Economia

entrevista

"Dever não é defeito; defeito é você não poder pagar aquilo que comprou", diz economista

Profissional mostra que este é bom momento para replanejar orçamento e pagar contas

Redação

30/11/2014 - 17h30

Viver sem se preocupar com dinheiro quem não quer? Mas enquanto isso não acontece, o remédio é tomar cuidado e prestar bastante atenção nos gastos de todo dia.  Principalmente nesta época de fim de ano, quando o 13º  salário cai na conta e a tentação das compras aumenta. Para ficar longe das armadilhas do alto consumo, conversamos com o economista Thales de Souza Campos, de Campo Grande. Ele explica que este é um bom momento para equilibrar as finanças, por meio de planejamento. E que, ao fazer isso, é possível  comprar uma lembrancinha e festejar as festas em família sem grandes pesadelos.   

CORREIO PERGUNTA 
O fim de ano está aí e a primeira parcela do 13º salário praticamente na conta do trabalhador, incentivando-o a gastar. Este é um bom momento para comprar?

THALES DE SOUZA CAMPOS – Não, definitivamente, não! Este é um bom momento para equilibrar o orçamento. Nós saímos de dois grandes eventos, um esportivo e o outro político – a Copa do Mundo e as eleições –, em que houve muita circulação de dinheiro no mercado. Em Campo Grande e Mato Grosso do Sul não foi diferente, por mais que o grande evento esportivo não tenha sido aqui. Então, este é o momento de planejar. Quem já recebeu ou vai receber o 13º salário deve fazer um planejamento para, aí sim, organizar as suas compras. 

Comprar à vista ou a prazo? E o tão sonhado carro é hora para comprar?
Depende do planejamento. Se ele tem alguma folga, o consumidor pode decidir entre um e outro. Se for comprar à vista terá que, necessariamente, cobrar de seu vendedor o desconto. Porque se for comprar a prazo tem o custo financeiro embutido, já que o sistema financeiro funciona assim em qualquer lugar do mundo. Eu costumo sempre dizer: dever não é defeito; defeito é você não poder pagar aquilo que comprou. Dever é até bonito, porque deve apenas quem tem crédito. E quem tem crédito é porque pagou as suas contas. Agora, pagar à vista ou a prazo depende do recurso naquele momento. E não se esquecer de nunca ficar com zero de recurso, é preciso ter economias para um momento de emergência. E, por fim, se o consumidor vai comprar um bem, como um carro por exemplo, posso dizer que 10% das pessoas têm condições de comprar um carro à vista. Necessariamente terá que dar uma parcela de entrada e o restante em parcelas a prazo. Procure comprar com as parcelas a prazo que não tenham juros embutido, principalmente os pós-pagos. Tem que comprar a prazo com juros pré-indicado, ou seja, sabendo o que vai pagar da primeira à última parcela. Do contrário, haverá reajustes no meio do caminho que o consumidor não conseguirá pagar. 

Fim de ano, além de ser uma época de compras, é também tempo em que normalmente ainda restam contas a pagar. O que fazer para equilibrar as finanças e não deixar de comprar alguma lembrança? 
Eu penso que é necessário a gente festejar, afinal, o fim de ano é preparado para isso. Então, reorganize sua vida. A reorganização é fundamental. Assim, será possível planejar e, planejando sua vida, conseguir comprar algumas lembranças para as pessoas que lhe são mais próximas. E não precisa ser nada caro. Eu acho que os presentes deste ano devem girar em torno de R$ 50 a, no máximo, R$ 100. Esta é a faixa que a maioria vai disponibilizar, com raríssimas exceções. Então, temos, sim, que festejar, até por que não presentear algumas pessoas? Sem nunca esquecer que o novo ano vem aí e, com ele, muitas responsabilidades financeiras. 

Logo no início do ano, algumas despesas surgem, como matrículas escolares, IPVA, IPTU, as faturas das compras de fim de ano, a compra do material escolar, entre outros. Como equilibrar essas despesas? 
Necessariamente, é preciso pegar no início do ano as suas principais despesas, principalmente no que diz respeito a impostos, que, se você não paga, os juros são altíssimos. Depois, tem a outra que também é prioritária, a educação. Cada um sabe suas respectivas necessidades – umas para si próprio, outras para os filhos ou alguém da família. Então, reservar o dinheiro para o pagamento das parcelas da escola e material escolar. E, claro, neste caso, não esquecer de fazer pesquisa  em, no mínimo, três lugares diferentes para verificar os preços. 

