Astronomia

A poeira de cometa que viajou até a Terra há 20 anos e ainda desafia os cientistas

Mistério que os cientistas ainda tentam desvendar.

A missão Stardust da NASA retornou à Terra há duas décadas com partículas coletadas do cometa 81P/Wild 2. Os grãos de rocha derretida encontrados nessa poeira não correspondem a nenhum meteorito conhecido e provavelmente se formaram longe do Sol, em regiões possivelmente repletas de gelo — um mistério que os cientistas ainda tentam desvendar.

A descoberta contraria décadas de suposições científicas. Por muito tempo, os pesquisadores acreditaram que os grãos derretidos encontrados em cometas vinham de regiões mais próximas do Sol, onde se formam os meteoritos conhecidos.

A análise recente dos fragmentos coletados indica o oposto: esses grãos nasceram em locais muito mais distantes, em ambientes gelados nunca associados à formação de rocha derretida.

A jornada do cometa até nosso planeta

A missão Stardust passou pelo cometa Wild 2 em 2004 e retornou com suas partículas em 2006. Os fragmentos foram capturados em um bloco de aerogel, material leve com propriedades de vidro espumoso, projetado para frear suavemente as partículas em alta velocidade.

Quando os grãos atingiram o coletor a aproximadamente 6,1 quilômetros por segundo, deixaram túneis longos em forma de cenoura dentro do material. Mingming Zhang, da Universidade de Wisconsin-Madison, coordenou o estudo junto com colegas da Universidade de Washington. O trabalho enfocou um dos maiores desses túneis, com cerca de 17 milímetros de comprimento.

Os pesquisadores extraíram 98 fragmentos daquela amostra. Quase metade era composta por peças de condritos ou se assemelhava fortemente a eles, a maior proporção encontrada em qualquer túnel do Stardust até então.

Grãos que não correspondem a nenhum padrão conhecido

Os condritos são pequenas esferas de rocha, geralmente menores que 1 milímetro, que começaram como gotículas quentes cerca de 4,5 bilhões de anos atrás. Após esfriar, foram incorporados ao pó que construiu os asteroides rochosos.

Cientistas já encontraram condritos em cometas, mas a equipe descobriu que esses grãos específicos vêm de uma fonte não identificada. Eles não formavam uma mistura aleatória de material derivado da região dos asteroides.

A ferramenta para desvendar essa origem foi o oxigênio. Esse elemento existe em três pesos diferentes, e a proporção de isótopos leves e pesados em um mineral funciona como um endereço de retorno, revelando exatamente onde no jovem sistema solar aquele material se formou.

Entre 2021 e 2025, a equipe fez 273 medições de oxigênio nos fragmentos e as comparou com a quantidade de ferro de cada grão ligada ao oxigênio, indicador das condições de formação.

Sinais de um lugar inesperado: as regiões geladas

Cerca de 9 em cada 10 fragmentos seguiram um padrão que não correspondia aos condritos de nenhum grupo conhecido de meteoritos. Os demais eram ricos em ferro e pobres no isótopo mais leve de oxigênio — uma combinação ausente em todos os grupos de meteoritos registrados.

Quando os pesquisadores tentaram misturar condritos desses grupos em diferentes proporções, nenhuma combinação reproduziu o que observaram. Zhang disse que a descoberta mais surpreendente foi que os grãos apontam para "um reservatório de condritos previamente não identificado nas regiões ricas em gelo do sistema solar".

Grãos ricos em ferro compunham cerca de 60% dos fragmentos — uma proporção muito superior à encontrada nos meteoritos ricos em carbono que mais se aproximam deles, onde menos de 1 em cada 10 condritos apresentam essa riqueza de ferro.

A quantidade de ferro oxidado naqueles grãos sugere que se formaram em ambientes onde a água ou o gelo desempenharam um papel importante — justamente as condições que prevalecem nas regiões externas do sistema solar.

A conclusão altera parte do que se sabe sobre como e onde os materiais primitivos do sistema solar foram processados e levanta novas questões sobre os processos energéticos que geram rocha derretida em locais antes considerados frios demais para isso.

Calor extremo

Terra será atingida por tempestade solar nesta sexta e cientistas alertam para consequências

Onda de calor deve alcançar o planeta já nas primeiras horas desta sexta-feira

08/10/2026 11h38

Imagem gerada por inteligência artificial

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O sol lançou uma ejeção de massa coronal no dia 6 de outubro, e essa nuvem de partículas deve alcançar o planeta já nas primeiras horas desta sexta-feira, dia 9. Com isso, existe a chance de auroras boreais surgirem em regiões situadas mais ao sul do que costuma ocorrer, ainda que o Brasil fique fora da área de visibilidade do fenômeno.

Para esse episódio, o Centro de Previsão do Clima Espacial da NOAA estabeleceu a classificação G2, que corresponde a uma tempestade geomagnética de intensidade moderada. Esse tipo de tempestade acontece quando o campo magnético terrestre é atingido por um volume expressivo de partículas carregadas lançadas pelo Sol ao longo do espaço.

A labareda solar de classe M1.4 que acompanhou a ejeção partiu da região de manchas solares AR4549, atualmente voltada para a Terra, e isso mantém os cientistas atentos ao desdobramento.

