"Minha escola foi o carnaval". A declaração do aderecista Luís Carlos dos Santos, 40 anos, da escola de samba paulistana Leandro de Itaquera, do grupo de acesso, exemplifica o que ocorre com muitos trabalhadores envolvidos com a festa: o ofício carnavalesco se aprende fazendo. "Antes era pintor de parede, comecei a costurar no carnaval. A gente aprende com quem já fazia antes", relatou. Hoje, o aderecista coordena uma equipe de quatro pessoas que decoram carros alegóricos e fantasias de duas agremiações de São Paulo. "O dinheiro que a gente ganha aqui é melhor", justifica. A história de Luís Carlos com a festa começou há 15 anos na Unidos de Santa Bárbara, no Itaim Paulista, na zona leste da capital. Convidado por um amigo, ele começou a trabalhar no barracão da escola do grupo de acesso e, com o tempo, foi conquistando espaço e tornando-se referência no trabalho com adereços. "Depois vim para Leandro, que é minha escola do coração, mas o carnaval é também uma questão profissional. Por isso, a gente trabalha também com a [Acadêmicos do] Tucuruvi, que está no grupo especial", explicou.
Rodrigo Catete, carnavalesco da Leandro de Itaquera, explica que a profissionalização é uma das principais características do carnaval feito atualmente. "Hoje a maior parte do trabalho é remunerado. A gente não tem mais aquilo que existia antigamente de a comunidade vir, ajudar, são bem poucos", relata. Ele avalia que isso, apesar de trazer perdas, como o distanciamento com a comunidade, faz parte do "processo de evolução do carnaval", destaca. "A gente tem que mostrar um espetáculo cada vez maior e melhor. Tem que mostrar um trabalho qualificado. Antes tinha a coisa da folia do carnaval. Perdeu-se um pouco disso. Hoje é competitivo, tem o vínculo com as redes de televisão, com os patrocinadores. Se não for assim, você não consegue se manter no circuito. Você tenta contratar os melhores profissionais de cada área", declarou. Este ano, a Leandro de Itaquera traz o tema da resistência negra para a avenida.
O carnavalesco destaca, por outro lado, que algumas pessoas da própria comunidade entenderam esse processo e se capacitaram para assumir a demanda do carnaval. "Há famílias que viram o carnaval como forma de ganhar dinheiro extra nessa época do ano. Elas pegam uma ala pra fazer e fazem dentro de casa. Elas aprenderam a costurar, a bordar. Mas tem aquelas que, infelizmente, não se enquadraram e acabaram se distanciando do carnaval", explicou.