Leandro Modé (AE)
Pela primeira vez desde que o Brasil voltou a realizar eleições diretas para a Presidência da República, o mercado financeiro passou incólume por uma campanha Nem Dilma Rousseff (PT) nem José Serra (PSDB), os dois candidatos favoritos desde o início do processo, assustaram os investidores - tanto brasileiros quanto internacionais.
Do começo do ano até sexta-feira, o Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) apresentava valorização de 2,4%, a 70 229 pontos. Segundo especialistas, o desempenho só não foi melhor por causa das tensões provocadas pela crise da Grécia durante grande parte do primeiro semestre e da capitalização da Petrobras, que derrubou os preços das ações da estatal.
Outro importante termômetro do humor dos investidores, o dólar acumulava, até sexta-feira, queda de 3,7%, a R$ 1,679. “A eleição foi um não-evento”, sintetiza a principal executiva da Fator Administração de Recursos, Roseli Machado, recorrendo a uma expressão comum no mercado para classificar um fato desimportante para os investidores.
A explicação para a calmaria inédita passa pela certeza de que os chamados pilares macroeconômicos serão mantidos no próximo governo: metas de inflação, câmbio flutuante e superávits fiscais que garantam a redução da dívida pública no médio e longo prazos. Para economistas, esse tripé é o grande responsável pelo crescimento com estabilidade nos últimos anos.
“O Brasil está com a inflação na meta nos últimos sete anos, as expectativas de inflação para os próximos anos estão ancoradas, as reservas superam US$ 270 bilhões, a relação dívida pública líquida sobre o PIB (Produto Interno Bruto) está cadente e o crédito está subindo. Portanto, temos uma economia estabilizada”, disse o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles.
Para o estrategista-chefe do banco WestLB no Brasil, Roberto Padovani, o Brasil virou “um país normal”. O presidente do Deutsche Bank no Brasil, Bernardo Parnes, completa: “No geral, o investidor avalia que o Brasil adquiriu um nível de maturidade diferenciado.”
Na visão dos profissionais, nem mesmo em 2006 o clima era tão tranquilo. “Hoje a situação econômica do País é mais consolidada do que há quatro anos”, afirma o diretor executivo da NGO Corretora de Câmbio, Sidnei Nehme. “Além do mais, houve uma diferença muito importante, que foi a maneira como o Brasil enfrentou a crise de 2008, saindo mais forte do que entrou. Isto deu confiança aos agentes econômicos”, reforça Meirelles.
Outro profissional, que pede para não ser identificado, lembra ainda que, em 2006, o País vivia o rescaldo do escândalo do mensalão. Segundo ele, havia dúvidas sobre a força do presidente Lula em um segundo mandato.
Na medida em que o País define o que se chama tecnicamente de regime de política econômica, explica Padovani, as eleições passam a ser um evento comum. Ele compara com o que costuma ocorrer nos EUA. Lá, diz, o mercado financeiro não fica nervoso nem quando há grandes polêmicas eleitorais. O economista cita como exemplo a primeira eleição de George W. Bush, no ano 2000, definida após acusações de fraude em alguns Estados.
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