Infelicidade no ambiente de trabalho, mudança de ares ou melhor remuneração são alguns dos motivos que levam alguém a buscar uma nova carreira após anos de experiência em determinada área. Recomeçar e voltar às salas de aula de uma universidade é uma opção e o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), um caminho. Este ano, 8,4 milhões de brasileiros se inscreveram na prova, em que 174,6 mil destes são de Mato Grosso do Sul. Para uma parcela dos candidatos, a prova aplicada nos próximos dias 24 e 25 de outubro pode ser o alicerce da construção de um novo profissional.
De acordo com a especialista em recursos humanos e psicóloga do trabalho do Grupo Empreza, Marciele Cristina de Souza, a frustração com o atual emprego e área ocupada é um dos principais gatilhos que levam à mudança de profissão. “É algo que pode se dar pela insatisfação profissional. Quando a busca por uma alteração na carreira acontece, dificilmente é porque a pessoa está atrás de um incremento salarial, mas sim, quer maior realização pessoal por meio do trabalho”, comenta.
Em maio, o site Inquietaria realizou a pesquisa “Você é Inquieto?”, cujo resultado revelou que apenas 5,9% dos entrevistados estão satisfeitos no atual emprego. Ainda conforme o estudo, 83,9% dos participantes sonham com novos rumos na carreira e 38,2% já possuem planos em mente para executar essa mudança. Já outros 20,4% alegaram que pretendem partir para outra área, porém, ainda não possuem um planejamento mais detalhado em mente.
Depois de 20 anos de experiência na área de administração, logística e tecnologia da informação, Celso Barros, 45 anos, decidiu buscar um novo rumo profissional. Ele se inscreveu no Enem e vai pleitear uma vaga em cursos de Psicologia, área pela qual alega ter aptidão. “Sempre gostei de psicologia, sempre me interessei por observar o comportamento das pessoas, tenho facilidade para conversar, para escutar as pessoas e foi unindo tudo. Fiz um curso técnico de psicanálise em São Paulo e me apaixonei. Foi quando eu meti na cabeça que tinha que ser psicologia e eu vou tentar”, contou.
CANSOU
Celso Barros voltou à Campo Grande há pouco menos de um ano e enfrentou dificuldades para encontrar emprego. “Não sei se é devido ao meu currículo assustar, pois trabalhei 15 anos na distribuição da Folha de São Paulo e de O Estado de São Paulo, dois dos jornais mais importantes do país, na área de administração e de logística”, defende. Hoje, mesmo empregado, o profissional se diz cansado de lidar com as adversidades do setor em que acumulou duas décadas de experiência.
O técnico em administração conta que planeja experimentar outra área há anos, mas só este ano decidiu prestar o exame nacional. “Há algum tempo já eu senti essa necessidade de mudar de área e estava só semeando essa vontade. Eu estou de saco cheio do mundo corporativo, que eu penso que está falido. Paga-se muito pouco, exige-se demais e as pessoas que estão nas empresas têm uma qualificação muito fraca, apesar de ter a graduação. Muitos têm a graduação, mas não tem a experiência, a bagagem”, explica.
Para a especialista em recursos humanos, Marciele de Souza, outro fator que ocasiona a insatisfação profissional é a escolha precoce por uma área. “Nós temos um panorama em que os jovens de hoje em dia ingressam nas universidades cada vez mais cedo, e sempre de olho na questão financeira”, discorre. “Com o passar dos anos, o amadurecimento e a idade avançada motivam essa pessoa a procurar pela realização plena”, completa. Aos 45 anos, Barros não acredita que sua idade se torne um impedimento ao tentar o ingresso em uma nova carreira. “Eu acho que não vai atrapalhar, principalmente por causa da área que eu escolhi. Psicologia é algo que exige um pouco mais de experiência do profissional. Nesse ponto eu penso até que me favorece”, pondera. A psicóloga do trabalho, Marciele de Souza, corrobora com a opinião. “Neste caso é positivo, até porque ele já possui uma bagagem, o que é vantajoso”.
CABEÇA NOS ESTUDOS
Com a inscrição confirmada e a taxa já quitada, Celso Barros agora foca na preparação para a prova. Os 20 anos longe das salas de aula “enferrujaram” o técnico em administração. “Estou tentando me virar. Parei de estudar em 1995 e de lá para cá só fiz alguns cursinhos. Vou ter que voltar do zero”, relata.
Há pouco mais de quatro meses do Enem, o profissional se debruça sobre as novas tecnologias e conteúdos gratuitos para estudar os temas abordados pela prova. “Baixei uma série de apostilas no computador e tenho alguns aplicativos no celular que simulam o exame. Os cursos preparatórios e os materiais estão muito caros e essa é uma via de alternativa”, conclui.
Independente do sucesso em conseguir espaço na profissão almejada, a especialista em recursos humanos, Marciele de Souza, acentua o lado benéfico do processo. “É sempre positivo que a pessoa busque por mais e mais conhecimento. Isso é um mérito que não se pode tirar”.