Velocidade e horários da chegada

O Solar Influences Data Analysis Center (SIDC), da Bélgica, estima que a nuvem de partículas viaje a cerca de 560 quilômetros por segundo. O Met Office do Reino Unido projeta a chegada por volta de 1h, no horário de Brasília, embora essa estimativa tenha margem de até 6 horas para mais ou para menos.

Modelos da NOAA indicam que a tempestade pode variar entre os níveis G1 (menor) e G2 (moderada) ao longo do dia 9. O pico de atividade G2 deve ocorrer entre 6h e 9h, no horário de Brasília, mas os cientistas continuam refinando os cálculos de trajetória e velocidade conforme novas observações chegam.

Ainda não é possível determinar o horário exato do impacto, e os institutos reconhecem essa margem de erro nas previsões.

Onde as auroras poderão ser vistas

Tempestades classificadas como G2 correspondem a um índice Kp 6, faixa em que as auroras já foram flagradas em pontos tão distantes do polo quanto Nova York. Se uma parte significativa da ejeção estiver direcionada para a Terra, o fenômeno pode se estender para latitudes muito mais ao sul do que o habitual.

A visibilidade depende da orientação do campo magnético que a nuvem solar carrega no momento do encontro com a Terra.

Dependendo de como essa interação acontecer, o brilho das auroras pode ficar restrito às regiões mais ao norte ou se espalhar além do esperado. O fenômeno não deve ser observado a partir do Brasil, dada a localização do país em relação aos polos magnéticos.

Cientistas alertam que a tempestade pode ser menos intensa que um evento similar ocorrido em maio, embora a duração prevista seja de aproximadamente 36 horas.

Próximas atividades solares

Logo depois da erupção M1.4, a mesma região, AR4549, gerou uma segunda ejeção, de classe M1.8. Isso indica que a atividade solar pode não se encerrar com este evento.

Há ainda buracos coronais se deslocando pelo lado do Sol voltado para o nosso planeta, capazes de gerar novas correntes de vento solar em alta velocidade — o que deve resultar em um novo pico de atividade geomagnética por volta de 11 de outubro.

Quem pretende acompanhar o evento deve consultar os boletins atualizados ao longo do dia 9 de outubro para verificar se as condições continuam favoráveis. As previsões podem mudar conforme os especialistas analisam novas observações de coronógrafos e refinam os modelos de trajetória.

Para refletir

Nietzsche: "O sábio deve ser capaz de amar seus inimigos e de odiar seus amigos"

Frase questionava a ideia de que a lealdade exige aceitar tudo daqueles que amamos

08/10/2026 11h15

Gustav Adolf Schultze, 1882 / Wikimedia Commons

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O filósofo alemão Friedrich Nietzsche deixou uma reflexão incisiva sobre a amizade: o sábio deve ser capaz não apenas de amar seus inimigos, mas também de odiar seus amigos. Para Nietzsche, a frase não promovia o desprezo, mas questionava a ideia de que a lealdade exige aceitar tudo daqueles que amamos.

Para ele, o afeto não pode servir como desculpa para abandonar o pensamento crítico. A frase aparece em Assim Falou Zaratustra, em que o personagem central desafia seus discípulos a seguir o próprio caminho e a revisar até mesmo os ensinamentos do mestre. O propósito é claro: admiração e proximidade não devem transformar ninguém numa figura acima de questionamentos.

Lealdade e o risco de perder o juízo próprio

Nietzsche alertava contra o perigo de justificar qualquer ação apenas porque vem de um amigo. Defender alguém sem analisar seus atos pode bloquear conversas necessárias e criar contradições — o que se condena num desconhecido, tolera-se num ser querido. Essa confusão aparece ao desculpar um erro pela amizade duradoura, aceitar opiniões sem avaliá-las ou enxergar qualquer discordância como traição.

Nietzsche distinguiu o afeto da aprovação cega, e a verdadeira amizade não exige renunciar à honestidade nem à autonomia de pensamento. Questionar a conduta de alguém não implica rejeitar a pessoa — é possível separar a crítica do ataque pessoal.

Discordar como forma de cuidado

Para Nietzsche, discordar de um amigo pode ser um ato de atenção. Alertar sobre consequências de uma ação, em vez de encorajá-la sem ressalvas, é uma maneira de acompanhar com responsabilidade.

Nessa dinâmica, falar com clareza é essencial quando algo relevante está em jogo. Isso inclui explicar por que algo é problemático, descrever o fato antes de julgar intenções e ouvir a resposta do outro.

Também faz parte dessa honestidade reconhecer quando uma informação nova muda a perspectiva e estabelecer limites diante da pressão para aceitar o inaceitável. O pensamento crítico deve voltar-se para si mesmo: admitir erros, revisar convicções e corrigir o julgamento, mesmo depois de defendê-lo com firmeza.

Amizade fundada na liberdade e na honestidade

A provocação de Nietzsche faz sentido quando aponta o risco de transformar admiração em obediência. Uma relação robusta não precisa apagar diferenças nem evitar perguntas incômodas — quando há espaço para divergência, cada um permanece responsável por suas próprias opiniões e livre para pensar.

Apoiar um amigo significa ouvir, reconhecer conquistas e também apontar comportamentos prejudiciais, porque a honestidade preserva a autonomia até nos vínculos mais próximos.

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