Economia

EMPRESAS

Comerciantes da Capital migram os negócios para os bairros

Altos custos dos aluguéis e mudança no perfil dos consumidores "empurraram" empresários para longe da região central das cidades

Com o aumento do custo do aluguel e a mudança no perfil de consumo, uma tendência percebida há alguns anos se intensificou durante a pandemia: a migração de negócios dos shoppings para o centro, e do centro para os bairros.  

De acordo com a economista Daniela Dias, que analisou os impactos da pandemia no comércio do Estado, no 2º semestre de 2020, o número de lojas nos bairros aumentou em mais de 100%.  

“Podemos dizer que o número de estabelecimentos nos bairros mais do que dobrou nos últimos anos", avalia.

"Entre os principais motivos associados a esse aumento da migração para o comércio de vizinhança estão o valor do aluguel, a comodidade e a oportunidade com a mudança de comportamento do consumidor e o aumento populacional das regiões de Campo Grande. O que tem acontecido também em Dourados e Três Lagoas”, completa.

O Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), utilizado como base para o reajuste dos contratos de aluguel, acumula alta de 16% no ano até setembro e de 24,86% em 12 meses.

Segundo a presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas de MS (FCDL-MS), Inês Santiago, o metro quadrado do aluguel no centro de Campo Grande passa de R$ 4 mil.  

“Temos visto empresários saindo do centro e indo para os bairros como forma de manterem os seus negócios. O centro vem representando grandes desafios, primeiro com a reforma, dificuldade de estacionamento, e agora, após quase dois anos de pandemia, novas reformas são iniciadas", analisa.  

"Os aluguéis ficaram mais caros, em razão supostamente da valorização dos imóveis. O metro quadrado no centro está na faixa de R$ 4.600,00”, completa.  

Conforme pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa da Fecomércio (IPF-MS), no segundo semestre de 2020, a maior motivação para os empresários se manterem na região central seria a possibilidade de estar próximo das lojas grandes. 

O comércio de vizinhança estava atrelado ao valor do aluguel. “Vale ressaltar que, quando a gente fala especificamente de Campo Grande, um dos grandes medos, principalmente após a reforma da 14 de Julho, era a questão da valorização dos imóveis”, diz Daniela.

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SHOPPING

Para a economista, as lojas nos shoppings ficaram ainda menos atrativas do que as do centro. 

“O valor agregado dos shoppings é ainda mais significativo. Os empresários precisam estar onde os clientes estão e atender às necessidades desses clientes", analisa.  

"Então, realmente, a questão de aluguel, condomínio, alguns outros encargos, tudo isso acaba desestimulando, principalmente nesse momento em que a gente ainda tem reflexos bastante negativos na economia, que continua bastante instável”, analisa.  

A mudança no perfil citada pela economista leva em consideração o aumento das compras a distância, em que não necessariamente é preciso ter um estabelecimento físico na região central.  

“Para os shoppings continuarem existindo, a gente precisa ter um diferencial de uma agregação de valor que atenda alguma necessidade desse consumidor, mas também a necessidade desse empresário que está sofrendo bastante diante da pandemia, com a economia instável", destaca Daniela.

"Essa instabilidade no que diz respeito a própria credibilidade brasileira, a questão de medo de consumir, tudo isso acaba impactando, sem dúvida, a tomada de decisão dos empresários”, completa.

O presidente da associação dos lojistas de shoppings de Campo Grande, Kermson Martins, acredita que há um equilíbrio. 

“Da mesma forma como tem loja do shopping que já se consolidou e enxerga que na loja de rua ela já consegue manter a clientela dela, ela vai. Em contrapartida, algumas lojas do centro mudam para o shopping pensando em ter um fluxo maior de clientes. Há lojas que se enquadram em shopping e outras não”, analisa.  

“É uma via de mão dupla, ao mesmo tempo em que tem gente querendo sair do shopping, porque, sim, o aluguel é mais caro do que o de uma loja convencional de rua, tem muito lojista que quer ir para lá”, finaliza Martins.

LOJISTAS

Em Campo Grande, muitos corredores comerciais foram formados nos últimos anos em diferentes regiões da cidade, como nas ruas Bom Pastor, Divisão, Souto Maior, Ana Luiza de Souza, entre outras.  

Há três anos, o Thomaz Lanches abriu uma nova unidade em um bairro. Além de já funcionar na Rua Sete de Setembro há 43 anos, agora está no Bairro Vilas Boas, na Avenida Bom Pastor.  

“É um bairro muito família, eu sempre achei que a gente pudesse abrir aqui justamente para atender esse público. A gente tem esse perfil de família. Como Campo Grande é uma cidade que cresceu bastante, as pessoas se deslocavam muito do bairro para o centro para frequentar o nosso estabelecimento”, explicou José Thomaz Filho, que tem sociedade com seu irmão, Ricardo Thomaz.  

Ainda de acordo com Thomaz Filho, existe também a possibilidade de abrir em outros bairros, como o Santa Fé.  

A proprietária da loja Trecos e Tarecos Presentes, Ana Luiza da Cruz, optou por abrir a loja no Bairro Parati pela localidade e valorização da principal rua comercial da região sul da Capital.

A loja existe na Rua da Divisão há um ano e meio, mas antes estava instalada no bairro vizinho: Aero Rancho. 

“Uma região boa para vendas, tem se desenvolvido bastante. É melhor em questão de localização para os clientes, e a rua tem se tornado muito movimentada, têm aberto muitos comércios que já existem nos shoppings e isso acaba valorizando”, completou.

Também na Rua da Divisão, o proprietário da loja de moda fitness Stillus Store escolheu a localidade pela comodidade aos clientes. Segundo ele, as pessoas querem opções perto de casa.

“O motivo é a comodidade para os clientes. Hoje em dia, poucas pessoas vão até o centro e shopping. Aqui é uma via movimentada e acaba facilitando. Quanto mais prático e mais próximo for, ajuda. É natural que venham marcas mais conhecidas, depois que já tem um plano comercial. Quanto mais opção de negócios, melhor”, conclui.

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