Correio Rural

ENTREVISTA

Presidente da Famasul defende competitividade e coletividade

Ele tomou posse na direção da entidade tendo pela frente grandes desafios de gestão

O novo presidente do Sistema Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul), Marcelo Bertoni, tomou posse na terça-feira com a diretoria eleita da entidade. 

Ele assumiu vendo o agronegócio deixando o cenário da pandemia do novo coronavírus, um período em que toda a economia brasileira sofreu os impactos negativos da disseminação da Covid-19.

Marcelo Bertoni tomou posse tendo pela frente grandes desafios de gestão, e, conforme tem destacado, alguns desses desafios serão manter o nível de atuação e comprometimento das demandas do setor e continuar contribuindo para a agropecuária sul-mato-grossense.

O presidente acredita que com o empreendedorismo dos produtores rurais e as ferramentas tecnológicas será possível garantir bons resultados, com foco na qualidade de vida das pessoas que trabalham no campo.

O dirigente sustenta que, para que a evolução do segmento aconteça, é importante que os esforços sejam conjuntos. O apoio de todas as entidades ligadas direta ou indiretamente ao agro, públicas ou privadas, é fundamental para elevar o patamar competitivo e conduzir a instituição com representatividade.

O Correio do Estado ouviu o novo presidente sobre alguns pontos do agronegócio em Mato Grosso do Sul e suas perspectivas para um novo tempo.  

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CORREIO DO ESTADO – estamos ensaiando a saída de um cenário de pandemia de Covid-19. Quais são as perspectivas para esse novo tempo em Mato Grosso do Sul?

MARCELO BERTONI – as perspectivas são as melhores possíveis. Mato Grosso do Sul está em franca expansão da área agrícola, tanto de grãos, como soja e milho, quanto de florestas plantadas, como é o caso do eucalipto com destino à produção de celulose. Ao mesmo tempo, a pecuária bovina tem evoluído em produtividade, principalmente, recuperando as pastagens e aumentando os níveis de lotação animal por área e produção por animal e por área também.

O que fez o agronegócio manter-se em uma posição de destaque, mesmo diante de um quadro tão difícil (pandemia) para a economia?

O agro nunca para. Tanto é que o setor, logo no início da pandemia no País, foi reconhecido como atividade essencial para a humanidade. Seguindo todos os cuidados de biossegurança, essa medida garantiu a continuidade do trabalho no campo. 

O “escritório” do produtor rural está no campo. Além disso, outros fatores levaram o agronegócio a se manter em destaque nesse cenário de pandemia. Temos um setor com uma gestão profissionalizada, com sistemas gerenciais que trazem indicadores e assertividade nas decisões dos produtores. 

Também temos a tecnologia aplicada no campo e, com toda a certeza, o pioneirismo dos produtores junto às entidades e às instituições de pesquisa, buscando alternativas, ferramentas, variedades e novos processos para produzir mais com menos, sempre com sustentabilidade. Esse tem sido o tripé da pujança do nosso agronegócio aqui em Mato Grosso do Sul.

Você avalia que a capacidade produtiva e a demanda internacional têm sido fatores preponderantes para o resultando positivo do agronegócio nos últimos meses?

Sem dúvida, a capacidade produtiva, ou seja, as áreas já destinadas para agricultura e pecuária de Mato Grosso do Sul, que dão para o Estado uma escala considerável em produção de grãos e proteínas, foi fundamental para que a gente estivesse pronto para acessar a demanda internacional, principalmente por parte da China, que tem crescido desde 2019 e se intensificou em 2020/21. 

Isso tem sido um fator muito decisivo. Além disso, o Estado tem uma localização estratégica, conseguindo colocar seus produtos, tanto na Costa Atlântica como agora pela rota do Pacífico, de forma competitiva, por vias rodoviárias e hidroviárias, e também conseguirá, no futuro, colocar por vias ferroviárias.

O que se espera para os próximos meses?

O que se espera é o desenvolvimento da próxima safra, provavelmente em outubro começa o plantio de soja [da safra] 2021/2022. Estaremos entrando na primavera e verão com a recuperação das pastagens e das chuvas e, assim, começando um novo ciclo de estação de monta das nossas matrizes, um novo ciclo de produção de abate de animais a pasto e o contínuo desenrolar das atividades.

Como a crise hídrica tem impactado o setor agrícola?

