Desde o início da pandemia, o Brasil enfrenta mudanças na economia e alterações no preço de alimentos e insumos da construção civil. E no agronegócio não é difereante: a alta nos custos de produção de grãos e gado chega a mais de 60%, principalmente, em decorrência dos insumos mais caros.
O impacto tem preocupado produtores, que ainda precisam comprar sementes e fertilizantes para as próximas safras ou ração para o gado.
Dados da Associação dos Produtores de Soja de MS (Aprosoja-MS) apontam que, na safra de soja 2020/2021, a média do custo operacional por hectare foi de R$ 3,4 mil. Do total, 52,4% foram gastos predominantemente na compra de insumos agrícolas para as lavouras.
Já para o milho 2ª safra 2020/2021 o custo operacional foi de R$ 3,2 mil por hectare. A manutenção da lavoura foi responsável por 63,62% desse valor, com destaque para o uso de fertilizantes e sementes, com 27,92% e 16,26%, respectivamente. Os insumos correspondem a materiais como fertilizantes, herbicidas e fungicidas.
Segundo a analista técnica da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Sistema Famasul), Eliamar Oliveira, os custos de produção estão altos porque o valor dos insumos é atrelado ao dólar, ou seja, “quanto mais a moeda norte-americana se valoriza ante o real, mais aumentam os preços dos insumos agrícolas, que em geral tem componentes importados”, avalia.
Além disso, a analista explica que a valorização recorrente nos preços dos combustíveis é outro fator que tem impactado os custos de produção.
Países produtores de soja, como os Estados Unidos, tiveram menor produtividade este ano, contribuindo para o cenário atual de forte demanda por grãos.
Com o milho a situação foi parecida, grande demanda mundial, principalmente da China, que vem profissionalizando cada vez mais a produção de carne suína e tem interesse no milho como ração.
“O mercado produtivo está lutando para dar conta de toda essa demanda mundial, e os produtores estão buscando cada vez mais tecnologias para atender a essa alta demanda”, quem explica é o engenheiro agrônomo e diretor-executivo da MS Integração, empresa que atende produtores rurais de 77 dos 79 municípios de Mato Grosso do Sul, Roney Pedroso.
GRÃOS
Além do alto custo para produzir os grãos, o Estado registrou a quebra da safrinha de milho, o que acabou por encarecer a produção de bovinos, suínos e aves. Conforme o Sistema de Informação Geográfica do Agronegócio (Siga MS), o Estado registra queda de 2,722 milhões de toneladas de milho no comparativo com a produção inicial.
No início da 2ª safra de milho 2020/2021, a expectativa era de um volume de 9,013 milhões de toneladas de grãos e uma produtividade média de 75 sacas por hectare.
Com a falta de chuvas, a queda de granizo e as geadas, as lavouras de milho tiveram problemas para se desenvolver e muitas áreas chegaram a perder 100% do plantio. A estimativa atual aponta para colheita de 6,285 milhões de hectares.
Além de ser a base de produtos como etanol, óleo e farinhas, o milho é o principal componente da ração animal para aves, suínos e bovinos.
De 2020 para cá, o cereal registrou valorização de 65,80% no preço da saca. Neste mês, a saca com 60 kg é comercializada a R$ 81,09, ante os R$ 48,91 no mesmo período de 2020.
Já a saca de soja registra valorização de 12,52%. Em setembro do ano passado, a oleaginosa havia sido cotada em média a R$ 139,7, já neste mês, a saca foi a R$ 157,26.
Os fertilizantes sofreram interferência da pandemia, e nitrogenados e fosfatados tiveram alta no mercado internacional.
Um cenário ideal, segundo o engenheiro agrônomo, é o de equilíbrio nas contas.
“Não precisávamos ter uma soja a R$ 150, poderia ser R$ 70, e o milho a R$ 30, por exemplo, mas com custos compatíveis com essa produção”, argumenta.
Para a analista técnica da Famasul, as estimativas indicam que despesas com custeio da safra da soja 2021/2022, que envolvem sementes e fertilizantes, por exemplo, deverão ser superiores às despesas da última safra.
“Para a segunda safra de milho 2022, deve-se ter atenção redobrada no mercado. Os produtores devem atentar-se, em especial, no momento da realização da compra dos insumos, a fim de garantir melhores preços e negociações”, afirma Eliamar.
Na avaliação dela, o planejamento e a gestão da atividade é que vão indicar o melhor momento para as aquisições. “É importante que o produtor fique atento ao mercado, acompanhe os preços dos insumos, busque propostas mais atrativas e avalie a disponibilidade de recursos, próprios ou via crédito, de modo que a decisão garanta melhor custo-benefício”, salienta.
PECUÁRIA
Na pecuária, com a alta nos preços, a redução da oferta de milho e as pastagens danificadas com a seca e a geada, o Estado registrou queda na oferta de animais, alto custo da arroba e redução dos abates.
Mesmo diante dos casos identificados da doença da vaca louca, que culminaram na paralisação das exportações para a China e na derrubada dos preços da arroba do gado, o preço médio ainda é mais alto do que no ano anterior.
No comparativo com 2020, houve alta média de 20,41% no valor da arroba do boi, saindo de R$ 240 para R$ 289 em setembro deste ano. A arroba da vaca aumentou 21,25%, saindo de R$ 226,53 para R$ 274,67.
Conforme informações do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), no sistema de produção recria-engorda da bovinocultura de corte, produzir uma arroba ficou 60% mais caro entre os meses de julho de 2020 e julho de 2021. A alimentação chega a representar de 20% a 35% dos custos de confinamento no Brasil.
“Isso demonstra o tamanho do desafio enfrentado diante da valorização generalizada nos preços dos insumos”, finaliza a analista técnica Eliamar Oliveira.