Dois objetivos importantes são buscados no 1º workshop sobre controle biológico de pragas e doenças que impactam a agropecuária do Estado de Mato Grosso do Sul, evento que começa amanhã, terça-feira (13), e se estende até quinta-feira (15), no auditório da Casa Rural, sede da Famasul, em Campo Grande. São eles: incentivar e, dessa forma, atrair a vinda de biofábricas (laboratórios produtores de insetos que se constituem em inimigos naturais de pragas e doenças) para se instalar no Estado; e debater e colher informações e subsídios para a elaboração do Plano de Controle Biológico para Mato Grosso do Sul.
Tudo isso é motivado por uma realidade da qual não se pode mais fugir e muito menos deixar de enfrentar: vários insetos que atacam lavouras estão ganhando resistência aos produtos agroquímicos existentes. Por isso, esses produtos estão ficando ineficazes no combate às pragas, comprometendo o controle fitossanitário.
Em função dessa realidade, e pela necessidade de enfrentar o problema, diversas entidades decidiram colaborar com o governo do Estado na elaboração do Plano de Controle Biológico de MS.
E cada segmento da agropecuária regional vai estar presente no workshop, para que cada setor possa apresentar suas demandas e dar sua contribuição. Estão previstas palestras que abordarão a realidade como um todo e também individualmente, enfocando a soja, o milho, a cana-de-açúcar, o eucalipto, o algodão e os bovinos.
No Estado, especialmente duas pragas apresentam maior resistência aos agroquímicos tradicionais e, por isso, necessitam de um plano de combate biológico eficiente: as lagartas-da-soja e o percevejo-da-soja – que também ataca o milho.
Conforme o professor Ruy de Araújo Caldas, que já foi presidente do CNPq, a broca-da-cana é outra praga crítica, por também não estar mais sendo atingida pelos produtos agroquímicos. Segundo ele informou ao Correio Rural, em Alagoas, pesquisadores já encontraram um tipo de feromônio que está sendo usado com sucesso no combate à broca-da-cana. Ruy Caldas é o coordenador de palestras do evento e afirmou que é muito importante a adoção de uma política sobre o assunto, principalmente porque “os produtores procuraram as autoridades estaduais pedindo auxílio tecnológico para reduzir o efeito de pragas e doenças na agropecuária. Assim, reuniremos os pesquisadores de todo o País para apresentar experiências e informações sobre a viabilidade e o sucesso de diversas técnicas. “Essas informações darão subsídios para a elaboração do Plano de Controle Biológico de MS”, explicou.
O Workshop de Controle Biológico de MS é realizado pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e Fundação MS, com apoio da Federação da Agricultura e Pecuária de MS (Famasul) e Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul (Fundect).
Representando a Embrapa Agropecuária Oeste, o pesquisador Harley Nonato de Oliveira, responsável pela área de controle biológico e chefe-adjunto do P&E, vai dar ênfase, em sua palestra, ao manejo integrado e a importância do manejo para esse trabalho. “Tem que se fazer um manejo de identificação das pragas e, também, dos inimigos naturais dessas mesmas pragas”, afirmou. Explicou que, em primeiro lugar, é preciso identificar as pragas que estão causando os prejuízos e depois ter ciência de que no ambiente também existem inúmeros insetos que são inimigos naturais, embora ele prefira chamar de “amigos ocultos”, que são aqueles insetos que poderão combater ou reduzir a ação das pragas. “Quando fazemos esse acompanhamento, esse manejo, e sabemos quais são as pragas e seus inimigos naturais, estamos contribuindo com a proliferação dos ‘amigos ocultos’”, afirma Harley de Oliveira. Ele também destaca que é importante manejar, que nada mais é do que ir acompanhando o ambiente da lavoura, para poder intefirir na hora certa, seja usando o controle químico, os inimigos naturais ou no uso de uma variedade BT, que inibem a ação das pragas.
Por fim, o pesquisador salientou a importância de se produzir esses inimigos naturais, ou “amigos ocultos”, em laboratórios aqui no Estado, permitindo acesso mais fácil dos produtores a esse benefício. Segundo ele, hoje a maioria das fábricas biológicas está instalada em São Paulo. “Temos que lembrar que estamos tratando de seres vivos, que precisam estar em condições de serem usados, por isso, se estiverem mais próximos dos produtores de MS, certamente as vantagens serão diversas”, enfatizou.
O diretor-executivo da Fundação MS, Alex Belotto, falou ao Correio Rural, salientando que a Fundação MS discutirá sobre as principais pragas e doenças da soja e do milho em Mato Grosso do Sul. Questionado sobre a atração das biofábricas para o Estado, ele disse que, “levantando-se as demandas, provavelmente haverá necessidade de produção de inimigos naturais, o que acarretará em oportunidade de negócio para biofábricas em MS”, e complementou que é necessária a produção de desses agentes, ou seja, organismos vivos que devem ser de espécies e condições similares às de seu ambiente de uso. “Além disso, o transporte por longas distâncias aumenta muito a mortalidade, principalmente, quando utilizamos insetos. Dessa forma, há necessidade de produção local dos agentes de controle biológico”.
Como um importante representante da classe produtora, o presidente da Fundação MS confirma que, “seguramente, o maior problema, tanto da soja quanto do milho, é o complexo de percevejos, cujo grupo possui espécies que já consideramos como fora de controle”. Concluiu dizendo que um dos grandes problemas do sistema agrícola nacional é a aquisição de resistência por parte das pragas aos produtos químicos. “Insetos, fungos e também plantas daninhas já apresentam resistência a muitos produtos, o que faz com que percamos várias tecnologias pelo mau uso, como é o caso de muitas do tipo Bt”, complementou.