Como o consumidor que exagerou nas compras pode negociar as dívidas em atraso? A negociação é sempre o primeiro e melhor passo?
Sim, ela é fundamental. Se a pessoa esqueceu-se de planejar e exagerou nas compras, é necessário que faça uma negociação administrativa, ou seja, procure aquele que lhe vendeu, o credor, para renegociar sua dívida. Porque isso é interessante para ambos os lados. O credor não tem nenhum interesse em mantê-lo fora do mercado, ao contrário. Ele tem interesse que você organize a sua vida e volte a consumir. E quando você voltar a consumir, tenha sempre contigo o seu orçamento mensal, para saber exatamente quanto pode gastar.

Quais são os erros mais comuns cometidos pelas pessoas ao organizar suas finanças pessoais? 
Comprar por impulso. Este é o principal erro das pessoas. E não é só característica do gênero feminino não; do gênero masculino também. Por mais que seja um bem supérfluo, ele deve analisar suas possibilidades de compra. E a primeira pergunta que deve fazer a si mesmo: “Eu tenho dinheiro para comprar isso?”. E não estou falando de dinheiro no bolso, em sua conta bancária, digamos assim. Se você tem dinheiro para isso, se reorganizou e está com uma folga, pense bem e faça a compra. Mas a compra por impulso é o grande problema do consumidor. E aí tem que analisar, independentemente das promoções ou não. E sempre fazer a pergunta principal: “Eu preciso disso? Eu posso pagar por isso? Quanto de minha renda ficará comprometida com esta compra?”.

Como uma família deve se orientar para saber o que é essencial e o que é excessivo numa compra de mercado? Por exemplo, um cereal multicolorido que o filho não fica sem no café da manhã é essencial? 
Não, não é essencial. Mas o que a pessoa precisa ver é se ela pode pagar por aquilo. Se ela pode pagar e quer comprar, tudo bem, aquilo passa a se tornar essencial para ela. Então, o principal numa compra é fazer esta análise: “Eu posso ou não pagar?”. Então, você pode, assim, organizar a sua vida.

É público e notório que a economia brasileira vai mal das pernas. Você acha que ficará mais fácil, mais difícil ou os desafios para equilibrar as finanças se manterão no mesmo nível no próximo governo?
Pensando em nossos gestores – tanto a nível municipal, como estadual e federal –, nossa economia é analisada a partir da cabeça, do cérebro que vai dirigir o Banco Central. Se a pessoa vai dirigir o Banco Central ou o Ministério da Fazenda, são estas cabeças que conduzem a política econômica. Precisamos ver se ele tem independência ou não, se é ortodoxo ou heterodoxo. Se é heterodoxo, é aquele que causa impacto. Se ele é ortodoxo, é aquele que tem calma, que organiza as coisas para um certo período, não faz nada sob impacto. Ao analisar esta situação econômica como um todo, que não está tão branda para o próximo ano como indicam todos os patamares, posso dizer que diferentemente estão o Estado de Mato Grosso do Sul e o Centro-Oeste neste cenário do Brasil. Nós estamos saindo de um binômio pecuária/grãos, nas duas últimas décadas, e entrando num cenário de agregar valor ao produto. O que é isso? É industrializar o Estado. Nós sabemos que as regiões de Três Lagoas e Dourados passam pelo processo de industrialização e isso alavanca o desenvolvimento do Estado – que é diferente de crescimento. O outro lado são as empresas que já se instalaram e estão em processo de consolidação ou de quebradeira. E também há aquela coisa normal no ciclo econômico, da empresa que se instala sem um certo planejamento e acaba, também, igualzinho ao consumidor. A empresa que se instala mal, sem planejamento, está fadada a quebrar. 

O senhor acredita, então, que estamos no momento de frear os gastos desnecessários e ficar observando o mercado?
É fundamental, hoje, você analisar tudo o que vai gastar. Frear eu acho que é quase impossível, porque temos os gastos de primeira necessidade, como a alimentação, por exemplo. Mas até para isso é preciso analisar o que e onde comprar. Eu posso dizer que neste fim de ano, para chegar no próximo, o consumo já está mais calmo, não se veem grandes movimentos de consumo, todo mundo está analisando. É preciso reanalisar tudo o que você vai fazer, apesar de que Campo Grande e Mato Grosso do Sul vivem um momento diferente do Brasil, diferentemente daquele estado que sediou grandes eventos, que tem muita conta para pagar. A partir daí, houve uma reanálise e esta reanálise que se está fazendo da economia provoca uma necessidade de diminuir a sua despesa. Ao diminuir sua despesa, consegue fazer quase que um freio, pelo menos, não gastar mais do que se pode. Do contrário, a pessoa terá consequências graves nas finanças no início do ano e a consequente inadimplência. Porque a pior coisa do mundo é o tal “devo, não nego, pagarei quando puder”. Isso não é bom para o empresário nem para o consumidor. Porque o maior bem do mundo, que o ser humano tem, é o crédito,
seu nome limpo.

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