A sobrecarga na rodovia, principalmente na BR-262, por conta da falta de opções multimodais para transporte de cargas a partir da fronteira do Brasil com a Bolívia, vai permanecer pelo menos neste mês e em janeiro.
O único recurso que contribui para reduzir o fluxo de caminhões é a utilização da hidrovia, no Rio Paraguai, porém, o nível da calha ainda não atingiu patamar comercial viável.
Com a chegada do fim do ano, o fluxo de carros, aliado aos dos caminhões, aumenta na região de Corumbá com destino a Campo Grande.
Isso ocorre por conta do período de férias, festas de fim de ano e maior trânsito de pessoas saindo de Corumbá, Miranda, Aquidauana e Anastácio sentido à Capital.
Conforme apurado com empresas do setor de transporte rodoviário, há uma previsão de aumento de trânsito de caminhões ao menos nas próximas duas semanas, por conta do carregamento de combustível que virá do porto de Paranaguá (PR) para a Bolívia.
Essa carga deve acrescentar mais de uma centena de veículos pesados ao fluxo diário de cerca de 600 caminhões que transitam na BR-262, voltados principalmente para o transporte de minério.
As mineradoras que atuam na região de Corumbá, bem como outras empresas que fazem o transporte de produtos para importação e exportação na fronteira, estão monitorando a calha do Rio Paraguai.
Porém, o aumento do nível desde a última semana de novembro ainda não garantiu a volta do transporte fluvial.
CHUVAS
O rio passa a encher principalmente quando há chuva na área de nascente, que fica nas redondezas de Cáceres (MT). De lá até Corumbá, são cerca de 550 quilômetros rio abaixo.
Nesse trabalho de acompanhamento, a estimativa feita pelo Serviço Geológico do Brasil aponta que o nível do Rio Paraguai em 2021 deve atingir índice maior do que o registrado no ano passado.
Em dezembro de 2020, a régua da Marinha em Ladário apontou para 20 cm de nível. Conforme o Serviço Geológico, a previsão é de que no fim deste ano o nível ficará em 88 cm. Essa medição já permite a navegação, apesar de haver riscos.
A previsão para os próximos 28 dias é de que o volume de chuva seja intensificado em Cáceres, o que vai gerar reflexo positivo no Rio Paraguai a partir do trecho de hidrovia em Corumbá.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) identificou que para este mês há previsão de 210 mm de acúmulo de chuva na nascente.
Essa condição favorável vai gerar resultado na calha entre duas e quatro semanas, o que será possível, então, medir somente a partir de meados de janeiro de 2022.
Mesmo assim, o nível do rio que oferece melhores condições para a navegação comercial começa a partir de 1,5 m. Nesta quarta-feira (1º), em Ladário, a régua da Marinha apontava para 28 cm.
Em Forte Coimbra, esse nível estava em -84 cm. Já em Porto Murtinho, a altura registrava 1,58 m.
A última vez em que a régua em Ladário apresentou nível acima de 1,55 m foi em meados de junho deste ano.
O nível do Rio Paraguai se manteve favorável para a navegação comercial, sem pressionar tanto as condições da BR-262, entre o começo de março e o fim de julho, ou seja, apenas quatro meses.
A estiagem severa na bacia ocasionou uma série de conversas entre o município de Corumbá, o governo do Estado e requisições ao governo federal.
As discussões foram sobre medidas a serem implementadas para desafogar a rodovia diante da crise hídrica, porém, o problema é grave e sem solução a curto prazo.
“O tema [sobrecarga de trânsito de caminhões na BR-262] é recorrente nas conversas do município e do Estado com o governo federal. Em dois aspectos, a questão da segurança da população e a manutenção da via."
"E também da necessidade de revitalização da ferrovia, uma vez que esse fluxo não está somente relacionado ao rio”, aponta o secretário de Desenvolvimento Econômico e Sustentável de Corumbá, Cássio Costa Marques.
INFRAESTRUTURA
O Ministério da Infraestrutura já está ciente das condições desfavoráveis para escoamento de produtos em Mato Grosso do Sul, principalmente na região de fronteira do Brasil com a Bolívia.
A presença do ministro Tarcísio Gomes de Freitas no Estado, em agosto, serviu para reafirmar a necessidade de intervenções, porém, nada está previsto para acontecer rapidamente.
Diagnóstico da Gerência de Inteligência e Negócios da Empresa de Planejamento e Logística (EPL), ligada ao governo federal, identificou que a região de Corumbá carece de um investimento superior a R$ 18 bilhões para o longo prazo (2020-2035) para adequar as condições de ferrovia e hidrovia para sua melhor utilização.
Com a ferrovia da Malha Oeste, que aumentaria a capacidade de transporte e criaria rota desafogando rodovia que corta o Pantanal, a previsão de investimento necessário é de R$ 14,9 bilhões.
Só para o segundo semestre de 2022 há previsão de haver relicitação para esse ramal.
Com a hidrovia, existe estudo da EPL indicando a necessidade de investimento de R$ 63,23 milhões com dragagem e sinalização, o que melhora as condições de navegabilidade.
Apesar disso, os fatores climáticos, como a estiagem, ainda causam grande influência sobre esse modal de transporte.
Outra dragagem apontada como necessária é na região do Passo do Jacaré, em Porto Esperança, obra essa avaliada em R$ 9,47 milhões.