Depois do almoço, os funcionários da Carvalho recarregam as baterias na mesa de sinuca, ou jogando pingue-pongue na sala de diversões. A cena é comum em empresas de tecnologia, onde as mentes criativas precisam de distração entre um projeto e outro, mas a Carvalho constrói casas para a classe média, em Campo Grande. A jogada é para segurar funcionários, antes que o concorrente os leve. A falta de gente na construção civil elevou salários em até 50% e, se o processo de qualificação não for mais rápido, pode levar a um apagão de mão de obra.
"O Estado vai parar se não houver uma medida urgente de capacitação, a situação só vai piorar", avisa o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon-MS), Amarildo Melo.
Foram gerados 2,8 mil empregos até outubro, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o melhor resultado da década. Neste ano, a criação de vagas tem variação positiva de 12%. Tanta oferta de trabalho gerou um déficit de 6 mil profissionais, nas contas da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB-MS). Só em Campo Grande são 2 mil. A situação é inédita porque a construção nunca foi um forte de Mato Grosso do Sul, mas disparou com o crescimento econômico e a melhora do nível de vida.
As usinas sucroalcooleiras e a chegada das construtoras de casas e apartamentos, impulsionadas pelo "Minha Casa, Minha Vida", deram musculatura ao segmento, que andava mais morno do que o normal.
Quando o administrador de obras Rodrigo Silvestre procurou 60 pedreiros na Capital, achou três. "Falta gente e falta gente qualificada, é horrível, muito difícil encontrar mão de obra", reclama. Para piorar, o setor é ainda pouco atraente, e a mobilidade é grande. Uma empresa de loteamento da Capital ofereceu churrasco a quem respondesse aos anúncios de vagas que publicou no jornal, sempre ao final de cada fase da obra.
Além das vantagens, os salários engordaram. "Hoje tem uma guerra entre as empresas por funcionários. Elas acabam dando benefícios, como bônus de produtividade, almoço e café para manter a equipe e acabar a obra no prazo", conta Fritas, representante dos trabalhadores.
Oficiais (pedreiros, marceneiros, eletricistas etc), recebem até R$ 1.023, 41% acima do piso estabelecido em convenção da categoria (R$ 723), mas, na média, faturam R$ 850, segundo o diretor da CGTB, Samuel de Freitas. Para serventes, o máximo pago é R$ 800, 50% superior ao piso de R$ 532; a média é de R$ 750.
Deixar o local de trabalho por outro um pouco melhor é normal. "Se o cara está na obra e recebe convite para ser porteiro de prédio, ele vai, porque é um trabalho duro, braçal", avalia o presidente do Sinduscon. Ele defende uma "política de resgate" da profissão e elevação dos preços pagos pelos governos em obras públicas. "Com o que o governo paga, não dá para remunerar o operário como deve ser", afirma Melo.