anos, seu único descendente mora com a ex-esposa, em Rondonópolis-MT. Ela veio para Campo Grande ver o último show do bluesman, mas o filho não conseguiu por causa de compromissos profissionais.

Foram Luis Ávilla e outros parceiros que reuniram forças e dinheiro para ajudar Zé Pretim a se levantar. Não em vão. Dos 22 homens que o músico encontrou no Cadri quando foi internado, em agosto de 2015, somente ele conseguiu cumprir todos os 12 passos até o fim do tratamento. “Sempre que ia visitar o Zé eu postava no Facebook, perguntando se alguém tinha alguma mensagem para ele. E choviam comentários, mais de 100, e de toda a parte do Brasil. Isso foi fundamental para a recuperação dele, pois mostrava o quanto ele é querido”, explica o amigo.

ESPIRITUALIDADE 

No Cadri, Zé Pretim tinha uma rotina baseada na laborterapia. “Acordava bem cedo, seis da manhã, e tinha que rastelar o terreno, limpar o chiqueiro dos porcos”, diz. Agora, em sua nova casa, no Bairro Amambaí, ele mantém o hábito de se levantar nas primeiras horas de sol e faz visitas regulares a centros de recuperação de dependentes químicos. Aos sábados, costuma dar uma canja no Sarau da Madá, no bar Porteira’s, mas tem evitado a noite para se esquivar dos copos e garrafas.

O mineiro também ingressou na Igreja Batista do bairro em que reside, onde toca e canta na banda do templo. “Vou até lançar um disco com versões de hinos em blues”, projeta. As faixas já estão gravadas, mas a alcunha Zé Pretim terá de dar lugar ao nome de batismo, Geraldo, no encarte do novo trabalho. “É uma regra deles, de evitar apelido”, entende.

Sua espiritualidade ainda incidiu no repertório das apresentações, que, segundo ele, sempre terão pelo menos três hinos de louvor a partir de agora. Nada que tire o espaço de suas já tradicionais versões de “Chico Mineiro”, “Rio de Lágrimas”, “Asa Branca” e “Trem do Pantanal” – obrigatórias no setlist dos shows de Zé Pretim.

Para 2017, o mineiro de Campo Grande quer plugar sua guitarra onde, por mais injusto que pareça, ainda não plugou: no Festival América do Sul, em Corumbá. “Tanta gente pior do que eu já passou por lá, porque eu ainda não?”, brinca. Compromisso firmado ele já tem em Bonito, no Festival de Inverno, do qual Luis Ávilla é um dos produtores. O músico deve retornar também ao Sesc Morada dos Baís, onde fez, em dezembro passado, seu primeiro show pós-desintoxicação. Outra novidade é a produção e lançamento de um DVD, gravado em sua apresentação no Som da Concha.

Limpo, Zé Pretim voltou para provar que não precisa exagerar na boemia para fazer blues autêntico e de qualidade. “Eu estava sendo covarde com a vida. Agora, depois de tocar para tanta gente, vi que estava com saudade. E, olha, falaram que meu show na Morada bateu recorde de público, hein”, celebra.