Economia

No Estado

Queda do poder de compra preocupa construção civil

Já alguns representantes do mercado imobiliário discordam e acreditam que setor continuará aquecido

Nélida Navarro

03/12/2021 - 08h30

Apesar de o setor da construção civil e imobiliário continuarem aquecidos em Mato Grosso do Sul, o baixo poder de compra do consumidor tem preocupado representantes do mercado. 

Além do aumento dos materiais para construção, com a inflação a acelerada  a população perde a capacidade de comprar.

De acordo com o presidente da Associação dos Construtores de Mato Grosso do Sul (Acomasul), Diego Canzi Dalastra, essa questão tem preocupado pois não se sabe, também, como estará o poder de compra ao final da obra, quando terá o custo final.

“O  setor da construção civil continua aquecido. O problema é que o mercado ainda não conseguiu passar completamente o aumento dos materiais." 

"A preocupação está justamente aí, quando repassar o aumento total dos materiais, o valor da parcela dos financiamentos imobiliários, consequentemente, vai subir por conta do valor do imóvel que sobe e aí ele não cabe dentro do poder de compra do consumidor”, destaca Dalastra.

“O cenário hoje é preocupante, é um alerta porque a gente  não sabe como isso vai se comportar, como a nossa cadeia produtiva é uma cadeia longa, eu inicio uma obra hoje, com expectativa de ela ficar pronta daqui 6, 10, 12 meses."

"Então, eu só tenho meu custo final daqui a alguns meses. E aí que eu vou precisar ter o recurso financeiro lá na frente”, acrescenta.

Paralelo a isso, o presidente da Acomasul lembra que os materiais continuam em falta, com prazo de entrega prolongado, além dos materiais de construção e os juros imobiliários terem tido majoração.

“Hoje a gente continua com alta de material, não num prazo tão longo, mas as indústrias ainda têm um deficit de produção, hoje você tem uma média de três meses de espera de mercadoria." 

"Os aumentos continuam, não em uma escala tão acelerada igual tava no início, mas o piso de revestimento teve uma nova alta de 10% mês passado. Atrelado a isso, tem uma alta do juros que já estão subindo e a previsão é subir mais”, pontua.

O mestre em Economia, Eugênio Pavão, explica que o ideal seria que o poder de compra do consumidor ficasse acima de cinco salários mínimos.

“Podemos dizer que acima de cinco salários mínimos, sobra algum recurso para reformas e construção." 

"O pagamento de aluguéis representa um peso importante na renda das famílias, garantindo a moradia”, destacou.

O economista  ainda diz que há preocupações e incertezas sobre a recuperação dos setores.

“O mercado imobiliário e da construção civil tem no financiamento a sua principal ferramenta de desenvolvimento. O crescimento do setor é bastante claro." 

"A dúvida do setor é se os pagamentos das parcelas do financiamento e as compras dos produtos para construção serão quitados em curto e médio prazo”, disse.

“A pandemia afetou fortemente a renda da sociedade e o emprego, reduzindo os recursos para as despesas não essenciais, sendo os gastos concentrados em alimentos, despesas de água, luz." 

"O equilíbrio destes setores dependem da recuperação da economia, do emprego e da renda”, completa Pavão.

ALTERNATIVAS

Já que o poder de compra do consumidor não está acompanhando as altas, ainda conforme a Acomasul, o setor está buscando algumas alternativas para que as pessoas consigam ter acesso aos imóveis.

Alguns dos exemplos citados são: aumento do prazo de financiamento para diminuir o valor da parcela e financiar um valor maior do imóvel e não os atuais 80%.

Conforme o presidente da Associação, o assunto ainda está sendo debatido entre associações da classe e pela Caixa Econômica.

OUTRO LADO  

Para o Sindicato de Habitação de Mato Grosso do Sul (Secovi-MS), o que tem preocupado é a inflação. No entanto, o consumidor que já está decidido comprar um imóvel, só vai esperar a hora certa e comprar.

“A lógica da compra do imóvel é diferente de outros negócios, quando a pessoa decide comprar, ela faz uma análise, vai e compra." 

"Se encaixa no orçamento dela, se tem emprego, tem oportunidade e o valor está bom, porque não comprar? O que influencia na compra do imóvel é a oferta”, explicou o presidente do Sindicato, Marcos Augusto Netto.

Para o presidente do Sindicato dos Corretores de Imóveis de Mato Grosso do Sul, João Araújo, o baixo poder de compra não tem influenciado.

“[O baixo poder de compra] não tem preocupado nada. A renda é familiar, independente se ele tem baixo poder de compra ou não." 

"A composição de renda na hora de fazer o financiamento, quem vai fazer essa análise é o banco, tem que ter só o nome limpo, não ter essa restrição. O mercado está ótimo, no melhor momento”, destaca Araújo.

ÍNDICE

Em novembro, o Índice Nacional de Custo da Construção - M (INCC-M) registrou variação de 0,71%, contra 0,86% no mês anterior. 

O acumulado do ano ficou em 13,86% e em 12 meses, 14,69%. A taxa calculada mensalmente pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) mede o aumento dos custos dos insumos utilizados em construções habitacionais.  

No grupo Materiais, Equipamentos e Serviços, a taxa correspondente a Materiais e Equipamentos variou 1,23% em novembro. Em outubro subiu 1,68.

Para materiais para estrutura, a taxa passou de 2,12% para 0,73%. Serviços passou de 0,36% em outubro para 0,49% em novembro.  

O índice da Mão de Obra variou 0,28% em novembro, ante 0,10% em outubro. 

Em janeiro, a variação foi de 0,89%; fevereiro 1,89%; março 1,30%; abril 0,90%; maio 2,22%; junho 2,16%; julho 0,85%; agosto 0,46% e setembro 0,51%.

PREÇOS

De acordo com boletim do Sindicato Intermunicipal da Indústria da Construção do Estado de Mato Grosso do Sul (Sinduscon-MS), alguns materiais tiveram aumento de até 70,83%, de setembro para dezembro.

O metro quadrado de estrutura de madeira para telha cerâmica ou concreto (3 a 7m) subiu 6,65%, saindo de R$ 75,22 para R$ 80,22.

O m² da janela de ferro de correr sem grade, teve aumento significativo de 70,83%. O custo saiu de R$ 352,98 para R$ 602,98.

Forro PVC rígido (100 mm) saiu de R$ 60 para R$ 70 (16,66%). O tubo PVC rígido soldável (110 mm) passou de R$ 150,15 para R$ 154,05 (2,60%).

Balanço divulgado pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) mostra que as vendas de imóveis novos tiveram queda de 9,5% no 3° trimestre de 2021, se comparado ao mesmo período do ano passado.

No entanto, os lançamentos tiveram acréscimo de 13,6%. Se confrontar com o trimestre anterior, as vendas caíram 11,2% e os lançamentos cresceram 7%.  

Já no acumulado de janeiro a setembro deste ano, as vendas aumentaram 22,5%, em relação ao ano passado.

No acumulado de 12 meses, os lançamentos aumentaram 23% em relação ao ciclo anterior.

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