Em alta firme desde o início dos negócios, na contramão do comportamento da moeda americana no exterior, o dólar renovou máximas na reta final do pregão e encerrou a quinta-feira perto do nível de R$ 5,10. O dólar à vista subiu 1,15%, cotado a R$ 5,0868 (após tocar a máxima de R$ 5,0983) — maior valor de fechamento desde 2 de outubro (R$ 5,2165), a última sessão antes do primeiro turno da eleição presidencial.
O movimento doméstico refletiu a postura defensiva dos investidores diante da expectativa pela divulgação da pesquisa Datafolha e do crescimento das intenções de voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cuja vitória da oposição é vista pelo mercado como fundamental para uma mudança na política fiscal a partir de 2027.
O ganho de fôlego da campanha do petista foi atribuído às manifestações recentes e, em especial, à aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala de trabalho 6x1. Somou-se a isso a notícia de que assessores aconselharam Lula a prometer “tarifa zero” para o transporte público aos fins de semana e feriados em eventual novo mandato.
Para operadores e analistas ouvidos pela Broadcast, a combinação de afagos sociais, como o perdão de dívidas dos microempreendedores individuais (MEI) e os reajustes do Bolsa Família, representa mais um elemento de nervosismo para os investidores por significar novas renúncias fiscais e custos trabalhistas a poucos dias do segundo turno.
A reação de apreensão se desdobrou diretamente na B3. Depois de passar o período da tarde na faixa dos 205 mil pontos, o Ibovespa intensificou as perdas na última hora do pregão e fechou em queda de 1,06%, aos 204.324,26 pontos (aproximando-se do piso do dia, de 203.110,43 pontos). Com o giro financeiro em R$ 27 bilhões, o índice passou a recuar 2,27% na semana, embora ainda acumule alta de 9,65% no mês e 26,81% no ano.
Analistas apontam que a recuperação de Lula nas sondagens — como na pesquisa Quaest, que mostrou Flávio Bolsonaro com 46% contra 44% de Lula, e na Indexa/Broadcast (44% a 42%), ambas indicando empate técnico — retirou a margem de conforto que vinha sendo precificada pelo mercado desde o primeiro turno.
No mercado de renda fixa, o aumento do prêmio de risco político elevou fortemente as taxas dos juros futuros, operando na contramão do alívio observado nos títulos do Tesouro norte-americano (Treasuries), cujo retorno da T-note de 10 anos caiu de 5,186% a 5,069%.
Encerrados os negócios locais, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 13,468%, no ajuste da véspera, para 13,517%. O DI para janeiro de 2029 avançou de 12,436% para 12,730%, enquanto o DI para janeiro de 2031 saltou de 12,494% para 12,760%. Além da incerteza sobre a trajetória das contas públicas, a transição da escala de trabalho para o modelo 5x2 pesou sobre os juros devido ao seu potencial efeito inflacionário, estimado em cerca de 0,4 ponto percentual no IPCA durante a implementação.
Diante desse quadro, agentes do mercado avaliam que o otimismo registrado logo após o primeiro turno vem dando lugar a um “choque de realidade”, forçando uma readequação às vésperas do segundo turno. A pressão sobre a moeda brasileira contrasta com o cenário internacional, onde o índice DXY (que mede o dólar ante uma cesta de moedas fortes) operava em queda de 0,53%, aos 102,015 pontos, mesmo após dados mais fortes da inflação ao produtor (PPI) nos Estados Unidos. Sem indicações claras sobre o futuro fiscal e com a corrida eleitoral afunilada, analistas preveem que a volatilidade nos ativos domésticos continuará elevada nos próximos dias à medida que novos debates e pesquisas ajustem as expectativas das mesas de operação.