A crise hídrica é causada por fenômenos climáticos que interferem nos níveis de chuva e temperatura no Brasil e no Estado, principalmente os fenômenos El Niño e La Niña, que, nos últimos anos, têm sido uma realidade. 

Mesmo com todo esse contexto, os produtores rurais, por meio das tecnologias de monitoramento, de variedades e também de processos, têm conseguido abrandar as intempéries climáticas. Inclusive, a irrigação tem crescido muito e tem sido uma forma de amenizar os efeitos climáticos na produção, que segue firme e resiliente.

Quais são as maiores preocupações dos produtores sul-mato-grossenses que devem merecer uma atenção especial da Famasul?

Podemos elencar como principal a garantia de infraestrutura para o escoamento da produção. É uma preocupação, mas tem sido atendida tanto pelo governo federal quanto pelo governo estadual, com investimento em estradas pavimentadas, portos e renovação da nossa malha viária. 

Outro ponto importante é a segurança jurídica, que é a garantia do Estado de Direito e do respeito e execução das leis em vigência, fundamental para que o produtor possa investir a longo prazo com tranquilidade, sabendo que as leis serão mantidas e respeitadas. 

Além disso, há sempre atenção especial com a questão fiscal do Estado, de maneira que haja uma organização e estruturação das entidades públicas para que não ocorra nenhum incremento em taxas e impostos, ao mesmo tempo em que o Estado continue investindo e garantindo a produção privada.

Especificamente, será adotada alguma estratégia para que a próxima safra de soja, por exemplo, não sofra tanto quanto a safrinha de milho?

Não há estratégia específica. As adversidades climáticas que tivemos afetaram mais o milho segunda safra por uma questão de janela de plantio. 

Como o plantio da safra de soja atrasou, o do milho também atrasou. Essa condição só será revertida se as chuvas em setembro e outubro se anteciparem e os produtores conseguirem plantar dentro de uma janela normal da soja, para que a colheita permita a janela normal também do milho segunda safra. 

O regime de chuvas será o grande condicionante, mas as máquinas também têm avançado, então, com qualquer sinal de chuva ou umidade, os produtores estarão preparados para agilizar o plantio o mais rápido possível.

O que acontece com quem vendeu antecipadamente e não terá milho suficiente para entregar?

É uma questão de mercado. Os produtores têm os contratos para cumprir, mas isso não impede que haja também uma renegociação, caso os volumes não sejam alcançados.

Possivelmente haverá uma nova discussão entre os compradores e os produtores quanto ao que foi acordado, até porque podem ter acontecido questões imprevisíveis, que não são culpa ou não têm uma relação direta com as ações do produtor, mas, sim, com a questão climática e adversidade intempestiva não esperada.

Quais serão as suas prioridades à frente da Famasul nesta gestão que se inicia?  

O foco da Famasul se mantém. Garantir e proteger os interesses e direitos dos produtores, com três palavras muito importantes: coletividade, competitividade e sustentabilidade. Isso deve nortear as ações no futuro, para que o trabalho continue sendo feito em prol do setor, do desenvolvimento, da produtividade e da revolução socioeconômica da agropecuária em Mato Grosso do Sul.

Qual a sua mensagem ao setor produtivo e à população?

A mensagem para nossos produtores rurais é de gratidão. Em nome de toda a diretoria, agradeço pela confiança e por acreditarem nessa nova gestão, escolhida por unanimidade por meio dos nossos sindicatos rurais. 

Enquanto produtor rural, fica aqui meu reconhecimento a todos os homens e mulheres do campo, pela dedicação dia após dia para manter o ritmo de produção e levar alimento com qualidade e segurança às mesas dos consumidores. 

Eu penso que o alimento une, conecta o campo à cidade, aproxima mundos. Acreditar e investir na nossa agropecuária é alimentar o desenvolvimento de Mato Grosso do Sul.

Perfil

Marcelo Bertoni, 49 anos

Produtor rural desde 1989, foi um dos fundadores do Movimento Nacional dos Produtores (MNP) Jovem, em 1994 e 1995, e diretor-secretário da Associação dos Criadores do Vale do Aquidaban e Nabileque (Acrivan), entre 2008 e 2010. 

De 2011 a 2016, exerceu o cargo de diretor-presidente no Sindicato Rural de Bonito, sendo vice-presidente, entre 2017 e 2019, e delegado e representante efetivo como 1° secretário até 2021. Foi eleito diretor-tesoureiro do Sistema Famasul para o triênio 2018/2021.

Cargo atual: Presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul, triênio 2021-2024.

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